Em 2023, pela primeira vez no Brasil, o número de cabelos grisalhos (15,6%) superou o de rostos jovens (14,8%). E essa voz da experiência vai ficar ainda mais forte. Estima-se que, em 20 anos, quase um terço dos brasileiros fará parte dos 60+. Esses números não são apenas estatísticas: são convites e chamados para pensar com carinho sobre o tempo que ainda nos resta.
Muitos dizem “quando chegar lá eu penso” e seguem a vida. Planejam carreira, casa, filhos e negligenciam a própria velhice, como se ela fosse um problema distante que se resolve no futuro. Se recusam a olhar com carinho para a pessoa que um dia serão, talvez sozinhas consigo mesmas.
O psicanalista Christian Dunker nos convida a uma visão terna e corajosa dessa jornada. Ele fala de uma “terceira idade produtiva”, um tempo de descobertas tardias em que, libertos de algumas obrigações, podemos finalmente respirar fundo e fazer aquilo que o coração sempre suspirou. Os filhos voaram, os pais já se foram, e sobra um espaço sagrado para, finalmente, cuidar de si.
Se a primeira parte da vida foi sobre ganhar amigos, conquistas, uma família, com a velhice se inicia um movimento sutil de desapego. Perdemos pedaços no caminho: pessoas amadas, corpos que mudam, limites que aparecem. É um declínio que pode ser suave, mas que um dia nos colocará frente a frente com a nossa própria finitude, a perda mais difícil de elaborar: a de nós mesmos.
Dunker sugere que a forma como tratamos nossos filhos tende a refletir como seremos tratados. Penso que isso foi válido no passado, mas, nos dias de hoje, a mobilidade aumentou; filhos vivem em outras cidades, noutros países. Mesmo os laços mais afetuosos podem não se traduzir em cuidados diários. Por isso, depender exclusivamente de laços familiares próximos é arriscado: precisamos construir, desde já, círculos ampliados de afeto e apoio.
Nesse outono da vida, o que realmente importa? O carro na garagem, o brilho de uma joia? Esses símbolos se esvaem. O que emerge é uma busca por essência: autonomia para levantar-se sem dor, ânimo para acordar com um sorriso, o calor de uma amizade verdadeira. Um idoso rico trocaria as suas posses por um pouco mais de saúde e uma tarde de conversa sincera.
E por que a depressão é tão frequente nesta etapa? Dunker nos oferece um olhar compassivo: ela pode ser uma forma de o coração processar uma perda imensa. Ainda assim, há quem consiga reaprender a amar, reinventar-se, tecer um novo sentido. Esses recomeços são possíveis e acontecem quando a vida encontra motivos para continuar.
A morte pode ser um processo lento que começa em vida, quando vamos nos aposentando dos nossos desejos. Cada sonho abandonado é um convite para um fim antecipado. O verdadeiro “elixir da longa vida”, então, talvez não esteja em frascos, mas em boas relações e músculos fortes – tanto os do corpo quanto os da alma. Invista em amizades, restaure os laços que o tempo desgastou e movimente-se.
Tenho uma tia e primos que amo muito e que eu costumava visitar apenas uma vez por ano. Por que tão pouco? Não sei bem. Ultimamente tenho mudado isso: busco encontrá-los mais vezes. Nessa semana, recebi um convite deles que me emocionou: “Na próxima vez, conta para a gente as histórias da nossa família.” Agora estou aqui, buscando fotografias antigas e resgatando histórias que minha mãe contava para compartilhar no nosso próximo encontro.
São gestos assim, simples e cheios de intenção, que tecem uma rede de amor ao nosso redor. Precisamos, com urgência, dar prioridade na agenda para o que realmente sustenta a vida: visitar, abraçar, ouvir e conviver com quem nos aquece o coração. Planejar a velhice não é um ato de medo — é um gesto de amor conosco e com quem amamos.
Referência:
- Falando Nisso 511 – Depressão em idosos: é possível tratar? Christian Dunker.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

