Hoje à noite, a prestigiosa Academia Rio-Grandense de Letras vai entregar os seus diversos troféus para os melhores livros do ano. Com muito orgulho, estarei lá, não em corpo presente, pois já tinha uma viagem marcada, mas em alma feliz de fazer parte da literatura do RS.
Fui indicado como finalista para o troféu Felix da Cunha, de melhor obra dramática, com o livro Sig e Rita (editora Bestiário). A peça foi encomendada pela Sociedade Brasileira de Psicanálise de Porto Alegre para uma de suas jornadas científicas. Lembro-me de que a Luciana Schmal me fez o convite, eu respondi que não, ela insistiu, eu fui dormir e, no sonho, recebi a visita de Rita Lee e Sigmund Freud, conforme a sugestão da Lu.
Quando acordei, eles já eram três contra um: a Lu falava sem parar, o Freud me interpretava, e a Rita me chamava de careta. Não deu outra e, mesmo careta, eu não era louco de inibir um texto que dava seus primeiros passos. Então, houve aquele encontro real-imaginário entre a maior rockeira brasileira e o maior psicanalista vienense, quando baixavam a guarda, assumiam a sua pobre condição humana e apostavam, juntos, todas as fichas na arte para uma redenção humana. Eu só deixei fluir.
A coisa foi um sucesso estrondoso em Porto Alegre, com direito a ser replicada em Gramado, Ribeirão Preto, e novos convites não param de chegar. Digo isso sem arriscar perder a modéstia, pois estou convicto de que o sucesso se deve menos ao texto em si do que à montagem brilhante do Júlio Conte, as interpretações magistrais de Catharina Conte, no papel da Rita, e João Petrucci, no de Freud.
Mas Freud é fogo persistente e voltei a sonhar, ontem à noite, com o Prêmio da Academia. Eu estava na cerimônia de entrega e logo experimentei a angústia de não ter ido viajar. O que estou fazendo aqui? – perguntava-me. Ok, eu respondia, a arte é mais importante do que a vida, mas foi então que o incrível aconteceu. Na hora de comunicarem o vencedor, este não era eu.
Aqui é preciso dizer que não estou perdendo a modéstia novamente, porque eu era o único finalista indicado. Em tantas outras vezes, perder foi normal e até mesmo inevitável, mas como explicar a derrota de um candidato único?
Freud explica, e justo ele me chamava a um canto para esclarecer. Sim, foi um papo reto entre mim e ele. E que honra, cheguei a pensar, apesar de sentir uma angústia enorme, diante daquele par de olhos superegoicos. Com a sua barba grisalha, o charuto fixo no canto da boca, o velho já era uma mistura dele mesmo com meu pai um pouco mais jovem e o João Petrillo um pouco mais velho. Tento reproduzir, na vigília, algumas de suas palavras:
– O Senhor bem sabe que construí a minha obra lendo a dos outros (eu sempre escrevi acompanhado), logo fazendo analogias e agora citarei um velho sábio chinês e sua mínima máxima de que somos os maiores inimigos de nós mesmos. Aí é que está. A partir do momento em que o Senhor tinha como único concorrente o Senhor mesmo, tornou-se muito difícil defender-se de si mesmo, e o resultado foi este: o Senhor derrotou o Senhor mesmo. Talvez, se chamares o Jorge Luis Borges, este possa salvá-lo, ao menos em parte, na parte que venceu, essa que derrotou a parte que perdeu.
Não havia nem sombra de Borges no sonho, e quase nada poderia ser feito, senão aceitar uma derrota literalmente pessoal. Mas (à la Borges), algo ainda podia ser feito, e eu fiz: acordei.
Agora ainda estou aqui desperto, no outro lado do mundo, esperando que o Prêmio seja entregue ao Roberto Prym, editor da obra, e que me representa na cerimônia.
No mais, segue a viagem, de olho na escuta de Freud e muito ligada nas patifarias que, acordados, costumamos fazer para nós mesmos. Defender-se disso dá um trabalho enorme, mas pode funcionar algumas vezes, especialmente quando conseguimos pegar mais leve ou ouvir, em alta frequência, a Rita Lee. Ela, aliás, esteve presente no final do sonho, quando, para os deleites meu e do Freud, a coisa toda foi ganhando uma conotação erótica.
A guisa de evitar maiores exposições pessoais e ataques à moral vigente, omitirei os detalhes mais tórridos das cenas, mas deixo o gostinho de sua trilha sonora:
“Que tal nós dois numa banheira de espuma?
El cuerpo caliente, um dolce farniente
Sem culpa nenhuma”.
Todos os textos de Celso Gutfreind estão AQUI.
Foto da Capa: Gerada por IA.

