Não sei se foi sempre assim, porém acredito que já há muitos milênios que não conseguimos, do assento onde confortavelmente nos encostamos, evitar a tentativa (ou tentação) de explicar o mundo à nossa volta. E, atualmente, via a profusão de imagens e notícias que chegam, literalmente, na palma de nossas mãos, elaborar uma compreensão do mundo se torna cada vez mais necessária.
Assim, uma diversidade de interpretações desfila diante de nós, escoradas seja nos mais sofisticados pressupostos filosóficos ou nas mais fantasiosas teorias da conspiração. Explicando o que é teoria, Rubem Alves usa a imagem de uma rede que, conforme a dimensão e desenho de sua teia, pega essa ou aquela pesca. Dentre as redes conceituais que as pessoas de esquerda (nas quais me incluo) mais jogam em águas desconhecidas, a mais acionada, seja nos oceanos revoltos da academia ou nos laguinhos comunitários das mesas de boteco, é seguramente o Materialismo Histórico-Dialético (MHD).
Grosso modo (e já assumindo todos os pecados por tratar tais preceitos de forma tão aligeirada), o complexo conceitual atribuído aos grandes pensadores Marx e Engels indica que os rumos da História têm por força motriz a luta de classes entre os trabalhadores e os proprietários, que as culturas, subjetividades e ordenamento político que caracterizam as sociedades são arranjos determinados pelos modos de exploração do trabalho e circulação das riquezas e que o fio condutor das progressivas transformações é o avanço das forças produtivas, a dinâmica sempre positiva da capacidade de geração de bens engendrada na experiência histórica.
Importantes contribuições à compreensão de processos históricos e inflamados motes para saborosas tertúlias foram dadas por esse sistema de ideias. Para não nos enfadar em sua defesa, basta lembrar o quão ingênuo é atribuir a causa das Grandes Navegações Portuguesas à pregação da Fé Cristã, não capturando a expansão do comércio de especiarias que já vinha desde o fim da Idade Média.
No entanto, não há bom sem defeito: reza (algo precavida) a tese da minha sogra.
O referido conjunto categorial é muito bacana para balizar uma narrativa sobre as grandes marchas do passado, mas, quando se chega mais perto no tempo, mais essa teoria vai deixando a desejar. Por exemplo, podemos entender como um dos fatores da expansão do nazifascismo o arranjo político do grande capital industrial diante do vertiginoso crescimento da União Soviética e das forças políticas socialistas na Europa. Contudo, precisamos de outros aportes para compor uma melhor compreensão sobre a disseminação do ódio aos judeus e a impetração do Holocausto. As lacunas da teoria ficam ainda mais visíveis quando o processo se dá no agora, por exemplo, o conflito EUA e Israel versus o Irã. Pois, as disputas por reservas de petróleo e outras riquezas naturais podem ser o vetor para o netanyarrismo de Trump e a tolerância de determinados países europeus ao conflito. Por óbvio, razões econômicas podem elucidar o estreito alinhamento entre EUA e o atual governo de Israel ou entre Irã e China (ligando o BRICS de Rússia e Brasil). Todavia, o diabo enganador (que já assombrava o teórico Descartes) se esconde nos detalhes: por que, para defender sua soberania (e seu subsolo), o regime dos aiatolás precisa ter como meta a destruição do Estado de Israel?
As ideias dos filósofos alemães nos ajudam a compor um razoável quadro que relaciona a ascensão da elite militar e religiosa xiita (o domínio dos Aparelhos de Estado) com o controle da produção e do capital referentes aos recursos minerais da nação, entretanto não é suficiente para elaborar um quadro que nos ajude a esclarecer a relação dessa mesma elite com uma ideologia machista e antissemita. Acredito inclusive que a ausência de análises mais críticas por parte da esquerda sobre a realidade do Irã possa se dever à generalização da recorrência às lentes do MHD, que, no inverso, também não ajudam a entender como uma das forças militares mais avançadas em termos de relações de gênero seja a acionada nos retrógrados massacres impetrados em Gaza.
O humanista cristão Paulo Freire atenta para o espírito marxista, defendendo que, além da luta de classes, o sonho também pode ser um motor da história. Porém, desesperançadamente, uma visada menos romântica sobre o passado e um olhar sobre os dias atuais abrem as portas para um outro motor possível: o pesadelo.
O demônio se esconde nas minúcias…
A imponente Catedral de Wetzlar, cidade do centro-oeste alemão, é ornada com raros adereços da transição entre o romanesco e o gótico: altos e elaborados umbrais talhados em pedra, nichos externos abrigando uma pluralidade de santos. Dentre estes, sobre a entrada secundária, a poucos metros do portal principal, encontra-se a imagem de Maria com o menino Jesus nos braços; sob seus pés (quase que pisando-os), se vê um capeta que se abraça a um homem como que puxando-o para baixo; o inferno, certamente. O homem é barbado e usa um capelo com uma ponta proeminente para cima. Notando minha curiosidade com a imagem, o amigo que nos ciceroneava explicou: é a representação de um homem judeu. Obviamente, aquela figura esculpida está ali há, no mínimo, dois séculos antes do capitalismo.
O MHD nos ajuda a arpear robustas respostas para macroprocessos integrados, mas é insuficiente na compreensão das histórias particulares, sua teia é exígua para fisgar os nuances inerentes a uma existência em segregação e opressão. A narrativa do existir na condição de judeus, palestinos, ciganos, indígenas e tantos outros povos (cuja particularidade de suas histórias se confunde com a preservação de suas identidades) tem sentidos para além do para onde esteja rumando o fluxo das forças da riqueza.
Todos os textos de André Fersil estão AQUI.
Foto da Capa: Gerada por IA.

