Europa, 1940. Milhões de judeus estão condenados. Não há saída: o resto do mundo não os quer. Nada de asilo, vistos. Para a maioria, a morte é certa.
Brasil, 1941. Um jovem intelectual judeu, Paulo Rónai, que deixou a Hungria no fim do ano anterior, chega à segurança do Brasil. Aqui chegando, dedicou-se a duas tarefas: resgatar sua noiva e sua mãe, que ficaram na terra natal, e prosseguir seu trabalho literário, que, de início, consistia em continuar erguendo a ponte entre duas culturas distantes. Enquanto isso, o judeu húngaro se metamorfoseou: tornou-se brasileiro, um dos grandes intelectuais brasileiros do século XX. Segundo um ditado húngaro, “Quantas línguas, tantas vidas”, e, ao se meter a aprender a “última flor do Lácio”, Rónai não sabia que esta é que lhe daria uma nova vida perpassada pelo luto e pela melancolia da primeira, mas nem por isso menos vital.
No livro ‘COMO APRENDI O PORTUGUÊS e outras aventuras’ – Instituto Nacional do Livro, Rio de Janeiro – 1956, Paulo Rónai diz que às vezes lhe perguntam como aprendeu o português, responde que nunca o aprendeu e provavelmente nunca o aprenderá.
Para explicar, faz um retrospecto de sua vida e conta que em Budapeste ensinava línguas latinas e, em especial, o latim, o italiano e o francês. Costumava frequentar um círculo de linguistas dedicados a estudar idiomas exóticos, os quais desprezavam as modestas excursões de Ronai no domínio neolatino. Mas um dia – conta Rónai – tive coragem de relatar-lhes que principiara a aprender o português.
De todos os escritores húngaros, Desidério Kosztolányi era o único que se aventurara a abordar o estudo do português, o qual um dia lhe revelou que o português lhe parecia alegre e doce como cantos de passarinhos e dava-lhe a impressão de um latim falado por crianças ou velhos sem dentes, pois que se os tivessem, como teriam perdido tantas consoantes? E se espantava com palavras como lua, dor, pessoa, veia, procurando apanhar o que nelas restara das palavras latinas, cheias e sonoras, mas para Rónai, era justamente a pronúncia que lhe causava algum medo. As nasais, tão numerosas (coração, pão, salvação), o arrepiavam mais do que a gramática, pois as cercava de maior mistério. Era impossível explicar a pronúncia de tais sons. A única maneira de aprendê-la era pedir a um natural do país que as pronunciasse um grande número de vezes. Mas como encontrar em Budapeste um natural de Portugal? E então, começou a meditar sobre enigmas fonéticos, como, p.ex., os diversos valores do x que em húngaro nem existe, ao passo que no português se pronunciava de quatro maneiras diferentes e ainda como se conformar com o gênero feminino da palavra criança. Nem podia admitir que nomes tão franceses como chapéu, paletó, pudessem ser incorporados ao português sem mais nem menos. Os vocábulos de origem árabe se apresentavam solenes, muito mais presos à origem do que realmente são, e lhe pareciam até impossível que um alfaiate cortasse paletós e calças pelo modelo inglês, em vez de só fazer albornozes.
Prossegue Rónai. “Afeiçoei-me logo às formas mesoclíticas dos verbos: falar-te-ei, lembrar-nos-íamos, que se apresentavam como que em corte anatômico, palavras já fundidas no francês ou no italiano e que faziam supor qualidades de análise e síntese em todos os que as empregavam.”
Mas onde conseguir mais livros em português na Hungria daqueles anos? Por acaso, Rónai encontrou “Os cinco sentidos“, de Almeida Garret, o romance da “Nau Catarineta” e um punhado de quadras, das quais a começada por “O anel que tu me deste” ainda hoje lhe parece um milagre de patética simplicidade”.
Um livreiro amigo descobriu um volume roto e sujo de um autor português moderno, Samuel Ribeiro. Tempos depois, Rónai conheceu um funcionário do consulado do Brasil a quem mostrou o livro. Este o examinou com atenção e declarou que “ou aquilo não era português ou então no Brasil se falava outra língua“. Então, Rónai deixou de lado o livro de Samuel Ribeiro e se pôs a ler poetas brasileiros.
“Atrevi-me então a traduzir alguns poemas de autores brasileiros.” E por outro acaso conheceu o poeta Ribeiro Couto (1898-1963), embaixador do Brasil na Hungria, que lhe deu um volume de Bilac, outro de Vicente de Carvalho e três números antigos do jornal “Correio da Manhã”. Esperançoso então, escreveu para o jornal que lhe enviou vários poemas de um jovem poeta carioca para que julgasse a qualidade dos mesmos. No “Acalanto do Seringueiro” de Mário de Andrade, o uirapuru só podia ser pássaro, “mas levei tempo para atinar que o cabra da peste do mesmo poema não designava um bicho, mas um homem”.
Com a generosa ajuda de Ribeiro Couto, aos poucos Rónai foi se inteirando do complexo sentido geográfico, antropológico, sociológico e, sobretudo, poético, das denominações no Brasil. Só depois de novas cartas com um poeta esquerdista em cujas estrofes havia inúmeras alusões aos morros cariocas, enviou-me para meu entendimento uma lista de sinônimos: colina, outeiro, ribanceira, etc., e que, ao contrário de Budapeste onde os morros eram cobertos por luxuosos palacetes de gente rica, no Rio eram sinônimos de favelas, conjuntos de habitações populares toscamente construídas e habitadas por pessoas pobres e sem recursos higiênicos.
Paulo Rónai, então, com seu encorpado vocabulário brasileiro, editou um volume intitulado Mensagem do Brasil, que o crítico Jorge Bálint – que mais tarde os nazistas o assassinaram – escreveu um artigo chamado “O Brasil chegou-se para mais perto”.
Quando os tanques alemães invadiram a Polônia, Rónai resolveu se mudar para o Brasil. A viagem tinha que ser feita através de Portugal, a única saída da Europa em plena guerra. Chegou a Lisboa com todas as preocupações do exilado, mas consolado pela interessante experiência linguística que acumulara em Budapeste, pensando que mal podia lhe suceder se já conhecia as formas mesoclíticas e o infinitivo pessoal?
No entanto, nas primeiras semanas, Rónai sofreu tremendas decepções, pois não conseguia entender patavina da língua falada pelo povo lisboeta. Entendia o que lia nos jornais, mas o porteiro do hotel dizia-lhe três palavras e o húngaro ficava outra vez no mato sem cachorro.
Humilhação ainda maior: os intelectuais portugueses, depois de tentativas frustradas de se comunicarem, recorriam ao francês para se fazer entender.
Os passeios de bonde tornaram-se problemáticos. Quando o motorneiro anunciava o local de uma parada, Rónai tinha que olhar a placa afixada nos postes. Na “Restauradores”, (a praça) eram suprimidas três vogais, carregando nos rr e sibilando nos ss.
Finalmente, o escritor húngaro embarcou para o Rio de Janeiro no Cabo de Hornos, atormentado por maus pressentimentos.
Vinte dias depois – que alívio! – o Brasil o recebia com uma linguagem clara, sem mistérios. Entendia todas as palavras do carregador ao qual informei, eufórico, o fato de ter aprendido o português na Hungria e que suas palavras de boas-vindas as entendia com clareza e alegria. E ficou tão satisfeito que não rebateu a surpreendente afirmação do cidadão carioca: “Na realidade, doutor, o português e o húngaro são línguas irmãs“. E no caminho para o hotel, o recém-chegado deu-se conta de que o idioma que aprendera em Budapeste era mesmo o português.
Não demorou um mês para que seu já grande admirador e afetuoso amigo Carlos Drumond de Andrade escrevesse no Correio da Manhã:
“O português, como o aprendi.
Paulo Rónai conta, fagueiro.
Outra façanha dele eu vi:
aprendeu a ser brasileiro”.
Nota: A brava Editora Globo de Porto Alegre, aventurou-se editar em vários volumes, na década de 50 do século passado e pela primeira vez no Brasil, a grande obra A COMÉDIA HUMANA de Honoré De Balzac. A introdução, partes da tradução, notas e orientação geral foram elaboradas por Paulo Rónai. Érico Veríssimo, Mário Quintana, João Gomes da Silveira, Casemiro Fernandes, Joaquim Novais Teixeira, Lia Correa Dutra completaram a equipe de tradutores da inolvidável obra de Balzac.
Franklin Cunha é médico e membro da Academia Rio-Grandense de Letras (franklincunha1933@gmail.com)
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Foto da Capa: Acervo de família.

