Em um evento no último final de semana, no qual o tema da mesa em questão era a escrita psicanalítica, uma das participantes trouxe à discussão uma inquietação extremamente interessante, que é a da possibilidade, mesmo que remota, do fim da escrita enquanto forma de comunicação. Em tempos em que o visual impera sobre o textual, em que o literal suplanta o literário, isso não parece tão impossível. A fala rendeu. Eu afirmei que, ingenuamente, não acreditava que a escrita pudesse ser extinta dessa maneira, mas o meu colega de mesa fez uma colocação interessante, frisando que talvez superestimemos a linguagem escrita em detrimento de outras. Quem pode dizer que a escrita de fato seguirá sendo a principal via de transmissão e comunicação nos anos vindouros? Não poderão existir meios mais eficazes, menos ordenados e mais subjetivos para que a comunicação ocorra?
A linguagem sempre foi e sempre será muito maior do que a escrita.
Na verdade, existem regiões e povos que nunca chegaram a usar a escrita como forma de comunicação. Comunidades que não utilizam a linguagem escrita como forma principal de comunicação e transmissão de conhecimento. São as ditas sociedades de tradição oral. A humanidade contabiliza muito mais tempo sem a escrita do que em sua companhia. A demanda por comunicação, por traduzir o mundo, deixar um legado para próximas gerações, pode encontrar uma diversidade de maneiras que vão além da linguagem escrita. Desenho, música, notas musicais, artes em geral. Os povos de tradição oral mostram que a escrita não é condição para a simbolização.
Quando a palavra circula entre corpos, ela produz laço, sustenta o pertencimento e mantém o enigma do desejo em movimento. Mas ela tem muito mais do que uma materialidade gráfica, estética ou acústica. O símbolo pode e deve ir muito além da palavra, ainda que eu particularmente aposte nela como uma das únicas possibilidades de salvação pessoal que eu conheço. Palavra falada, compartilhada, palavra comungada, emprestada.
Na psicanálise, poderíamos pensar essa diferença entre o oral e o escrito como a distinção entre o lembrar e o repetir: o saber oral se repete, mas não se repete igual; ele se reinscreve, se atualiza, se transforma a cada ato de fala. A não textualidade pode convocar uma capacidade que vem se enfraquecendo com o passar do tempo, que é a retenção imagética. Somos bombardeados de imagens sobrepostas, rápidas, fugazes. Imaginar comunidades que baseiem sua linguagem e sua comunhão no visual, no tátil, na presencialidade tem algo de revolucionário no histórico.
Fiquei com a pulga atrás da orelha. E, quando escrevi essa expressão coloquial tão conhecida, fiquei novamente capturada pelo tema do poder da palavra. Como foi a primeira vez que alguém escolheu usar a imagem de uma pulga atrás da orelha de um cachorro (provavelmente) para descrever essa sensação incômoda e persistente? A universalidade, mesmo que regional, de certas expressões ou ditos populares uniformiza a comunicação, institui um sentimento de pertencimento. Ainda assim, apesar do meu susto daquela afirmação no evento e da minha defensiva ingenuidade, talvez a escrita possa de fato se extinguir, mas não sem antes outra coisa tomar o seu lugar. Porque o ser humano jamais prescindirá da necessidade de conectar-se, vincular-se, mesmo que em meio a tanta belicosidade.
A escrita, ao fixar, conserva; a oralidade, ao circular, transforma. Quem sabe as transformações vindouras? Livros poderão se tornar manifestações orais, táteis, visuais. Para mim, já o são.
Mas tanto a expressão oral quanto a escrita são modos de lidar com o tempo e com a perda. Contra essas forças, não há recurso que faça frente, além do afeto partilhado, seja por qual via for.
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