Quem nos narrou esse teu desejo, Vaqueirinho, foi a Verônica. A psicóloga que te acompanhou por oito anos no Conselho Tutelar. Foi ela quem relatou que até tentaste entrar no trem de pouso de um avião, tentando ir atrás dos leões que sempre te fascinaram. “Você dizia a mim que ia pegar um avião para ir para um safári na África para cuidar dos leões. Você ainda tentou, mas agradeci a Deus quando fui avisada pelo aeroporto que você tinha cortado a cerca e tinha entrado no trem de pouso do avião.” Ela escreveu que deu graças a Deus, porque observaram pelas câmeras e te avistaram, antes que uma desgraça acontecesse.
Verônica também falou de tua infância difícil. Filho de uma mãe com esquizofrenia e avós também mentalmente comprometidos. Diferente de teus irmãos, foste o único que não conseguiu ser adotado. Ela acrescentou que, “por oito anos, tudo que o conselho podia fazer foi feito”. Conta que discutiu muito com profissionais de saúde mental porque não aceitava o parecer do psiquiatra… que afirmava que só tinhas um “problema comportamental”. Lamenta que, apesar de ser “visivelmente uma criança com transtornos graves, precisou chegar ao sistema socioeducativo para que fosse diagnosticado”.
O diagnóstico veio tarde demais, parece. Soubemos que buscavas cometer pequenos delitos para retornar aos sistemas de acolhimento e internação, onde devias te sentir mais seguro do que na rede de apoio externa.
Essa doença, a esquizofrenia, é caracterizada pela dissociação entre o que é real e o que é imaginário. São alucinações, alterações da percepção como “ouvir vozes”, ter visões e sensações não compartilhadas por outras pessoas, mas que para o paciente parecem reais. Essas “alucinações” podem impactar no comportamento e na rotina, dificultando as relações e a vida social. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), a esquizofrenia é a terceira causa de perda da qualidade de vida entre os 15 e 44 anos. São cerca de 1,6 milhão de brasileiros que, além da doença, sofrem com o estigma. O Sistema Único de Saúde (SUS) dispõe de estabelecimentos, serviços e ações diversificadas. Mas todo o investimento, numa rede em expansão, ainda não garante a qualidade e a capilaridade do cuidado integral, especialmente em situações de vulnerabilidade extrema.
Voltando ao teu sonho, Vaqueirinho, de ir para a África cuidar de leões, eu te entendo. Também sempre tive, mas, no meu caso, eu queria era cuidar de elefantes.
Tenho certeza que fui influenciado pelo filme Hatari, impossível não se encantar com a graça dos bebês elefantes. Lembro da infância, minha mãe cantarolando “O Passo do Elefantinho”, a música do filme. É de um compositor muito bacana chamado Henry Mancini, que também fez aquela outra, “A Pantera Cor de Rosa”. Acho que essa tu conheces, deves ter assistido algum desenho numa daquelas tevês dentro de uma caixa gradeada, pendurada no alto de uma parede, numa das tuas internações.
Não sei se te contaram essa outra história. Eu a conheço de uma coleção de livros chamada Tesouro da Juventude. Hoje poucos a conhecem, mas era comum em muitas casas e havia também na biblioteca pública da minha cidade. É uma história que teria te fascinado. É a história de Ândrocles, um escravo fugitivo que encontrou um leão ferido na floresta e retirou o espinho cravado na pata. Algum tempo depois, Ândrocles foi capturado e, como castigo pela fuga, condenado à morte. Foi jogado às feras na arena de um circo — uma prática comum na sociedade romana para se livrar de incômodos. Mas, para surpresa de todos, o leão que o aguardava era o mesmo que ele havia ajudado. Quando todos achavam que ele iria devorá-lo, o animal o reconheceu e lambeu seu rosto.
Acho que era o que esperavas quando, no domingo, dia 30 de novembro de 2025, escalaste aquele muro de mais de 6 metros, na Bica, o zoológico de João Pessoa, na Paraíba. Pensaste que a leoa, aquela que, através da vidraça da jaula já havias visto outras vezes, iria reconhecer o teu amor.
O caso tem sido tratado como suicídio. Acho difícil concordar. E sei que também não aceitarias que dissessem que a leoa teve culpa. Ela estava surpresa e talvez tão mais assustada do que tu naquele momento. O que resta de tudo é o espinho.
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Foto da Capa: Xilogravura em Europa's Fairy Book. Domínio público. Autor desconhecido.

