Diariamente tenho apreciado a passarinhada da minha vizinhança, sabiás, bem-te-vis, sanhaços, pombinhas da minha janela, pois coloco frutas picadas, grãos e um pote de água para eles, que passam o dia indo e vindo para se deliciarem. Nesse tempo em que faço isso, já apareceram outras espécies que não sei nomear e que me surpreenderam com sua beleza. Imagino que estavam em algum caminho migratório e fico feliz em pensar que aliviei suas jornadas.
O canto com que me brindam, a correria que fazem cada vez que coloco a comida – pois já se acostumaram com o horário que apareço -, a algazarra dos banhos no pote, os movimentos em pleno voo. Contemplo com prazer suas atividades. Descobri que os sabiás são uma comunidade brigona, assim como a dos pombos, entre si. E comilona. Adoram arroz branco cru. Amo ver os casais de bem-te-vis chegarem distintos, com seu canto cheio de graça, e os sanhaços com sua delicadeza.
Também tenho colocado ração para duas gatas abandonadas que me olham desconfiadas, mas sempre comem famintas o alimento que deixo. Chegam ariscas e saem correndo, de barriga cheia. Já apareceu uma família, com mãe e três filhotes, que com a ajuda de uma vizinha, foram todos adotados.
Nesta época do ano Porto Alegre fica linda, florida e perfumada com jacarandás, ipês, jasmins do poeta, damas da noite, azaleias, três-marias pelas ruas e jardins. Andar por suas ruas e apreciá-la é uma benção.
Tem dia que olho para o céu e ele está de um azul otimista, outro de um cinza confuso ou com nuvens carregadas quase pretas raivosas; e a cada dia as cores das árvores, das flores, e do resto da natureza abaixo se transformam de acordo com os humores do alto.
Muitos ficam buscando o extraordinário “naquela” viagem, no “grande evento”, na conquista do “emprego dos sonhos” ou na casa própria pra que consiga sentir o sentido da vida, te digo que no simples, no banal e ordinário é possível encontrar o extraordinário. Aliás, acho que nisso há uma grande possibilidade de encontrar paz e centramento, em meio a nossa confusão e caos. No olhar de apreciação da vida, na imaginação, na fantasia, no afeto, como admirar pássaros tomando banho, os gatos ao sol após se alimentarem, os vários tons de verde das árvores, o casal caminhando de mãos dadas, a criança aprendendo a andar de bicicleta na calçada, o perfume das flores de um jasmim do poeta e a celebração do encontro de uma casa antiga bem preservada.
Claro que ainda poderia acrescentar a celebração das amizades e afetos, dos encontros, da solitude, mas hoje quero me focar noutro tipo de apreciação. Às vezes a gente está tão envolta com as nossas preocupações, legítimas, que não consegue sair delas e enxergar essas pequenas coisas extraordinárias que a vida nos apresenta. Oportunidades para respiros simplesmente pra sermos, nesse dia a dia que insiste em nos fazer produzir cada vez mais e melhor, sermos a nossa melhor versão, pensar no amanhã em vez do aqui e agora.
Hoje em dia parece feio dizer que se está com tempo, que o trabalho está calmo, que se pode tirar uma folguinha para um café e olhar pela janela o céu azul e os galhos balançando. Se for fazer algo pra descansar, quem sabe um filme ou episódio de uma série, uma escapadela nas redes sociais ou, talvez, um joguinho no celular? E assim, muitas vezes, conseguir escamotear da chefia e dos colegas que está descansando, pois ninguém pode demonstrar que precisa de descanso ou, talvez, que tem pouco a fazer naquele momento.
Apreciar o que existe ao redor de bonito, faz bem pra nossa alma assim como pra nossa saúde mental.
Como um texto, sem autor conhecido, que dizia mais ou menos assim “quando te sentir apegado a algo, olhe e aprenda com o fogo que é um grande mestre da transmutação. Quando estiver sem energia, te coloca frente ao sol para reacendê-la, que te ensinará sobre seu poder pessoal. Quando te sentir estagnado, olhe para a água que te ensinará sobre movimento e fluxo. Quando sentir que o medo está sufocando, aprendas com a lua, que sabe brilhar em meio a escuridão. Quando te sentir confuso, olhes para o céu, que o movimento das nuvens ensinará sobre clareza. Quando quiser desistir, fale com a Natureza, mestre em morte e renascimento”.
Faço caminhadas diárias e cultivo o hábito, trazido do interior, de cumprimentar aqueles pelos quais passo. No entanto, vejo pessoas cada vez mais imersas em seus Mundos particulares. Olhando pra baixo, mergulhadas em seus celulares, ou mesmo cabisbaixas, aparentemente sem ânimo sequer de olhar para frente. O contato visual é praticamente impossível! Adoraria pensar em todo mundo se cumprimentando e sorrindo, espontaneamente, uns para os outros.
Esse já seria um belo começo. Um pequeno gesto ordinário para transformar o dia de todos nós extraordinário.
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