Conhecer o passado nos ajuda a entender o presente. Por que o povo gaúcho transforma qualquer disputa numa “peleia”? Por que famílias e amigos se rompem por causa de posições políticas? Não é acaso nem exagero: ao longo de pouco mais de um século, três revoluções rasgaram o Rio Grande do Sul e deixaram cicatrizes que ainda sentimos. Vou resumir essa história para que possamos olhar os conflitos de hoje com mais clareza — e, talvez, com mais compaixão.
A Revolução Farroupilha (1835–1845) é a que mais festejamos, a que virou mito e lenda. Hoje se fala dela como se tivesse sido apenas um movimento separatista, uma ânsia de criar um novo país. A realidade foi mais complexa. Os “farrapos” — liderados por Bento Gonçalves e David Canabarro — representavam um pedaço da sociedade gaúcha: membros do Partido Liberal que reclamavam dos impostos sobre o charque e da pouca autonomia da província. Entre eles havia também vozes abolicionistas e promessas de liberdade para escravos que lutassem ao seu lado. Assim surgiram os “Lanceiros Negros”, um pelotão formado por escravos que em 1844 foi traído pelos seus correligionários e numa emboscada pelo exército imperial levando à morte de mais de 100 lanceiros. Este evento entrou para a história como o Massacre de Porongos. Cabe destacar que nem todo gaúcho era farrapo. Havia partidários do Império de Dom Pedro II; muitos cidadãos de Porto Alegre resistiram aos ataques por mais de dois anos. Em 20 de setembro de 1835, data que se tornou conhecida como “o Dia do Gaúcho”, os farroupilhas tomaram a cidade, que ficou sob seu controle por apenas dez meses. A tomada de Porto Alegre não foi para expulsar o inimigo invasor, foi contra os próprios gaúchos, familiares e amigos que apoiavam o Império. A guerra terminou em 1845 com o Tratado de Poncho Verde: algumas conquistas, o fim imediato do conflito — e a renúncia à ideia de uma república separada.
Cerca de cinquenta anos depois, entre 1893 e 1895, eclodiu a Revolução Federalista. O Brasil já era republicano desde 1889, mas a nova ordem ainda se ajustava com muita violência. De um lado os apoiadores do poder central — os chimangos, com seu lenço branco, alinhados a Júlio de Castilhos; do outro, os maragatos, lenço vermelho, que tinham como seus líderes nomes como Gaspar Martins e o comandante Gumercindo Saraiva, que defendiam maior autonomia dos estados e até o parlamentarismo. A guerra ganhou o apelido cruel de “Revolução da Degola” pela prática brutal de decapitações de prisioneiros. Estima-se que 10.000 pessoas foram mortas em batalhas ou por meio de atos de vingança e banditismo. O percentual de mortos/habitantes é semelhante ao da Segunda Guerra Mundial, considerado o evento mais violento da história. Só em 1895, com a intervenção do presidente Prudente de Moraes, um acordo selou “a paz”, mas as feridas abertas não cicatrizaram, o que levou a nova revolução em 1923.
Em 1923 houve uma reprise amarga dessa guerra civil. O descontentamento com fraudes eleitorais que mantiveram Borges de Medeiros no poder por 25 anos reacendeu antigas divisões. Chimangos contra maragatos de novo — agora, apoiadores de Assis Brasil buscavam descentralização e liberdade política. O saldo foi doloroso novamente: mais de mil mortos durante esse ano. O Tratado de Pedras Altas pôs fim no conflito com promessas de mudanças constitucionais e reformas eleitorais. Terminada a revolução, alguns sobreviventes, dos dois lados do conflito, formaram bandos para saquear propriedades e cometer todo tipo de violência contra homens, mulheres e crianças. Para se defender, os proprietários passaram a se armar e praticar atos de vingança. O ódio das relações políticas se espraiou na sociedade.
O que ilumina esses episódios? Primeiro, que os farrapos e os maragatos tinham propostas progressistas — abolição, parlamentarismo — e, ainda assim, muitos de seus líderes eram ricos fazendeiros. Hoje, talvez fossem chamados de comunistas. Rótulos simplistas como “esquerda” e “direita” não explicam a complexidade da história, nem o passado e nem o presente. Segundo, que a violência política cria heranças psíquicas: rancor, desconfiança, família partida, amizades quebradas. Não é exagero dizer que o ódio organizado tem memória longa.
A história dessas revoluções vive também no cinema e em documentários que valem ser vistos — obras que nos lembram rostos, vozes e escolhas humanas por trás das datas e dos termos militares. Revê-las é um ato de humildade histórica; é permitir que o passado nos fale sem transformar tudo em folclore.
Hoje afirmamos que evoluímos: não degolamos os adversários, a urna eletrônica é confiável — pelo menos para a maior parte. Ainda assim, continuamos a nos cortar por palavras e rótulos. Chamamos alguém “de direita” ou “de esquerda” como se isso bastasse para encerrar uma conversa, quando na verdade deveria ser um começo de diálogo. Precisamos aprender com as feridas das famílias Terra Cambará e Amaral, com o Massacre de Porongos. A decapitação do Gumercindo ou o assassinato do Dr. Bozzano, são exemplos brutais do que acontece quando a política é feita com ódio e vira vingança.
Se não olharmos essas histórias com honestidade e empatia, corremos o risco de repetir os mesmos erros. Guardar memória não é idolatrar a guerra — é reconhecer que atrás de cada conflito houve gente que amava, que sofreu, que perdeu. E aprender isso é o primeiro passo para transformar a disputa em conversa, a peleia em entendimento.
Dica de filmes e documentários que relatam a história e cultura do Rio Grande do Sul:
1) Revolução Farroupilha: “Revolução Farroupilha”, “Um Certo Capitão Rodrigo”, “Paixão de Gaúcho”, “Porongos”, “Anahy de las Misiones”, “Neto Perde sua Alma”, “A Casa das Sete Mulheres” e documentários como “O cerco a Porto Alegre”, “A Ferro e Fogo” e “Lanceiros Negros – Documentário A Noite Mais Fria da Cidade”. O clássico “O Tempo e o Vento” retrata a história do RS e inclui a Revolução Farroupilha.
2) Revolução de 1893-95: “A Cabeça de Gumercindo Saraiva” e “Adão Latorre”.
3) Revolução de 1923: “Os Senhores da Guerra”, “Revolução de 1923/100 Anos” e “A Revolução de 1923”.
4) Outras produções sobre a história e cultura do Rio Grande do Sul: “Perseguição e Cerco a Juvêncio Gutierrez”, “Um Triunfo na América -A Epopeia dos Sete Povos das Missões”, “República Guarani”, “A Missão”, “Missões Jesuíticas – Guerreiros da Fé”, “Sepé, o Guerreiro da Paz”, “Quatrilho”, “Legado Italiano”, “Migranti”, “Caminho de Pedra – Tempo e Memória na Linha Palmeiro”, “Polenta, fé e família: 150 anos da imigração italiana”, “200 anos da Imigração Alemã no Brasil”, “1945”, “Viya”, “Memórias do Sul”, “Noce I Dnie”, “Destino Philippson”, “Terras Promeidas – A herança da Baronesa e do Barão de Hirsch”, “A Palestina Brasileira”, “A Última Estação”, “Jacobina”, “A Paixão de Jacobina”, “Fábulas do Sul”, “Netto e o Domador de Cavalos”, “O sal e o açúcar”, “O Grande Tambor”, “Projeto Gema”, “Caminhos da Religiosidade Afro-Riograndense”, “Ka’Aguy Rupa”, “A casa elétrica”, “Trinta Povos”.
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Foto: AHRS

