Quem trabalha ou trabalhou em veículo jornalístico nos últimos 30 anos sabe que há uma espécie de código não escrito na maioria das redações que interdita a divulgação de suicídios pela possibilidade de “um efeito manada” provocar outros casos após a veiculação dos primeiros. Não que a notícia do suicídio “provoque” novos casos, é mais complexo do que isso. Mas determinadas pessoas com uma psique particularmente vulnerável, já contemplando, ainda que em um vago impulso desfocado, a possibilidade de tirar a própria vida como forma de escapar a um tipo particular e árduo de desespero, podem obter na notícia e na sua amplificação a centelha de ânimo ou vontade que faltava. Então a regra quando eu trabalhava na imprensa era clara: nada de notícias sobre suicídios.
No primeiro ano da primeira década deste século, quando eu trabalhava fazendo a ronda, ligando para todos os distritos policiais e unidades de bombeiros da Região Metropolitana, chegou até mim uma notícia surpreendente. Uma mulher havia pulado para a morte do Viaduto da Borges, como um fragmento perdido de outras eras, já que foram constantes no passado os casos de autoflagelo semelhantes. Era um repórter com pouco tempo de casa, mas já tinha conhecimento da interdição. Mesmo assim, talvez ainda um pouco impressionado com a leitura então recente de O Resto é Silêncio, de Erico Verissimo – que dedica uma parte substancial de sua narrativa à pesquisa de Tônio Santiago pela identidade e pela história pregressa da jovem que viu pular do alto de um edifício na Praça da Alfândega –, fui consultar o então diretor de redação se não seria interessante tentar uma reportagem mais abrangente, tentando recompor a identidade do personagem. Ele confirmou a interdição.
Umas horas depois, ligou para a redação e caiu no meu telefone (já que tinha circulado na redação a minha vetada sugestão de pauta) um dos colunistas do jornal. Havia ouvido falar da história e pensou em escrever para a edição do dia seguinte um texto especial sobre o caso, inclusive recuperando os tempos em que um certo romantismo remoto inundava os episódios semelhantes de pessoas pulando do Viaduto da Borges. Por via das dúvidas, confirmei a coisa com o diretor de redação, já que o colunista tinha muito mais cacife do que eu no jornal. O diretor confirmou a interdição.
Nava e seus motivos
Um dos mais aclamados memorialistas do Brasil, o escritor Pedro Nava se matou em maio de 1984. Eu tinha nove anos, mas não me lembro de ouvir falar disso, só fiquei sabendo quando tomei mais contato com o universo da literatura. Me lembro de uma crônica que li, talvez do Verissimo, que lamentava a morte de Pedro Nava em termos de perplexidade. Por que um homem de 80 se mataria? Aos 80 anos, dizia o texto, que eu realmente lamento não me lembrar de quem é, embora suspeite que fosse do Verissimo, parece que o pior que a vida tinha a oferecer já teria passado e agora seria esperar o desenlace, talvez com serenidade. O que fica para os demais se um homem com a elegância e a serenidade de Nava abrevia o fim aos 80? “Antecipaste a hora”, lamentou/acusou Carlos Drummond de Andrade em um poema composto em homenagem ao amigo.
Passado o primeiro luto pela morte de Nava, começaram a circular informações que davam um sentido diverso ao fim do escritor. Nava não teria se matado porque a vida tinha uma dureza inédita, voltando ao texto cuja autoria esqueci, mas para preservar a própria vida que construiu às vésperas de tê-la destruída. O boato dava conta de que Nava, um então respeitável ancião casado, estava sendo chantageado por um garoto de programa que ele supostamente via com alguma regularidade. Supostamente para não ceder à extorsão, Nava se matou com um tiro, sentado em um banco de uma praça pública próxima de sua residência. Essa informação chegou às principais redações da imprensa brasileira do período, levantando uma discussão ética fundamental.
Como eu já escrevi em outros textos por aqui, existem no jornalismo o que chamamos de “critérios de noticiabilidade”. Eles não são a mesma coisa na academia e nos veículos. Um teórico do ramo como Nilson Lage pode elencar uma ou duas dezenas deles. Já nas redações, vigora uma mentalidade pragmática (aliás, Bill Kovach e Tom Rosenstiel, autores do livro Os Elementos do Jornalismo, de 2001, alertam que o pragmatismo é um elemento essencial do jornalismo, estendendo-se até mesmo ao seu conceito básico, a busca pela “verdade”, já que o jornalismo busca “uma forma prática ou funcional da verdade, e não a verdade no seu sentido absoluto ou filosófico”). No âmbito pragmático dos veículos, é notícia quando algo incomum acontece. Ou quando algo, comum ou incomum, acontece com pessoas incomuns, incluindo aí artistas, celebridades, agentes do poder público ou financeiro etc.
Por esses critérios, naqueles ainda mais soltos anos 1980, embora um suicídio já não fosse encarado como fato noticiável, o fato de ter sido o de Nava tornou-o parte inescapável da notícia. Mas e a informação sobre o garoto de programa e a chantagem como o suposto motivo? Zuenir Ventura, então diretor de redação da IstoÉ, conta em seu livro Minhas Histórias dos Outros que a revista havia até mesmo feito contato com o chantagista e ele havia oferecido uma foto comprovando o caso. Mas que o impacto da revelação geraria um vórtice de escândalo que ficaria para sempre associado ao escritor, então um nome unanimemente consagrado no cenário artístico brasileiro. Zuenir, que eu uma vez entrevistei numa Feira do Livro, defendeu a sua decisão. Fernando Morais, outro jornalista daquela equipe na época, com quem falei em uma Feira do Livro, me disse na entrevista que insistiu na divulgação na época e que continuava certo de sua posição. Era parte da história, segundo ele. Suprimi-la era fazer mau jornalismo.
De um tema a outro
Hoje, com a consolidação da campanha Setembro Amarelo, chegada ao Brasil em 2015, há até uma lista de diretrizes éticas e boas práticas para veículos jornalísticos sobre como lidar ou noticiar suicídios, quando estes forem noticiados. De modo geral, cautela, discrição e uma construção sem sensacionalismo são parte do consenso sobre como um tema desses deve ser abordado.
O que me faz lamentar é que estejamos ainda tão longe desse consenso em outros tópicos. Fico na dúvida, por exemplo, se um “efeito manada” também não se manifesta nos casos de feminicídio e agressões contra as mulheres, que parecem se multiplicar depois da notícia do primeiro.
Sei que a violência contra a mulher é um elemento entranhado na forma como a sociedade se orquestra, e que não é provocado pela divulgação dos casos. Ao mesmo tempo, como no caso dos suicídios, sei que a divulgação toca em questões mais complexas do que simples causa e efeito. E escrevo sobre isso porque eu realmente não sei qual a postura mais correta.
Por um lado, a divulgação cria uma cultura crítica de como esse tipo de caso ainda se sucede como reflexo do pouco valor que a estrutura machista da sociedade dedica às mulheres. É algo que deve ser discutido e reforçado sempre: não são casos isolados, são parte de uma estrutura que minimiza os sinais de alerta até ser tarde demais e virar uma tragédia como as muitas que vimos este ano. Neste mês mesmo tivemos de uma só tacada não apenas a detenção do Calvo do Campari após agressão à sua namorada como também o caso do homem que atropelou sua ex na Marginal Tietê e a arrastou por um quilômetro, ou o do técnico administrativo que matou duas colegas de trabalho no Cefet, uma das escolas federais mais conceituadas do Rio de Janeiro, porque “não gostava de ter chefes mulheres”, além da morte da estudante da UFSC Catarina Kasten em uma trilha no sul da Ilha de Florianópolis.
Cada uma dessas três mortes exemplifica aspectos diversos da violência estrutural contra as mulheres. A mulher morta por abandonar um companheiro que não aceitou o fim da relação. A mulher morta por exercer uma posição hierárquica sobre um homem que não aceitava estar em patamar, a seus olhos, inferior. Uma mulher morta por um desconhecido em um crime de ocasião. No lugar de trabalho, na vida pessoal, na rua em pleno dia – aliás, em uma das mais movimentadas avenidas da maior cidade do país –, na perigosa trilha deserta, sendo o algoz um desconhecido, um colega de trabalho ou um ex ressentido, é outra vez a reafirmação de que não há espaço seguro, e isso vem sendo positivamente discutido com a repercussão dos casos.
Dados e repercussões
A repercussão desse número absurdo de casos em sequência desencavou dados e estatísticas importantes. Conforme o Mapa da Segurança Pública divulgado em junho, quatro mulheres são assassinadas por dia no Brasil. E o número de feminicídios no Brasil aumentou para 1.459 vítimas em 2024, contra 1.449 em 2023. Já em 2025, segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública, de janeiro a setembro 1.075 mulheres já morreram vítimas de feminicídio, mostrando que o ano deve fechar com novo aumento de registros. São informações disponíveis ao alcance de um clique, e mesmo assim não parecem circular muito no discurso público, a não ser no rastro de uma repercussão de casos de feminicídios em sequência, como os já citados aqui ou como os registrados no feriadão de abril no RS.
Ao mesmo tempo, é forte a crítica de vários setores do feminismo à natureza desse tipo de cobertura jornalística, em que os nomes e rostos das vítimas são muito mais divulgados e associados ao crime do que os dos criminosos. Um dos pontos mais fortes dessa discussão nos últimos anos foi a repercussão do caso de Gisèle Pericot, que, ao longo de anos, foi dopada por seu marido Dominique para ser violentada por ele e por mais de 50 homens que ele convidou à sua casa. A seu modo, também precisou decidir o que fazer também nessa desconfortável instância ao lidar com a responsabilização e o trauma. As primeiras reportagens sobre o caso não divulgavam seu nome (outro ponto que costumava ser consenso em redações antes do vale-tudo da internet). Mas a própria Gisèle declarou que ela não havia feito nada de errado, então que seu nome fosse divulgado junto com o de seu marido, porque “a vergonha precisava mudar de lado”. É um gesto corajoso, mas ainda cheio de armadilhas – inicialmente, eu lembrava do nome dela, mas não do nome do marido criminoso. Será que mesmo com sua coragem ela ainda ficou associada à agressão que sofreu mais do que seu agressor?
Vieses e espelhos
A questão é que, por serem crimes, feminicídios são cobertos pela imprensa com as estratégias jornalísticas das editorias de polícia, que são, e falo por experiência própria, um tanto viciadas a um padrão antigo e desatualizado. O viés da imprensa que cobre crimes ainda é o mesmo desde o fim do século XIX: o crime é um gesto individual dissociado do contexto social – a imprensa só aprendeu de lá para cá algumas táticas com advogados para evitar processos, mas repórteres policiais costumam reproduzir muitas vezes com frequência alarmante a mentalidade dos policiais com quem convivem. Assim como veem o tráfico e as milícias como mera “ausência da repressão do Estado”, não admitirão a hegemonia do patriarcado na mentalidade que desumaniza mulheres – nem reconhecerão que abrigam em suas páginas alguns colunistas que dão voz aos pensamentos mais obscuros dessa mesma mentalidade. O maior jornal daqui da província mesmo já teve em suas páginas como colunista um cara que dizia que castigaria a filha se ela fosse violentada depois de “beber muito em uma festinha”. Quase citei outro que morreu no cargo e comparou casamento gay com bestialismo, mas talvez isso desviasse o tema – embora a violência contra a mulher também atinja as que fogem da norma sexual.
A cobertura policial também não pesa a mão sobre a maioria dos criminosos em crimes que não tiveram flagrantes. Principalmente aqueles cometidos por pessoas com condições financeiras boas o bastante para contratar um advogado – é essa, se você sempre se perguntou, a origem do onipresente “suposto” em todos os textos, mesmo quando o cara foi filmado dando um tiro numa mulher no meio da rua. Assim, ficamos com essa divulgação episódica que aborda muitas vezes aspectos sensacionalistas ou de muita repercussão de um crime. De vez em quando, como no atual momento, muitos casos são registrados ao mesmo tempo e aí sim abre-se uma nesga estreita para pensar o feminicídio de modo estrutural, mas costuma ser mais breve do que arrependimento de cancelado.
Divulgar ou não? E se sim, como? Não tenho resposta, isto não é um manual de redação – aliás, manuais de redação costumam ser problemáticos porque normalmente são escritos por dois ou três dentro da redação, e não postos constantemente em discussão na prática dessa profissão cheia de pressa. Não há resposta simples. Você divulga ou não divulga, a vítima fica associada ao crime e o agressor muitas vezes sai no primeiro dia em fiança. Mostrando que o dilema mesmo do que fazer ao noticiar feminicídios é um espelho do dilema maior das mulheres, em perigo em qualquer parte. No trabalho, na trilha, na marginal do Tietê.
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Foto da Capa: Fabio Rodrigues Pozzebom / Agência Brasil

