Palavra de honra. Quando eu era criança, ela mais ou menos existia e combatia o mal. Está certo que faz tempo. Fui menina no século 20, década de 1970, um período péssimo no país, autoritário, sem democracia e, por tabela, diálogo. Não que hoje se converse muito. As pessoas falam, é verdade, mas pouco escutam em uma espécie de encontro de monólogos ou de egoísmos e de perda, então, de tempo.
“O tempo está em tudo”, Raduan Nassar diz no Lavoura Arcaica, e a favor e a desfavor de tudo, já que ele passa, eu digo, e nenhum dia será de novo do jeito que já foi um dia. Renato Russo cantava a música Como uma onda, em italiano, no disco que minha mãe mais ouvia no fim de sua vida.
Eu gosto da língua italiana e gostava e gosto ainda de cantar, com meu peito de desafinada, as músicas do Renato Russo, ele que gostava de listas e que contribuiu para a reabertura política do país, perguntando, feito o livro do Affonso Romano de Sant’Anna, Que país é este?
Um amontoado de gente, como o Romano de Sant’Anna disse?
Que tipo de adultos fazem o Brasil que mata mulheres, literal e simbolicamente?, eu muito me pergunto, temerosa de que, talvez, a gente já não tenha mais forças para saber.
Eu li, não faz tempo, da Deborah Levy, o Coisas que não quero saber. Eu poderia fazer uma extensa lista das que eu gostaria de ter ignorado se fosse possível para mim, mas, para ter ignorado, eu teria de ter sido uma pessoa de olhos bem fechados. Não fui. Não sou. Nem quero. Apesar de usar óculos, enxergo muito além da ponta do meu nariz. É bem verdade que, algumas vezes, de modo meio desorientado, como nos sonhos.
Eu tenho o sonho da causa própria. A causa própria não deixa de ser uma casa. Meu endereço completo, antes de qualquer geografia, é o meu corpo. Em 1997, quando minha mãe morreu, os corpos desembocavam em cemitérios. Em O Cemitério de Praga, do Umberto Eco, o protagonista é um homem que sofre uma espécie de transtorno dissociativo e maligno de identidade. Está nesse livro a frase que, de vez em quando, corre solta e sem autoria pelas redes sociais: “É necessário um inimigo para dar ao povo uma esperança” e também “É preciso cultivar o ódio como paixão civil”.
Uma parte dos homens brasileiros cultiva o ódio como paixão viril. O grupo de misóginos é muito maior do que se apresenta. Eu poderia abrir uma lista com os que conheço. E ela não seria pequena. E se eu incluísse os homens que se comportam abaixo da crítica e longe da autocrítica, nem se fala. A autocrítica, assim como a palavra de honra, está em extinção, mesmo que, pelos posts, textos e fotografias das redes sociais, os ‘queridos’ passeiem discursos de empatia e de respeito pelas mulheres.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

