Eis que a cidade que sempre se orgulhou, em verso e prosa, de sua condição de maravilhosa, cheia de encantos mil, sítio em que o encontro de montanha, mar e céu traçou o cartão postal do coração do Brasil, eis que tal sítio mergulhou há poucos dias em evento de tempos de guerra aberta, com 121 civis mortos pelas forças de segurança do estado. O Rio de Janeiro passou do maravilhoso ao hediondo, tornou-se purgatório da beleza, inferno do caos, nas palavras proféticas de Fernanda Abreu, em “Rio 40 graus”. Essa mesma poeta e cantora havia diagnosticado, com acuidade, o quanto o Rio é “uma cidade de cidades misturadas, cidade de cidades camufladas, com governos misturados, camuflados, paralelos, sorrateiros, ocultando comandos”.
Alguns poderiam observar o quão injusto seria circunscrever o Rio de Janeiro nessa efígie de submundos, ainda nas palavras de Fernanda Abreu (“submundo deputado, submáfia aposentado, submundo de papai, submáfia da mamãe, submundo da vovó, submáfia criancinha, submundo dos filhinhos”). O Rio de Janeiro se estende para muito além do que alcança a vista do alto do Pão de Açúcar. Os sinos simbólicos que dobram nesse momento por lá dobram por nós outros todos, nos demais burgos e confins desse país, “na xinxa de cada esquina” do Brasil inteiro.
Alguns de nós, psicólogos e psicólogas, em situações que Georges Pollitzer não hesitaria em classificar como “colisões dramáticas”, tentamos discernir o significado e o sentido do que ocorreu (ou teria ocorrido) neste fatídico 28 de outubro. São categorias conceituais cogenéticas, que remetem, no polo do significado, aos sedimentos socioculturais de fenômeno social para o qual se almeja algum tipo de compreensão (com – prehendere – juntar uma coisa com outra – juntar lé com cré…).
Dentre tais sedimentos socioculturais, um dos mais conhecidos são as representações sociais, conceito que encontrou em Serge Moscovici um estudioso incontornável. Os significados são portanto compartilhados, e podem inclusive conviver e competir em regime de pluralidade: pesquisas recentes acerca do significado da mortandade ocorrida em 28 de outubro passado (mesmo que não tenha sido especificamente esta a pergunta feita para os respondentes) trouxe basicamente duas visões sociais compartilhadas: o significado dominante aludia à defesa da sociedade, ação policial adequada (ou “proporcional”, para usar um dos jargões que passaram a circular), reação do Estado em defesa das pessoas de bem (portanto defesa da cidadania), e outras manifestações na direção da aprovação da ação policial e reconhecimento de sua necessidade e embasamento moral, ético e jurídico; mas houve igualmente nessas pesquisas uma parcela minoritária, mas não desprezível, a propugnar que o significado do ocorrido, ao qual se associaram termos como “massacre”, “homicídios em massa” e outros equivalentes semânticos, seria fundamentalmente um retrocesso à barbárie, uma anomalia jurídica grave de imposição de penalidade em detrimento do devido julgamento, sob alegação (recusada) de reação de supostos delinquentes (supostos por conta da ausência de trâmite em julgado) aos agentes da lei, em sua ação de levá-los presos (em conformidade com mandatos judiciais que, segundo narrativa do Estado, deflagraram toda a operação).
Para esta última perspectiva, o significado do ocorrido seria assimilável a um ataque aos direitos humanos e de cidadania, explicado por posturas sociais inadequadas (como preconceitos, notadamente de matriz racista) e desinformação. Para a primeira perspectiva referida, o significado do evento remeteria à defesa dos mesmos direitos humanos, mesmo que em detrimento de determinados outros humanos – os meliantes em situação de baixa ou nenhuma recuperabilidade, logo destinados ao extermínio físico como único encaminhamento institucional plausível.
Cada um de nós navega nesse mar revolto de significados socialmente disseminados e compartilhados, mobilizando nossa subjetividade de forma a fazer sentido próprio do que está acontecendo. Mais do que uma tomada de posição racionalista em termos de prós e contras de pontos de vista em disputa, tem-se aqui um processo quase sempre atravessado pelo afeto e emoção, de onde o desenlace acalorado de muitas disputas discursivo-argumentativas no bojo das famílias, dos grupos de colegas nas empresas, nas associações de moradores e condomínios, e por aí vai. O sentido que cada um e cada uma busca construir deixa-se tipicamente impregnar pela pressão de grupo, por pontos pró ou contra, muitas vezes estranhos ao cerne do debate. Tal dado confere aos processos de construção de sentido subjetivo um caráter muitas vezes atravessado por fatores conducentes ao incremento de calor, em detrimento da luz, para lançar mão de truísmo frequente desde antes das redes sociais…
O percurso de “o que se acha” para “o que eu acho” não é linear, portanto. O sentido construído pelo indivíduo nem sempre é assimilável a uma ventriloquia em relação ao significado (ou significados) social / sociais em disputa. Há vários desdobramentos possíveis, desde o completo alheamento do indivíduo em relação ao que o cerca até posições especularmente fiéis aos grupos de referenciamento (como os grupos de matriz religiosa ou político-ideológica), passando por várias visões em níveis diversos de hibridez ou heteronomia.
Gostaria de findar essa brevíssima discussão com meu depoimento pessoal acerca de que sentido consigo negociar, para meu uso pessoal, em relação ao que vi explodir diante de meus olhos, através da janela telemática. Rol de corpos envoltos em plástico preto. Minha visão acerca do “caráter cordial” do brasileiro já há muito foi abandonada. Avalio sermos um povo que tem componentes violentos preocupantes em seu ethos. Nesse sentido, a vida nas comunidades das periferias das grandes cidades brasileiras é marcada por violência estrutural, no dia a dia, sob os matizes mais variados. Tal violência numa direção gera uma massa crítica de ressentimento, medo e raiva (ódio) em reciprocidade. Tal magma tóxico nem sempre explode na cara de seus destinatários designados e conhecidos – muitas vezes persiste em fermentação perigosa, rumo a situações nem sempre previsíveis, e frequentemente assustadoras pela aparente desmesura (ou mesmo vazio explicativo) do ato violento finalmente em erupção. Nesse sentido, o rol de mortos do 28 de outubro é somente um elo em um devir de dramas que vêm de antes e que persistirão na sequência. Num clima de ações e reações previsíveis, como fenômeno social, mas imprevisível quanto ao lugar, à hora, ao teor explosivo.
O que ocorreu parece-me duplamente assustador: pelo uso da força bruta como ação de Estado com aprovação de parcela importante da cidadania e pela certeza de que vivenciamos a emergência de um epifenômeno que haverá de perdurar. Porque temos sido e somos violentos, como postura cultural, porque tal postura reflete disputas cuja abordagem produtiva está relegada a quando o período eleitoral passar, e porque nessa lava perigosa de medo, ódio, descaso e atrofia ético-moral, o que vem na sequência a policiais mortos e civis idem é espasmo reativo do “olho por olho…”.
O sentido que trago comigo, a partir dos significados em jogo e em função do ocorrido e comentado aqui, é um misto de desesperança em termos estruturais e medo em termos circunstanciais. E olhem que nem moro em comunidade periférica, mas de há muito arquivei a ideia ingênua de que estamos, nós das bolhas burguesas de classe média, a salvo do fuzil das facções. Não estamos.
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(com Fernanda Abreu):
“Cachorrada doentia do Joá, é
Cachorrada doentia São Cristóvão
Cachorrada doentia Bonsucesso
Cachorrada doentia Madureira
Cachorrada doentia da Rocinha
Cachorrada doentia do Estácio”
(…)
Cachorrada entranhada no Brasil
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Foto da Capa: Tomaz Silva / Agência Brasil

