Vivemos em uma sociedade de consumo, e isso impacta o mundo inteiro nesta quadra do capitalismo tardio. Mas o Brasil tem seus próprios problemas com relação a isso que são bem específicos. Em um país em que ainda se luta para fazer o povo conhecer e saber a Constituição e o mais básico do Código Penal, o Código de Defesa do Consumidor é, definitivamente, uma das leis que mais “pegaram” – ao ponto de gerar, em uma sociedade de matriz patriarcal e classista como a nossa, uma confusão generalizada entre as noções de “consumidor” e de “cidadão”. É fácil ver isso na verdadeira deterioração das relações entre o público e o setor de serviços, com trabalhadores precarizados cada vez mais desinteressados do contato com consumidores que se consideram legitimados pela possibilidade de pagar.
Mesmo as ações políticas de um governo de esquerda, como os primeiros mandatos de Lula, estiveram mais preocupadas em providenciar uma ascensão econômica aos mais pobres que passava pela transformação de novas camadas da população mais em consumidores do que de cidadãos – um movimento que considero equivocado e que teve um rebote gigantesco na captura de muitos desses “novos consumidores” pelo canto de sereia do bolsonarismo.
Mas isso já foi ou vem sendo desdobrado em um bom número de análises e abordagens, não é bem o meu tema hoje. O que me chama a atenção para essa circunstância neste momento específico em que vivemos é que um dos desdobramentos que eu particularmente nunca teria previsto dessa evolução do mundo do Capital é que, mergulhados como estamos na sociedade de consumo, não são poucas as vezes em que a coisa mais difícil que você pode fazer é consumir.
Outro tempo
A Região Submersa é um livro de Tabajara Ruas que se constitui em um pastiche delirante misturando literatura policial, ficção científica galhofa e sátira política, abordando a figura algo quixotesca do detetive Cid Espigão enquanto investiga um caso passado a ele, como nos bons romances noir, por uma bela mulher fatal que um dia o procura em seu escritório e o contrata para um serviço que pareceria banal, mas que escancara as portas do caos. A estonteante cliente quer que Espigão, vulgo Docinho, encontre seu filho, um estudante de medicina desaparecido. Ao longo de sua investigação, Espigão topa primeiro com a dificuldade em obter informações em um país vivendo sob o arbítrio de uma ditadura militar – e depois se vê emaranhado numa teia na qual de um lado estão militantes de resistência como a guerrilheira Alexandra, com quem ele se envolve, e agentes da ditadura de extrema-direita, que o manipulam e por fim aprisionam.
Embora essa pareça a trama de um noir básico em suas premissas, o que diferencia este vibrante mas imperfeito romance de estreia de Ruas, publicado originalmente em 1978, na Europa, onde o escritor estava exilado, é a profusão de detalhes lisérgicos e dramáticos que logo escalam a história até níveis insólitos de delírio. Após encontrar o alvo de sua busca e vê-lo outra vez desaparecer, Cid se embrenha cada vez mais nos meandros podres do poder em Brasília e descobre segredos perigosos, entre eles a revelação de que os generais que se alternam no poder não são humanos, e sim robôs altamente desenvolvidos, marionetes da verdadeira conspiração. A sátira ao regime não é o único elemento de fundo, mas toda a história pode ser lida como uma dolorosa alegoria de tomada de consciência, uma vez que Espigão é o protótipo do sujeito “alienado” resolvendo seus casos banais até o momento em que se vê confrontado com o choque da situação do país – a um preço alto, dado que passa anos preso e sendo sadicamente torturado até conseguir finalmente sua vingança. Confesso que os detalhes inteiros da história até hoje me parecem nebulosos, e o que ficou na minha cabeça dessa leitura feita lá pelos meus vinte anos foram elementos colaterais, como pequenas cenas, ou determinados trechos nos quais Tabajara subvertia, com sua prosa caudalosa e suntuosa, a ligeireza que se espera desse tipo de narrativa. É uma cena que na época me pareceu vagamente absurda – e que, eu juro, vai fazer sentido com a primeira parte deste texto quando eu explicar.
Na cena em questão, Espigão chega a uma recepção, agora não me lembro se de uma empresa privada ou de algum órgão público, e, para poder entrar, precisa entregar sua carteira de identidade para o recepcionista. Algo que o personagem primeiramente se recusa a fazer com um tom bastante indignado de que não haveria sequer previsão legal no Direito para aquele tipo de exigência. Não me lembro se ele cede, minha impressão é que sim, mas o que lembro nitidamente é de achar muito estranha essa cena específica ao lê-la num ônibus viajando para São Gabriel ali por 1993, 1994. O livro é de 1978, foi publicado no Brasil em 1981, então esse tipo de interação plasma no papel um quadro que eu, lendo a história quase 15 depois, não reconhecia, porque já naquela primeira metade dos anos 1990 havia se tornado, mais do que comum, naturalizado que você precisasse informar o número de um documento pessoal para entrar na maioria dos edifícios comerciais.
Ainda penso nessa cena específica toda vez que compro alguma coisa em um estabelecimento qualquer que hoje se acha no direito de me exigir meu número de CPF.
Dados
Nem todas as situações são as mesmas. Às vezes, você voluntariamente está a fim de oferecer seu número de CPF para colaborar com o fim da sonegação fiscal e concorrer a alguns cinco ou seis reais no aplicativo Nota Fiscal Gaúcha (certa vez, ganhei exatos R$ 8,88), mas não são poucos os lugares em que o fornecimento do que é, no fim das contas, um dado de identificação particular, é exigido como pré-requisito para uma transação comercial. Mais de um supermercado na cidade praticamente só libera o pagamento via cartão se você informar o CPF primeiro (um deles, o Cestto, aqui perto da minha casa). Outras vezes, você quase precisa sair no braço com um atendente da Panvel que quer por que quer seu número de identificação para “oferecer um desconto”, mesmo que você preferisse abrir mão de seja qual for o percentual merreca dessa pechincha para conservar um dado sigiloso que, você suspeita, farmácias em geral podem compartilhar com as operadoras do seu plano de saúde, por exemplo.
Algum lambe-saco do sistema talvez aponte que isso só é pedido de quem quer pagar com um cartão bancário ou agora com a nova modalidade do PIX (aliás, uma das chaves mais comuns usadas por qualquer correntista é justamente seu CPF), e esse inconveniente é um preço a pagar pela comodidade desse sistema – o que eu até poderia aceitar como argumento se fosse fácil ou mesmo possível pagar com dinheiro vivo. Tente. A expansão dos meios eletrônicos transformou a simples tarefa de entrar, pagar em dinheiro e ir embora com seu produto impossível. O caixa não tem troco. Ou o único em que é possível realizar a transação é no porão do segundo subsolo da loja, numa terça-feira de lua cheia com trânsito em Júpiter. E se mesmo assim você conseguir chegar lá, bem, você já sabe, o sistema está fora do ar…
Pode parecer um tipo de incômodo vazio este meu, mas quanto mais velho fico, menos paciência tenho para com a hipocrisia do lero-lero, e o comércio de modo geral tenta os enrolar com a ideia de que essa cadeia automatizada online foi montada para nossa facilidade e benefício. Talvez no início, mas mesmo assim tenho minhas dúvidas. Hoje a única facilidade é a das empresas coletar ainda mais dados seus do que antes. Depois ainda há surpresa geral com a escalada alarmante de fraudes eletrônicas, quando o que mais voa e flutua na ionosfera das transações online são dados confidenciais?
Fico pensando se tudo isso é parte de alguma acomodação que vê o futuro com alguma clareza e percebe que, seguindo pelo caminho em que vamos, em uns 10 ou 20 anos só sobrarão alguns poucos muito ricos com real dinheiro, enquanto os outros de nós estarão, como muitos já estamos, negociando nossa atenção e nossos dados em troca de migalhas (“Seu CPF por um desconto de 3% numa caixa de remédios custando mil reais”, “Pode nos informar a senha do seu e-mail por um brinde de acrílico fabricado em Singapura?”, “Faça um cadastro completo com nome, endereço, telefone e tamanho da benga para usufruir de nosso clube de vantagens, a vantagem sendo você não pegar fila no caixa, mas ainda assim esperar 20 minutos até voltar o sistema”).
Eu vi o nascimento da revolução digital – e ao contrário de muitos dos deslumbrados digitais que viam nela a ponte para um “outro mundo possível”, sempre fui dos desconfiados que achavam que ia dar ruim. Que quadra infeliz esta do capitalismo quando a nossa maior nostalgia em breve será da época em que você só precisava dar seu dinheiro, não sua identidade e suas informações, para comprar qualquer coisa que precisava.
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Foto da Capa: Simon Kadula / Unsplash.

