Estava aqui batucando nestas teclas em busca de assunto. Futebol ou política? Política não, né? Afinal, estamos a mais de um ano da eleição. E as pesquisas – tem pesquisa pra todos os gostos – mostram que – ao contrário do futebol – as torcidas de cada lado estão mais temerosas do que otimistas.
E com razão. Afinal, é difícil defender um time que reluta em aprovar a isenção de imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil por mês, mas não vacila em impedir a cobrança de imposto dos mais ricos, nem, muito menos, aceita reduzir um pouco a verba quase milionária de que dispõe todos os meses, ou o outro time, que não consegue aproveitar essas falhas do adversário…
Outro dia, ouvi um rabicho de conversa. O assunto era uma nota publicada pela colunista Bela Megale no Globo. A jornalista conta que o PL e o PT empatam em número de simpatizantes e são os únicos partidos que ainda mobilizam eleitores. A constatação é de uma pesquisa encomendada pela direção do bolsonarista PL para medir a popularidade da legenda.
Viu, disse um dos contrincantes, enquanto eu espichava o ouvido. Quando eu vejo uma pesquisa dessas, fico com medo de ser o grande perdedor da próxima eleição, de ter que votar num só para não deixar o outro ganhar.
Então, vamos de futebol. O colorado não joga… A Copa do Mundo dos Clubes rola sem surpresas… já temos o Palmeiras nas quartas de final. Ainda é sábado. Não sei o quanto sofreram, ontem, os flamenguistas…
Como não dá para tocar flauta, nem provocar ninguém, embora eu fique me segurando para não dizer que vou secar o chato do Portalupi, conto duas historinhas de um torcedor que pode ser considerado o precursor do VAR. O nome dele era Eladino. Torcedor gremista.
Os fatos a seguir se deram no tempo em que o futebol ainda era football, zagueiro era back, volante era center half, atacante era center forward, escanteio era corner e impedimento era offside…
Pulemos para hoje. Sabe aquela linha traçada por computadores que interrompem o jogo por três, quatro, cinco minutos para decidir se o gol foi legal, se o cartão amarelo deve ser trocado pelo vermelho, se houve falta no começo do lance do gol?
Pois o Eladino, lá pelos anos 60, 70 do século passado, já usava “a linha” para confirmar ou negar o pênalti, o impedimento e até a agressão ao juiz. A linha do olhar dele…
“Mas é natural, ora bolas! Foi impedimento! Eu tava na linha”!
Era assim que o Eladino encerrava todas as discussões, pós-jogo, lá no Bar onde era possível chegar a pé, dos Eucaliptos ou do Olímpico. Vai com B porque o lugar não tinha nome, mas era tão importante que a citação exige maiúscula.
Embora saíssem, por razões óbvias, em portões diferentes, colorados e gremistas faziam o mesmo caminho no final dos jogos. Do Olímpico, vinham pela José de Alencar até a Gonçalves Dias, por onde alcançavam a Visconde do Herval e chegavam ao Bar.
Dos Eucaliptos, desciam aquele trechinho da Silveiro até a José de Alencar e vinham até a Getúlio Vargas, por onde alcançavam a Visconde e o destino final. Aí, começava o bate-boca. Até o Eladino decretar: “Mas é natural, ora bolas!! Foi offside! Eu ‘tava’ na linha!”
Lembro dois episódios que atestam a condição de precursor do VAR do nosso personagem. Em 1977, o Inter jogava o Grenal por um empate para ser eneacampeão Gaúcho. O Grêmio ganhava o jogo por 2 a 1. Aos 41 minutos do segundo tempo, o zagueiro tricolor derrubou Dario, o Dadá Maravilha, goleador colorado, dentro da área.
Agomar Martins, o juiz da partida, não vacilou e correu com o indicador apontando a marca do pênalti. Mas não conseguiu entrar na área. Foi barrado por toda a defesa gremista, Oberdã, zagueiro e capitão, à frente. Diante daquele muro humano, sem o menor pudor, Agomar virou a mão e marcou falta da área. Resultado: Grêmio campeão gaúcho em 1977.
No Bar, o precursor do VAR foi acionado e, apesar de gremista, garantiu: “Mas é natural, ora bolas! Foi pênalti! Eu ‘tava’ na linha!!” O pênalti fora tão claro, que, poucos dias depois, Agomar anunciou que não apitaria mais.
Outro lance histórico do Eladino envolveu Everaldo, o disciplinado lateral esquerdo do Grêmio e da seleção tricampeã do mundo. Foi em 1972. Jogavam no Olímpico, pelo campeonato nacional, Grêmio e Cruzeiro de Belo Horizonte.
José Faville Neto apitava a partida. Palhinha, atacante mineiro, invadiu a área do Grêmio, foi desarmado pelo zagueiro Beto Bacamarte e caiu no gramado. Faville apitou e correu em direção à marca do pênalti. Na meia-lua da grande área, caiu como se tivesse batido num poste.
Todo mundo, até os operadores das câmeras de TV, ficou focado no Palhinha caído. Poucos prestaram atenção no lateral gremista.
Inconformado com a marcação do pênalti, Everaldo barrou a corrida do árbitro com um direto no queixo e nem esperou o cartão vermelho. Caminhou calmamente em direção ao túnel. No Bar, depois do jogo, a discussão era se Everaldo tinha socado ou dado um encontrão no árbitro. Eladino, o VAR humano garantia: “Eu ‘tava’ na linha, ora bolas. Foi um soco!”
Everaldo tomou um ano de suspensão. Eladino continuou ocupando o mesmo lugar, fosse no pavilhão social do Olímpico, fosse nas arquibancadas de madeira dos Eucaliptos. Sempre na linha.
Daqui a mais de um ano, seremos, cada um de nós, um VAR na eleição. Quem sabe, a gente se posiciona na linha e dá cartão vermelho a todos os jogadores para que o jogo recomece com novos times. É natural, ora bolas… Afinal, é a gente que paga por essa pelada que está virando a disputa política.
Todos os textos de Fernando Guedes estão AQUI.
Foto da Capa: Everaldo / Divulgação

