Semana passada assisti novamente Oppenheimer, está na Netflix. Este filme foi minha coluna de estreia na Sler, em agosto de 2023, na Zona Livre da plataforma. Estou publicando-a novamente, neste espaço, com uma releitura, pois o momento exige – leia coluna da semana passada. Um texto, assim como nós, nunca está pronto, pois novas janelas se abrem pelas vivências incorporadas, sejam de um dia, um ano ou uma década. “Você nunca entra no mesmo rio duas vezes, porque tanto o rio quanto você já mudaram”, cravou o filósofo Heráclito.
Vamos ao filme.
Prometeu roubou o fogo dos deuses e o deu à humanidade. E por isso foi acorrentado a um rochedo e torturado por toda a eternidade.
Christopher Nolan estampa a face do nosso tempo na cena final de seu filme Oppenheimer. É a expressão desolada, em close, no rosto do “pai da bomba atômica” (Cillian Murphy em interpretação épica), ao responder para Albert Einstein (Tom Conti) que, sim, talvez eles, os cientistas, tivessem criado uma bomba que extinguiria o mundo. “Você pode levantar a pedra sem estar preparado para a cobra que será revelada” – o mundo não estava preparado e Oppenheimer se tornou o Prometeu americano. Logo ele, que fora um estudante de física totalmente fora da curva, que VIA os átomos em movimento, as explosões, o universo em todo o seu esplendor. Não fosse assim, jamais teria desvendado o segredo da mecânica quântica: “Bem, este copo, esta bebida, esta bancada, nossos corpos, tudo é basicamente um espaço vazio, grupos de minúsculas ondas de energia interligadas por forças de atração fortes o suficiente para nos convencer de que a matéria é sólida, impedindo que o meu corpo passe através do seu”.
Oito décadas depois temos variantes que disputam com a bomba, pois a questão não é exatamente a de potência devastadora de uma arma nuclear, mas a das decisões humanas.
Oppenheimer até acreditava – ou queria muito acreditar – que a bomba atômica tinha potencial para acabar com as guerras, que sua criação deveria funcionar como um alerta e uma baliza de negociação para a governança mundial. Mas no calor de conquistar a liderança do Projeto Manhattan, ele se deixou seduzir pela ideia de vencer os limites da ciência da época e foi desprezando os riscos. Na aliança com o General Groves (Matt Damon no filme), construiu uma cidade secreta no deserto do Novo México, Los Alamos, e chegou a vestir um uniforme militar. Oppenheimer levou cientistas e técnicos com suas famílias para Los Alamos, que não era apenas onde os nativo-americanos iam para enterrar seus mortos, como descreveu na defesa do local para o seu laboratório. A região já era parcialmente povoada por imigrantes hispânicos, agricultores, que, inclusive, foram requisitados na construção da cidade e mantidos ignorantes quanto ao propósito do Projeto Manhattan – famílias que passaram a sofrer de doenças causadas pela radiação do teste final com a bomba por gerações, e não contam com apoio ou reconhecimento oficial do governo estadunidense.
Em cinco anos de trabalhos em Los Alamos, 1940 a 1945, houve inúmeras ocasiões para frear – ou mesmo abortar – o processo. Nem mesmo o risco de queimar a atmosfera do planeta e extinguir a vida os fez hesitar. Arriscaram tudo ao testar a explosão no deserto às carreiras, antes que fosse tarde demais para usar a bomba. Afinal, a Alemanha já estava derrotada – a Segunda Guerra Mundial encerrada na Europa – e era preciso correr para jogá-la no Japão. A justificativa era a de que o país se negava à rendição, mas certamente colaborava também um desejo de vingança pelo ataque japonês na base naval de Pearl Habor, quatro anos antes. A decisão não foi de Oppenheimer, foi do presidente dos EUA, Harry Truman (Gary Oldman no filme). Mas ele participou, inclusive, da decisão na escolha das cidades, optando por Hiroshima e Nagasaki como destinos.
Quando caiu em si, o horror estava feito e ele sentiu o sangue nas mãos: “Eu me tornei a Morte, o destruidor de mundos.” Começa, então, o périplo de Oppenheimer em defesa do abandono da bomba atômica, que tem o ápice no encontro com o presidente Truman na Casa Branca, que o desdenha e, pelas costas, ainda o classifica como um “bebê chorão”. Seu périplo inútil lhe rendeu, isso sim, um julgamento informal, a portas fechadas, orquestrado pela Comissão de Energia Nuclear, encabeçada por Lewis Strauss (Robert Downey Jr. em brilhante interpretação). Strauss tinha Oppenheimer entalado na garganta por uma humilhação pública e usou de manobras ideológicas – forçando um vínculo do cientista com o comunismo – e morais para afastá-lo do seguimento do programa nuclear dos EUA e destruir sua reputação. Afinal, mesmo o General Groves já o tinha definido como “um diletante, mulherengo, suspeito de comunismo, instável, dramático, egocêntrico e neurótico” quando o recrutou para chefiar o Projeto Manhattan.
Mesmo aliado da União Soviética durante a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos manteve segredo sobre o desenvolvimento da bomba atômica, o que originou a espionagem por cientistas ligados ao projeto. Especialmente Klaus Fuchs (em quem o filme se concentra, interpretado por Christopher Denham), Theodore Hall, David Greenglass e Harry Gold. Nenhum deles teve exatamente uma motivação ideológica. Passaram informações aos soviéticos mais por receio de os EUA manter um monopólio nuclear. De qualquer forma, a corrida armamentista nuclear foi deflagrada e culminou na Guerra Fria, o longo e intenso conflito político, militar, tecnológico, econômico, social e ideológico entre as duas poderosas nações.
Em 2023, ponderei que, com a guerra de Rússia e Ucrânia, assistíamos novamente a uma “Guerra Fria” de EUA e Rússia, pois os norte-americanos sustentam a força bélica da Ucrânia – o governo de Joe Biden tendo fornecido mais de 40 bilhões de dólares a Kiev em apenas um ano desde o início da invasão russa. As justificativas mascaram a disputa pelo poder planetário e, assim, tínhamos os dois países com suas armas atômicas letais engatilhadas, só dependendo de uma decisão irresponsável, insana, como costumam ser as de guerra, para deflagrar um desastre de proporções jamais vistas. Pois estamos em setembro de 2025 e a tragédia desta guerra continua, sob a batuta de Donald Trump.
Mas mesmo que bombas atômicas não sejam detonadas, já temos variantes suficientemente catastróficas no radar, como a urgência climática e o descontrole da Inteligência Artificial. Inúmeros desdobramentos do aquecimento global já podem ser medidos. Os verões escaldantes especialmente na Europa, EUA e China e sua onda de mortes, o iminente colapso das correntes oceânicas que ajustam as temperaturas dos mares do planeta, o que afeta também a distribuição de nutrientes e sedimentos que sustentam toda a biodiversidade marítima, o avanço do plástico no ecossistema, inclusive se aglomerando em formações “rochosas” nas costas marítimas e, pior, já dentro dos corpos vivos, etc., etc. E mais as epidemias que podem resultar em uma nova pandemia, com diversas situações de vírus, desde os transmitidos por animais, os inativos que estão revivendo com o derretimento de geleiras ou os que estão voltando devido à baixa vacinação até os supostamente criados em laboratórios. O avanço das Inteligências Artificiais não fica atrás, pois tem explorações e implicações que ainda não desvendamos claramente e também o potencial de um agravamento da desigualdade social e econômica. As forças do mercado não tendem a desenvolver naturalmente produtos e serviços de IA que absorvam os mais pobres, tanto ao nível de indivíduos como de nações, sendo necessária uma regulação de governança mundial. Se assim não for, toda a ordem de conflitos explodirá, afinal, mesmo em menor grandeza, não são mais só EUA e Rússia que dispõem de armas nucleares e outras ferramentas poderosas de destruição em massa. Voltamos, portanto, à questão das decisões humanas. É disso que se trata, sempre foi. Não é à toa que Christopher Nolan encerra seu filme com o rosto transtornado de Oppenheimer.
Em 2023 eu disse que não queria encerrar o texto sem ponderar que temos o poder de frear esse processo: levamos vantagem em relação a Oppenheimer, pois hoje temos um nível de informação que era inacessível naquela época e permitia desmandos ao poder dominante sem enfrentamentos diretos e imediatos; com a internet, estamos trocando informação o tempo todo e podemos nos organizar e reagir. Isso é o verdadeiro poder. União e força. Hoje, para encerrar o texto nesta releitura, quero ressaltar que a solução já vem se manifestando, límpida, clarividente: CONSCIÊNCIA, em toda a amplitude de seu significado e sentido. Basta decidirmos pelo amor. Por isso, a frase final, que escrevi em 2023, a mantenho, é no que acredito firmemente: Essa é a nossa quinta revolução – depois do fogo, da agricultura, da indústria e do sistema de códigos –, a revolução do amor, a mais séria e definitiva, pois dela depende, inclusive, a nossa sobrevivência enquanto espécie e de nossa condição humana.
Como um presente, para todos nós, deixo aqui o belíssimo poema de Carlos Drummond de Andrade.
AMAR
Que pode uma criatura senão
Entre criaturas, amar?
Amar e esquecer, amar e malamar
Amar, desamar, amar?
Sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso
Sozinho, em rotação universal, senão
Rodar também, e amar?
Amar o que o mar traz à praia
O que ele sepulta, e o que, na brisa marinha
É sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto
O que é entrega ou adoração expectante
E amar o inóspito, o áspero
Um vaso sem flor, um chão de ferro
E o peito inerte, e a rua vista em sonho
E uma ave de rapina
Este o nosso destino: Amar sem conta
Distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas
Doação ilimitada a uma completa ingratidão
E na concha vazia do amor à procura medrosa
Paciente, de mais e mais amor
Amar a nossa falta mesma de amor
E na secura nossa, amar a água implícita
E o beijo tácito, e a sede infinita
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Foto de capa: Divulgação Syncopy Inc.

