Chegada esta época da Semana Santa, pelo menos para algumas pessoas que ainda guardam certo espírito tradicionalmente associado ao Cristianismo, ocorre a ideia do fechamento de um ciclo do tempo (o “fim” do ano, que não é o fim da vida, como no poema de Drummond), à qual se junta uma reflexão sobre o que fizemos ou deixamos de fazer, o mal que praticamos aos outros ou vice-versa e esperamos, intimamente, ser perdoados ou perdoar a quem nos prejudicou. O perdão é aquele gesto que permite a quem nos ofendeu ou humilhou, a possibilidade de que ele – supondo que também seja detentor de um pouquinho de consciência moral – possa recomeçar a sua vida livre do peso que a culpa da ofensa lhe traz. Perdão não existe sem culpa! No entanto, o perdão é uma prerrogativa exclusiva daquele que foi humilhado ou ofendido: ninguém pode perdoar o algoz a não ser a vítima, e com a sua eventual morte, todo perdão é incompleto ou impossível. E aí precisamos esperar simplesmente que a Justiça funcione: mas a Justiça não perdoa, ela absolve ou condena. Às vezes pode até conceder indultos! Mas o perdão é outra coisa.
A ideia cristã de oferecer a outra face quando a oposta foi agredida (Mateus) é o contrário da Lei de Talião e coloca o Cristianismo na linha das filosofias da não violência. Mas o “dar a outra face” não teve fácil aceitação! Dostoievsky achava que Jesus tinha colocado a “barra” ética muito alta, exigindo dos homens ordinários ações que só santos e mártires praticam. Freud (Mal-estar na civilização) achava que o perdão aos inimigos não batia com os impulsos mais profundos de nossa psique (princípio de prazer), em que a eliminação do outro que nos constrange também faz parte de nossos íntimos impulsos. E Nietzsche achava que o perdão aos inimigos não passava de “moral de rebanho”.
Mas é em Heinrich Heine (1797-1856) onde encontro a mais arrasadora das críticas ao perdão cristão aos inimigos: “Sou um homem simples e de ambições modestas. A mim basta uma casinha com algumas árvores na frente, uma escrivaninha, alguns livros; cerveja e manteiga fresca todos os dias, uma cama aquecida. E se Deus quisesse que minha felicidade fosse ainda mais completa, ele pegaria seis ou sete de meus inimigos e os enforcaria naquelas frondosas árvores. Não sem que antes eu os tivesse perdoado, claro. Sim, porque precisamos perdoar aos nossos inimigos. E depois enforcá-los!”.
Vocês não acham, leitores, que apesar de todo nosso “cristianismo”, é isso que gostaríamos exatamente de fazer com alguns de nossos políticos?
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Foto da Capa: Reprodução do YouTube