Da cela onde cumpre prisão na sede da Polícia Federal, em Brasília, o ex-presidente Bolsonaro pode ter dado mais um tiro no próprio pé e ferido seriamente a direita que sonha em derrotar Lula em outubro do ano que vem.
No dia 4 deste dezembro chuvoso – como todos os dezembros em Brasília –, o senador Flávio Bolsonaro, depois de uma visita ao pai, anunciou que teve a benção dele para ser o candidato do bolsonarismo à Presidência da República.
Fora a manifestação da madrasta Michelle, que rogou pela companhia de Deus para a candidatura, Flávio não conseguiu a benção de nenhum líder do Centrão e só ouviu o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, dizer que “se o capitão mandou, vamos obedecer…”.
A economia também foi ferida. A Bolsa de Valores brasileira, num recorde histórico, no começo da tarde da quinta-feira, 4 de dezembro, tinha alcançado mais de 165 mil pontos.
Logo depois do anúncio da candidatura do senador Bolsonaro, começou a cair e despencou 4,31%, numa queda só superada por outra, provocada, também, por uma decisão do papai Jair. Em fevereiro de 2021, a bolsa caiu 4,87% por causa da indicação do general Joaquim Silva e Luna para a presidência da Petrobras.
No Centrão, a reação foi tão negativa quanto na Bolsa. A cotação de Flávio caiu quase ao rés do chão. PSD, PP, Republicanos, União Brasil já falam até em neutralidade na eleição e alertam para o risco de isolamento – maior do que o atual – do bolsonarismo na campanha.
Os governadores direitistas – Caiado (GO), Zema (MG) e Ratinho Jr. (PR) mantêm as candidaturas.
No Palácio do Planalto, a avaliação é que o lançamento da candidatura do senador filho do ex-presidente é um balão de ensaio para testar a força que ainda tem o sobrenome Bolsonaro. E que, lá em agosto, na hora do registro de candidaturas, visto que Flávio não tem cacife para jogo tão importante, outro nome vai para a urna eletrônica.
O Centrão quer o governador paulista Tarcísio de Freitas.
Reportagem em O Globo, na edição de sábado, conta que líderes do centrão também não acreditam que Flávio tenha condições de enfrentar uma eleição de Presidente da República.
Essa avaliação é um dos estilhaços do tiro no pé de Bolsonaro nas articulações do Centrão e da Direita. Que Lula e seus aliados espalhem que Flávio é fraco e que o ex-presidente já não garante competitividade nem do filho é compreensível.
Agora, os bolsonaristas deixarem vazar que o senador, na hora H, vai ser substituído, não dá, né? O candidato substituto, seja lá quem for, vai dizer o que? Votem em mim! Eu vou assumir o legado bolsonarista? Que legado, que nem o filho do pretenso maior líder da direita conseguiu se beneficiar dele?
Bolsonaro, segundo pesquisa Datafolha publicada no sábado, 6 de dezembro, é rejeitado por 45% dos eleitores. A rejeição a Lula é de 44%.
(Parênteses e volto já: mesmo com todas essas rejeições, não aparece um candidato capaz de juntá-las num movimento antipolarização… mas isso é assunto para outro artigo.)
Volto… A pesquisa Datafolha deixa claro o equívoco do lançamento prematuro da candidatura bolsonarista. No primeiro turno, Lula derrota toda a família. Flavio por 51% a 36%, Eduardo por 52% a 35% e Michelle por 50% a 39%. A ex-primeira-dama é adversária mais forte que os enteados… No segundo turno, Lula ganha de Flávio com 15 pontos de vantagem: 51% a 36%.
Outros números da pesquisa também indicam que o lançamento de Flávio Bolsonaro pode ter sido uma rosca, como se diz no futebol, em que o jogador tenta mandar a bola para o ataque e acaba jogando contra o próprio gol.
Só 8% dos eleitores ouvidos pelo Datafolha consideram o nome do senador o ideal para disputar a eleição contra Lula. A preferida, entre os bolsonaristas, é Michelle, que tem o apoio de 22% dos pesquisados. Outros 20% preferem o governador paulista.
E, o pior de tudo, a pesquisa mostra como vai minguando a condição de maior liderança da direita nacional atribuída ao ex-presidente pelos filhos dele, claro. Perguntados se votariam num candidato indicado por Jair Bolsonaro, 50% disseram que não. Outros 26% responderam sim.
Os números mostram – hoje – como vai ser difícil matar no peito essa rosca do Jair, botar a bola no chão e formar um bom time que se entenda bem em campo contra o time de Lula, treinado, jogando junto desde 2002 e ainda contando com a torcida enrustida do pessoal que sobra no time da direita e sonha com algumas emendinhas amigas num eventual quarto mandato do petista…
Vai ver, o próprio senador admite no espelho que não tem condições, quiçá, de ir ao segundo turno e, por isso, não disse com todas as letras que o pai o nomeou candidato, preferiu ser mais light e disse, apenas, que “com muita responsabilidade informo que recebi do meu pai a missão de dar continuidade ao nosso projeto de Nação”.
Frases tão ambíguas, quando pretenciosas, não?
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Foto da Capa: Lula Marques / Agência Brasil

