Quando menino, era comum Inácio ir passar as férias na casa do seu avô, no sertão dos Inhamuns, no Ceará. A viagem era cercada por uma alegria genuína. Os cuidados das tias, os quitutes da Toinha, a cozinheira, os passeios a cavalo, os banhos de açude na fazenda e as brincadeiras com os primos faziam das suas férias algo mágico. Às vezes a sua mãe ia e às vezes não.
Foi numa noite, sentado na calçada com seu avô, tias e primos, que chegou um senhor de meia-idade e abordou o avô:
– Seu Pedro, estou vindo agora de Bela Cruz, bastante preocupado com seu filho Casemiro. Continuou: – O Sr. sabe que ele anda bebendo e agora deu para dizer que está apaixonado por uma mulher casada, sem guardar segredo. O caso é que o marido dela está ameaçando-o de morte. Temo pela vida do Casemiro, a quem tenho grande estima.
O avô de Inácio já sabia que o filho vinha numa bebedeira desenfreada, mas o visitante acrescentou detalhes. Bela Cruz é um lugarejo distante doze léguas.
Seu Pedro agradeceu e, sempre muito calado, entrou num processo meditativo até decidir o que faria. Daí a pouco pediu que fossem chamar Manuelito, o filho mais novo, que estava jogando sinuca. Quando Manuelito chegou, Seu Pedro passou as orientações que ele deveria seguir:
– Frete o jeep do Adroaldo, chame Celestino e vão pegar Casemiro em Bela Cruz. Vá a um rezador na Paraíba. Ele é conhecido como João das Rezas. Logo que entrar na Paraíba, vá se informando, todo mundo o conhece.
Celestino era o genro que sempre estava pronto para as empreitadas mais difíceis.
O carro encostou na calçada e depois partiu com os três. A noite e a estrada de barro tornaram a viagem demorada. Chegando a Bela Cruz, não foi difícil localizar Casemiro. Estava num bar, sentado numa mesa, arrodeado de pessoas e cantando melodias românticas. Não disseram a que se devia aquela “missão” e Casemiro também não perguntou. Entraram no carro e seguiram viagem para a Paraíba.
Viajaram a noite toda e amanheceram no destino, tempo suficiente para Casemiro se recuperar da embriaguez. Durante o caminho, Casemiro foi informado do motivo da viagem e assentiu que a reza era bem-vinda.
Chegaram à casa de João das Rezas, que ficava por detrás da Igreja do lugarejo, por volta das nove horas da manhã. João das Rezas estava sentado num tamborete, de sandálias e com a camisa aberta. Quando o carro parou, já sabia do que se tratava. Se levantou, foi em direção ao carro e perguntou para que era a reza. Após Manuelito explicar do que se tratava, João das Rezas e Casemiro entraram na casa. Os outros foram se proteger do sol debaixo de um pé de algaroba. Passou uma hora quando João das Rezas saiu na porta com Casemiro, dizendo que o problema havia sido esclarecido e passadas as orientações. Agradeceram ao rezador, entraram no carro e seguiram viagem de volta. Logo que entraram no carro, foram todos perguntando ao Casemiro o que João das Rezas havia dito. Casemiro falou que a bebida era por causa de um pote rachado que estava atrás da porta da cozinha de sua casa.
A volta foi mais rápida do que a ida e assim que o carro encostou na porta da casa de Casemiro em Bela Cruz, saíram os quatro correndo casa adentro para ver se o tal pote existia. Estava lá, ele, o causador de tudo, detrás da porta. Casemiro levantou o pote e viu a rachadura no fundo. Num ímpeto de revolta e raiva, jogou o pote terreiro abaixo, bradando: “Este miserável está acabando comigo! “O pote, ao cair no chão, se espatifou.
Terminada “a missão”, os outros retornaram para casa. Se o pote era o culpado ou não da bebida de Casemiro, até hoje não se sabe. É sabido, porém, que no sertão, por vezes, as pessoas remendavam e reaproveitavam um pote que tivesse uma rachadura e por isso o guardavam. O fato é que Casemiro passou seis meses sem beber, depois retornou à bebida e assim foi por vários anos.
Mais tarde, Inácio passou a estudar medicina, aprendeu que existe um efeito que acontece quando algo que reconhecidamente não é efetivo no tratamento de alguma condição, tem uma ação efetiva. Muitos anos depois, ao saber do final desta história pelo seu tio Manuelito, Inácio pensou como se explicar que o fim de um pote rachado tivesse a ver com a abstinência de seis meses do seu tio. Veio a resposta, o efeito placebo.
José Gerardo Araújo Paiva nasceu em Fortaleza em 1960, filho de mãe paraibana e pai cearense. Médico, formou-se na Faculdade de Medicina do Ceará, concluiu o curso em 1984.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

