Na história da ciência, destacam-se, tradicionalmente, aqueles que nos legaram relevantes descobertas. Sir William Osler (1849-1919), considerado o pai da medicina moderna, é, de certa forma, exemplar exceção.
William Osler nasceu no Canadá. Exerceu, ensinou e escreveu sobre medicina. Ajudou a construir a fama da Universidade McGill, em Montreal, da Universidade da Pensilvânia, na Filadélfia, do Hospital e Universidade Johns Hopkins, em Baltimore, e também atuou como Professor Regius de Medicina em Oxford, na Inglaterra.
Ainda muito jovem, em 1874, foi o primeiro médico a observar e descrever as plaquetas como componentes do sangue e, ao longo de sua trajetória, contribuiu para o conhecimento de inúmeras doenças. Mas, acima de tudo, eternizou-se por sua vocação humanística, generosidade e excelência clínica.
William Osler é responsável pelo surgimento do que se pode chamar uma “escola médica”. Filosofia e arte construídas a partir de pensamentos e atitudes. Entusiasta da “medicina à beira do leito”, desenvolveu um programa integrado de instrução em pequenos grupos nas enfermarias, sempre incluindo uma grande porção de humanidades ao ensino. Criou a residência médica, ainda hoje imprescindível para a capacitação de médicos recém-formados. Ele foi também um dos responsáveis pela entrada das primeiras mulheres nas faculdades de medicina.
Disseminou vasto conhecimento científico. Autor prolífico, sua obra mais famosa, publicada em 1892, “The Principles and Practice of Medicine”, é um dos mais importantes livros didáticos da história do ensino médico.
A importância que Osler dava aos livros pode ser avaliada pela biblioteca que leva o seu nome. Um segmento da Biblioteca da Universidade McGill, em Montreal. O núcleo do acervo original é uma coleção de 8.000 obras raras e históricas sobre a história da medicina e assuntos afins, herança de Osler. Desde sua abertura, a coleção continuou a crescer. Atualmente, conta com cerca de 100.000 livros, entre antigos e novos.
Mas, sobretudo, para Osler, o paciente era o “texto” fundamental; os demais livros, ferramentas a serem utilizadas na busca e construção da melhor capacidade clínica. “Estudar o fenômeno da doença sem livros é como navegar sem mapa, mas estudar em livros sem ver pacientes é como não navegar”, afirmava ele.
À maneira de um pregador, o que quase se tornou – de início pretendia seguir a carreira do pai, ministro da igreja anglicana -, William Osler nos deixou notáveis proclames. “O método natural de ensino começa com o paciente, continua com o paciente e termina com o paciente, usando livros e aulas como ferramentas para este fim”; e dirigindo-se ao aluno: “Viva nas enfermarias. Não gaste horas do dia em algo que você possa ler à noite. Mas, após ver, leia. E, quando puder, leia nas descrições originais dos mestres que, com métodos rudimentares, viam tão claramente.”
Osler sempre insistiu na essencialidade do contato com o enfermo, com atenção, respeito e preocupação com o seu conforto. O paciente é um ser único, individual. “O bom médico trata as doenças, mas o grande médico trata o paciente.”
Vários de seus discursos encontram-se reunidos na “Aequanimitas: with other addresses to medical students, nurses and practitioners of Medicine”, obra publicada em 1905. Os terapeutas, ensina ele, devem ser sensíveis, nunca desumanos ou duros com os seus doentes, mas também precisam manter uma equilibrada distância emocional. O termo aequanimitas (equanimidade) refere-se a uma virtuosa atitude, espírito sereno e moderação na aceitação das vicissitudes e dos enfrentamentos que a vida impõe.
Para conquistar essas virtudes, William Osler não recomendava somente obras ditas científicas. Autores como Plutarco, Epiteto, Shakespeare, Miguel de Cervantes, Montaigne, entre outros clássicos, Emerson, Oliver Wendell Holmes, muitos outros livros e até o Velho e o Novo Testamento, auxiliariam o médico a manter o curso ético e moral apropriado, promovendo o conhecimento para entender sua prática e fazendo com que adquirisse a “sabedoria na vida que só chega àqueles que a buscam”. Transformando o leitor num “homem verdadeiramente bom”.
É providencial lembrarmos do doutor Osler, quando se discute a necessidade do resgate do humanismo. Não somente na formação profissional de um médico, mas num plano muito mais amplo, social e político, quando a ignorância absurda e absoluta exibe surreal naturalidade. Reitere-se o valor da ampla literatura, de uma escrita que faz pensar e não se restringe a frases de efeito e jaculatórias vazias disparadas em redes sociais.
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