Eu ainda estava fazendo uma viagem complexa pelo mundo e já me encontrava em Israel, o meu destino final. A situação era tensa pela Guerra na Faixa de Gaza. Foi aí que a Companhia Aérea começou a remarcar e desmarcar a minha volta sucessivamente. O espaço aéreo estava normal, então descobri que a Companhia e o site que vendia as passagens costumam fazer esta falcatrua: vendem um serviço que, antecipadamente, sabem não poder cumprir. O cliente depois que se vire.
Precisei mover mundos e fundos para que transferissem a passagem a uma outra Companhia mais honesta. Finalmente consegui, depois de precisar ficar mais uns dias retido por lá, batendo cabeça com a minha agenda rebentada. Voltei no dia em que eclodiu a Guerra com o Irã e, por questão de horas, não fiquei preso mais um mês.
Não me lembro de mover processos contra quem quer que seja, em seis décadas de vida, mas, desta vez, mudei de ideia. Foi muito sofrimento, muito gasto, e assim o fiz. A Companhia não aceitou nenhum acordo, e o processo segue no seu ritmo lento como costuma ser por aqui. Embora nada esteja resolvido, tenho aquele sentimento de estar defendendo alguma justiça.
Dia desses, recebi uma mensagem do “meu advogado” dizendo que a Companhia agora queria um acordo e topava tudo o que havíamos pedido, depois de havermos calculado todos os gastos decorrentes do atraso. Vinha com a foto dele e um enorme conhecimento da causa, de forma que, no começo, não desconfiei do santo e sua esmola enorme. Lá pelas tantas, depois de ele tentar me pedir alguns dados, desconfiei da coisa toda, que começava por vir de um outro número que não o habitual. Liguei para o advogado perguntando se era ele mesmo.
Não deu outra, era o Avatar, e aquele golpe, segundo ele, vinha sendo muito comum. Os golpistas têm acesso ao processo, estudam-no com afinco e depois se fazem passar pelos advogados para conseguir o pagamento de algumas taxas falsas. Felizmente, eu me dei conta a tempo, e tudo terminou como é comum no meu caso, ou seja, em texto. Reproduzo agora um trecho significativo da conversa que eu tive com o golpista, antes de bloquear o contato:
— Descobri o golpe e vou te bloquear. Vá cantar em outra freguesia até que te prendam.
— Já estou preso, meu chapa! E vou continuar cantando por aqui.
Eu não sabia se ria ou chorava. Na dúvida, pensei no Trump e no Lula, pois o caso aconteceu no dia em que o primeiro desfez a maioria das taxas sobre os produtos exportados pelo governo do segundo. A história é conhecida. Trump taxou os produtos brasileiros em uma trama que envolvia o seu chapa Bolsonaro, representado pelo chapinha do filho, nos EUA. Para além de todas as aberturas geopolíticas, a coisa mudou de figura quando os dois se encontraram, e Trump assegurou que havia rolado uma “química” entre eles. Teria sido a partir dela, naquele encontro, que tudo começou a mudar de figura. Para melhor, no caso.
Aí é que está. Não digo que tenha rolado química entre mim e o meu golpista, mas houve algo de uma comunicação pessoal que transcendeu todas as farsas e suas vicissitudes. Ali, entre uma cena e outra, fiquei pensando que só uma relação pessoal como essa poderia ser capaz de nos livrar de nossos caráteres deturpados e de nossa pequenez sem transcendência.
Com muita atenção prática e teórica voltada para os bebês, incluindo os de Gaza e de Israel, penso que a prevenção ainda é o melhor remédio. O melhor dela decorre de bons encontros, onde e quando uma pessoa, através da sua própria pessoa, ajuda a outra a forjar a sua pessoa. Somos frutos de outros, no começo e talvez para sempre. Infelizmente, descontadas as taxas não pagas ou reduzidas, presentes nos dois casos, parece não ter dado tempo para Trump e o golpista terem se tornado uma pessoa melhor.

