Quando converso com algumas pessoas sobre o futuro, sinto um peso no ar. Muitos carregam um pessimismo quase sufocante, acreditando que viverão para testemunhar o fim da humanidade. E quando pergunto quem poderia mudar esse destino, as respostas sempre apontam para figuras distantes: políticos poderosos como Donald Trump, Putin e Xi Jinping e os bilionários como os donos das Big Techs. Como se estivéssemos condenados a seguir, resignados, como gado em direção ao abatedouro.
Vivemos em tempos de “notícia única”. Um tema domina tudo, ocupa manchetes, redes sociais, conversas de bar. Primeiro foi a COVID, depois a guerra da Rússia contra a Ucrânia, mais tarde os decretos e taxações de Trump… e assim seguimos, como se só houvesse tragédias, como se nada de bom florescesse no mundo. A sensação é de estarmos cercados de desesperança.
Mas eu me recuso a acreditar que o futuro esteja selado. Confio na ciência e nas suas advertências sobre a crise climática, mas confio também no poder de regeneração da natureza e, sobretudo, na capacidade humana de mobilização. Reconhecer a gravidade dos problemas não significa desistir: significa, ao contrário, assumir a responsabilidade de lutar por um amanhã diferente. Minha esperança se alimenta dos bons exemplos, das pequenas sementes que já germinam em tantas partes do mundo.
Sei que governos, muitas vezes, defendem mais os interesses das grandes empresas do que os da população. E que as empresas, historicamente, buscaram lucro às custas da exploração de pessoas e da degradação dos ecossistemas. Mas acredito que essa lógica não é uma sentença eterna. Essa não é a única forma de obter lucro. Existem empresas que provam o contrário: aqui pertinho, em Santa Cruz do Sul, tem a Mercur; na Califórnia tem o exemplo da Patagônia, entre outras, que mostram que é possível prosperar sem devastar, respeitando o meio ambiente e cuidando das pessoas.
Outro exemplo me tocou profundamente: o chocolate. Poucos sabem que 60% do cacau do mundo vem de Gana e da Costa do Marfim, onde 1,56 milhão de crianças trabalham ilegalmente e cerca de 30 mil pessoas vivem em condições de escravidão moderna. Quando compramos chocolates de gigantes como Nestlé, Hershey’s ou Mars, estamos, sem perceber, financiando essa dor. Ninguém se questiona sobre isso, ou melhor, o jornalista Teun van de Keuken, entrou numa delegacia holandesa, comeu uma barra de chocolate e pediu para ser preso como cúmplice de escravidão infantil, alegando que quem consome este produto está sendo conivente com esta realidade. Não o levaram a sério, então ele resolveu produzir o “cacau ético”. Ele fundou a Tony’s Chocolonely prometendo um chocolate 100% livre de escravidão. O que parecia utopia transformou-se em sucesso: em menos de 20 anos, a empresa se expandiu por mais de 20 países, fatura centenas de milhões de Euros por ano e se tornou fornecedora da Ben & Jerry.
Há também histórias como a da Homeboy Industries, conhecida como “Segunda Chance”, que nasceu em Los Angeles pelas mãos do padre Gregory Boyle. Começou como uma padaria, na qual o objetivo não era fazer pão, mas dar emprego para ex-presidiários, ex-membros de gangues e pessoas vulneráveis. A empresa se expandiu para abastecer restaurantes e hoje possui uma fábrica de alimentos e é considerada o maior programa de reinserção social do mundo, provando que dignidade e lucro podem andar juntos.
Essas iniciativas não nasceram dos gabinetes de políticos poderosos nem das fortunas bilionárias. Elas floresceram porque a população acreditou, porque consumidores decidiram apoiar um caminho mais justo. E é aqui que repousa uma pergunta essencial: se um dia a humanidade estiver realmente informada e consciente, não escolherá naturalmente apoiar empresas que fazem o bem? Será que estamos condenados ou estamos convocados?
É verdade: os produtos dessas empresas geralmente custam mais, mas talvez devêssemos perguntar: por que alguns produtos são tão baratos? Muitas vezes, porque foram feitos à custa de trabalho escravo, destruição ambiental e evasão fiscal. O barato que pagamos no caixa tem um preço impagável na vida de outros.
No fundo, o futuro não é uma promessa distante, mas um reflexo silencioso das nossas escolhas de hoje. Ele pulsa em cada gesto de consumo consciente, em cada voz que se recusa a se calar diante da injustiça, em cada comunidade que decide construir alternativas ao modelo dominante. Talvez não possamos mudar o mundo sozinhos, mas podemos acender fagulhas que inspiram outros a mudar também. E quando essas fagulhas se encontram, elas se transformam em chama. O futuro a nós pertence, sim — mas só florescerá se tivermos a coragem de acreditar que ainda vale a pena lutar por ele.
Referências:
- Tony’s Chocolonely
- Homeboy Industries
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Foto da Capa: Gerada por IA.

