Quando eu era criança, adorava fazer aquela brincadeira com pétalas de flores, o “mal me quer, bem me quer”, torcendo para que a sorte e as pétalas durassem até o segundo desfecho. Mal ou bem, sim ou não, certo ou errado. Ah, se as coisas fossem simples e respondidas no simples despetalar de uma flor…
Esse final de semana assisti à sequência do filme Wicked, uma releitura brilhante e, ao meu ver, comovente do clássico mágico de Oz. Os dois filmes da série são uma adaptação cinematográfica do famoso musical da Broadway inspirado no livro Wicked: The Life and Times of the Wicked Witch of the West, de Gregory Maguire. A história reimagina o universo de O Mágico de Oz a partir da perspectiva das bruxas, especialmente Elphaba, que mais tarde se torna a “Bruxa Má do Oeste”.
Lembro-me bem da minha infância marcada pela história do filme original, de 1939. O medo que eu sentia da bruxa, o fascínio pelos sapatinhos de rubi, o medo que sentia por Dorothy, longe de casa com seu estimado Totó.
Inúmeras análises já foram feitas sobre os companheiros de jornada de Dorothy, leituras psicológicas sobre a busca de um indivíduo por coragem, amor e inteligência. Porém, nunca antes havia se olhado para as bruxas. Os tempos sombrios em que vivemos, marcados por ódio às mulheres livres, e sabemos que desde a idade média as bruxas queimadas em praças públicas não eram nada mais do que mulheres que não se submetiam aos imperativos de seu tempo. Precisa-se, mais do que nunca, falar sobre todas essas ditas bruxas. Loucas por serem livres, precisavam ser eliminadas, e acima de tudo servirem de modelo para gerações futuras, que entendessem que ser livre e desafiar um sistema imposto leva à morte. (Qualquer semelhança com 2025, infelizmente, não é mera coincidência).
Voltando ao filme, vemos a história da infância de ambas as futuras bruxas de Oz: a boa e a má. Entendemos de início que a bruxa má nasceu diferente, sendo maltratada na família, e com poderes vistos como aberrações, estranhezas. Elphaba é inscrita no lugar da diferença radical (a pele verde). O olhar do outro define sua posição: o corpo verde é lido como ameaça, erro ou defeito. A potência de Elphaba (seu poder mágico) é vista como excesso.
Ela busca inscrição, um lugar simbólico onde sua diferença não seja sinônimo de exclusão, buscando reconciliar o que é com o que o outro espera que seja. Já a futura bruxa boa, a menina bonitinha, ingênua e bobinha, encarna o Eu Ideal: bela, querida, aprovada por todos, depositária do amor dos outros.
Já o mágico, esse fica, desde o clássico filme que assisti na minha infância, como entidade (e quantas elegemos ou inventamos ao longo da vida) que prometeria completude, a realização de todos os desejos. O mágico é uma farsa, uma ilusão necessária a ser buscada. Para a psicanálise, trata-se da figura que tenta ocupar o lugar de completude, alguém que “tem” o saber. Elphaba, a bruxa verde, é diferente, com poderes incompreendidos e por isso vistos como anomalias ou falhas, não se submete a esse mágico e por isso é castigada com a nomeação de má.
Em um determinado ponto do filme, a própria Elphaba, quando convidada a unir forças para seguir criando a ilusão de um mágico poderoso para Oz, traz uma fala que parece resumir (sem querer reduzir) a complexa dinâmica bem versus mal. Ela diz que tal união não daria certo, pois aquela comunidade carecia de um mal para manter-se dominada e na necessária sensação de precisar sentir-se protegida por essa entidade bondosa, compreensiva e amorosa como a bruxa boa, que nem mesmo poderes verdadeiros tinha, era tudo parte da grande farsa.
Também parece interessante o fato de que essa releitura do clássico não dá destaque à Dorothy, que nem mesmo tem um rosto nesse filme, apenas seus pés aparecem. A estrela não é ela. Não é ela quem está precisando encontrar o caminho para casa. A grande máxima que o clássico de 39 trazia, de que “não há lugar melhor no mundo do que a minha casa”, não é nem mencionada.
Talvez nossa casa sociedade esteja adoecida nessa busca desenfreada por gurus, religiões ou mitos, que garantam uma harmonia e uma segurança aos cidadãos ditos de bem.
Nossa Oz Brasil vive na casca de (n)Oz, não enxergando que o mal e o bem são dois lados da mesma moeda (Melanie Klein já tentava há anos falar dessa integração tão necessária ao psiquismo dos bebês).
Assistam a Wicked. É filme de gente grande, filme para nossas infantilidades e nossas promessas quebradas e jamais cumpridas. Precisamos ser melhores, precisamos entender mais das próprias estradas de tijolinhos amarelos. Nossos leões, espantalhos e homens de lata agradecem.
Todos os textos de Luciane Slomka estão AQUI.
Foto da Capa: Divulgação

