Nos conhecemos em 2012, em um evento universitário na cidade de Americana, São Paulo. O encontro foi breve, mas marcante. Algumas semanas depois, o avistei na PUC, onde eu estudava Relações Internacionais, e descobri que ele era muito amigo do Gordo, da minha sala, e por isso também frequentava o campus, apesar de cursar Publicidade e Propaganda na ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing).
Após esse episódio, nos vimos – sem intenção – muitas vezes em lugares distintos, curiosamente sem a presença desse amigo em comum, de festas chiques a bares duvidosos, como se a vida quisesse nos juntar de alguma forma… As interações eram de amizade e flerte, mas nunca passaram disso. Descobri que, apesar de ser conhecido por Luigi, ele na verdade tinha o mesmo nome do meu pai, Luiz Fernando, e que a mãe dele se chamava Patrícia Helena. Estranho.
Depois de um tempo, comecei a namorar outra pessoa, e seguimos nos encontrando por conta dos amigos em comum. Passados alguns anos e muitas trocas, viramos sócios – primeiro de um marketplace de moda feminina, depois de um aplicativo para ciclistas, e, por último, de um hostel, perto da Avenida Paulista. Ele morava a duas quadras da minha casa, então íamos todos os dias juntos para o escritório. Tínhamos uma relação sólida, de amizade, companheirismo e admiração mútua.
Em junho de 2018, ambos solteiros, fizemos uma viagem com o pessoal do trabalho – éramos quatro, mais agregados – e, na primeira noite, em determinado momento, a coragem regada a algumas doses de gin, ele falou que precisávamos conversar, e disse, com todas as letras, que era apaixonado por mim e me amava. As mãos trêmulas, não sabia o que responder. Também cultivava sentimentos por ele, que eu mesma não me permitia reconhecer, porque era meu sócio, porque era complicado. Quando ele se declarou, a barreira se desfez. O amor, quando recíproco, tem qualquer coisa de milagre, de sorte, de sincronia, é a precisão do inesperado. Eu me sentia eufórica, ao mesmo tempo aliviada, como se pudesse respirar finalmente depois de uma vida embaixo d’água.
No dia seguinte, ainda na praia, recebo uma ligação com uma notícia devastadora: meu avô havia falecido. Apesar de doente, jamais imaginei que isso poderia acontecer, pois ele estava bem, em casa. Eu chorava compulsivamente. O coração que estava, pela primeira vez em muito tempo, preenchido, ficou destroçado. Luigi então dirigiu três horas para me levar ao aeroporto de Campinas, e mais três horas para voltar até o litoral. Naquela mesma noite, em Juiz de Fora, depois de todo o ritual – velório, cremação, lágrimas, memórias, abraços de desconhecidos – dormi na cama com a minha avó, ela pela primeira vez em sessenta e um anos sem meu avô ao lado.
Durante a semana, precisei voltar a São Paulo por motivos de trabalho, mas retornei para a missa de sétimo dia. No intuito de distrair a minha avó, em momento oportuno, comentei que estava namorando. Ela pediu para ver uma foto. Mostrei uma que tinha postado nas redes, antes da viagem para a praia: eu, Luigi e um colega. Ela perguntou, com espanto: qual deles? Apontei, e ela começou a chorar. Disse que estava vendo o Facebook, em algum momento naquele último mês, e mostrou a foto para o meu avô, que apontou para o Luigi na tela e disse: a Heleninha bem que podia namorar com esse moço.
Não acredito em acaso. Sábado, dia 7 de março, fizemos seis anos de casados.
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Foto da Capa: Acervo da Autora

