
Proprietário de uma verve irônica (e até cáustica!), o vienense Karl Kraus (1874-1936), num daqueles seus famosos aforismos, disse algo assim: “Estamos esperando o Homem Novo há dois mil e quinhentos anos. Se ele ainda não apareceu, é porque não virá mais!”
A ideia da produção histórica de um HOMEM NOVO está presente em todas as pedagogias “progressistas”, aquelas que se fundaram numa determinada concepção moderna de “História”, que supunha que nenhuma força metafísica ou sobrenatural (Deus, Destino, Providência…) iria, doravante, determinar o progresso do espírito humano em direção à liberdade, ao autoesclarecimento, ao aperfeiçoamento das instituições, à valorização do indivíduo autônomo, à igualdade no interior da liberdade.
Projeto ambicioso!
E era tendo como horizonte esse homem renovado, quer dizer, tendo “superado” (uma das palavrinhas preferidas de nossos “materialistas dialéticos”!) sua alienação, sua falsa consciência, as formas sociais e políticas da dominação e construída a sociedade finalmente “humanizada”, que poderíamos, nesse horizonte, praticar – no presente – uma forma de pedagogia “libertadora” ou “emancipatória”. O tema é extremamente sedutor e orienta muitos de nossos grupos educacionais que se dizem de orientação “freireana” (do nome de Paulo Freire). Mas, como disse Kraus, o Homem Novo não chegou, e eu não acho que ele está atrasado nem que perdeu “o trem da História”: ele é apenas uma de nossas ilusões necessárias e, como disse certa vez Hans Jonas, “não temos outro Homem”: temos que contar com “esse” mesmo, ordinário, imperfeito, ambíguo, sublime e violento, capaz de obras de cultura elevadas e de promover, também, a destruição do outro com refinamento técnico e cálculo racional.
Assim, precisamos realizar um diagnóstico um pouco mais realista de nossa época e tentar perceber as instâncias que substituíram as promessas utópicas da Modernidade. Quais são as descrenças que nos invadiram e estão moldando nossa saturnal época? O que precisávamos “destruir” para podermos entrar num suposto Novo Tempo? Minha lista é relativamente extensa e, nela, eu não hesitaria em colocar temas como: o passado, o futuro, a utopia, a verdade, a realidade, o ser, a consciência, o sujeito, a história, a autoridade, a liberdade, a igualdade, a política, a educação… Tentarei explicar melhor, seguindo a “lista” acima de nossos… desencantos.
No PASSADO, nós depositávamos um potencial de nos guiar e de servir de exemplo a não ser repetido (“Um povo que não conhece a sua história está fadado a repeti-la”, lembram-se?), mas parece que é exatamente esse passado que não interessa mais e lembrá-lo ou respeitá-lo é incorrer em erros repetidos ao longo da história dos homens.
O FUTURO, por outro lado — o tempo privilegiado da Modernidade — não é mais aquele lugar da realização da Utopia, lembrando que a Modernidade retirou a Utopia de um ESPAÇO (uma ilha, um país escondido…) e a trouxe para um TEMPO (no futuro socialista ou comunista…). Mas parece que, agora, é o presente que, no seu “presentismo”, define nossos projetos, que não são mais um “lançar-se” (PRO-JECTUM), mas um adaptar-se.
Da mesma forma, estamos desmoralizando a VERDADE, que deixa de ser (conceito de verdade material ou empírica) uma relação entre o conteúdo de nosso intelecto e os entes tidos como “objetivos” ou “subjetivos”, verdade anunciada através da palavra racional e conceitual. Num mundo regido pela virtualidade e pelas ‘fake news’, o sentido moral, político, espiritual ou intelectual que a Verdade continha tende a desaparecer. Não se trata de viver na mentira: trata-se de produzir uma nova relação entre as palavras e as coisas, base para qualquer forma de liberdade ou de dominação.
A HISTÓRIA havia deixado de ser o “estudo do passado”, de onde poderíamos retirar “lições” para a vida social ou individual prática, e passara a ser, na Modernidade, um “PROCESSO”, quer dizer, um conjunto de forças inteligíveis e racionalizáveis (Kant, Hegel, Marx) que detinha, mesmo que ‘astuciosamente’, um sentido (significado) e uma direção (a realização do humano no tempo).
Nossa época é aquela do, na ausência de termo mais adequado, do DESESPERO, não num sentido “psicológico”, mas num sentido social e histórico. Mas sem esse desespero, tão típico de épocas que terminam e de outras que começam sem que se saiba exatamente aonde vão chegar. São essas épocas “desesperadas” (que também atingem nossa sensibilidade espiritual; não é por acaso o altíssimo índice de suicídio atual!) onde se germina o novo tempo, que não significa Melhor: ele será sempre imprevisível, mas é nele, nesse Tempo Novo onde se dá a possibilidade de um outro COMEÇO!
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