Eu não lembro exatamente o que fiz naquele dia. Era uma sexta-feira comum, véspera de um feriado que cairia no sábado, o que, para mim, não significava grande coisa. Provavelmente, eu havia trabalhado pela manhã na escola onde fazia estágio e, à tarde, frequentado as aulas do magistério. Talvez tenha ouvido alguma colega comentar, talvez não, já que a correria das horas costuma abafar as notícias. Ainda assim, nada impediu que, à noite, ao assistir ao telejornal, eu sentisse o impacto daquela certeza. O Brasil, que ainda se recuperava da morte de Cazuza, perdia mais um dos seus maiores compositores e intérpretes. Não resistindo às complicações decorrentes do vírus da Aids, naquele 11 de outubro de 1996, Renato Russo deixava milhares de fãs inconformados com a sua partida.
Jovens de todo o Brasil, tomados por uma sensação de orfandade, choravam como quem perde um amigo íntimo. Muitos cresceram ouvindo suas canções, que falavam de amores impossíveis, revoltas silenciosas e da angústia de viver em um país em transformação. Havia algo de coletivo naquele luto; uma geração inteira se despedia não apenas de um artista, mas de uma parte da sua juventude. Adolescentes tímidos perderam a voz que traduzia em letras sensíveis o que eles não sabiam dizer. Houve até aqueles que tiraram a própria vida, incapazes de suportar a ausência de quem consideravam um guia.
Renato era um jovem introspectivo, um nerd incompreendido que buscava no álcool e na cocaína uma forma de anestesiar suas dores. Para os moralistas, estava longe de ser um exemplo de conduta. Ainda assim, sua obstinação em criar uma banda que atendesse às próprias expectativas o transformou em um símbolo de persistência para aqueles que tinham dificuldade em acreditar em si mesmos. Ao abordar em suas letras temas políticos e sociais do período pós-ditadura, traduziu em música as feridas e inquietações de uma geração silenciada pelos anos de repressão.
No livro Renato Russo: o Filho da Revolução, o jornalista Carlos Marcelo reconstrói o panorama político e cultural do Brasil durante os anos de chumbo, período em que Renato viveu sua infância e adolescência. Retrata o despertar de uma juventude rebelde da classe média, que buscava romper a monotonia de uma cidade dominada por políticos e militares, dando início a um movimento de inquietação e contestação por meio da música. Uma juventude rockeira que abalou as estruturas de Brasília, questionando regras, censuras e valores impostos, e que encontrou nas canções de Renato uma voz capaz de traduzir suas angústias, críticas e desejos de liberdade.
Não há como separar a “geração Coca-Cola”, da qual Renato e a Legião Urbana fizeram parte, do Brasil sedento por democracia e direitos políticos. Uma parte do país que ia para as ruas, enfrentando o medo, encontrava na coragem dos roqueiros de Brasília a esperança de dias melhores. Em meio a essa efervescência, cada canção, cada acorde, representava a vontade de um Brasil que queria renascer, mais justo, mais livre e mais atento às vozes de seus cidadãos.
Como dizia o próprio Renato em uma de suas letras, os bons morrem antes. Por isso, há 29 anos, os fãs lamentam a ausência do ídolo e encontram nas suas músicas o consolo e a inspiração para seguir adiante em um Brasil que ainda busca se tornar mais justo.
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