A Igreja e o Exército são massas artificiais; isto é, massas sobre as quais atua uma coerção exterior encaminhada a preservá-las da dissolução e a evitar modificações de sua estrutura.
Sigmund Freud, em Psicologia das Massas e Análise do Eu, de 1921.
É duro, mas o ditado cruel de certas infâncias tem algum fundamento: o problema do burro não é ser burro, mas ser teimoso. Sei que é soberbo falar sobre inteligência e burrice. Aliás, parece cada vez mais sensível em épocas de surtos de diagnósticos de altas habilidades e (ab)usos de inteligências artificiais. Por outro lado, lembro do que dizia o roqueiro baiano Raúl Seixas: “Pena não ser burro. Não sofria tanto”. Hoje me agarro nessa dica.
Encontro nesse dito do artista uma pista para certa obstinação obtusa. Que estranho prazer estaria envolvido em, por exemplo, teimar – apesar de todas as evidências plausíveis e acessíveis cognitivamente – em que a terra é plana? Penso ser preciso indagar qual é o conforto envolvido em certas burrices que agora se exibem com pachorra e cafonice. É como disse a ministra, o problema são as “desinteligências naturais”. Agrego que, sobretudo, estas desinteligências mimadas que, por qualquer coisinha, estão dispostas a gastar água do planeta para refrescar IA.
Bem, deixando de lado o meu ranço, observo que o sofrimento nessa teimosia está ligado a certa obstinação conservadora. Mais do que política, neste momento, me refiro à conservação dessa máquina de repetições a que chamamos eu. Desejamos a manutenção de uma condição egóica que não desafie, que não proponha nada novo, que nos deixe no quentinho, deitados eternamente em berço esplêndido.
Freud chamava de Eu-ideal a condição psíquica em que o sujeito está na plenitude subjetiva – his majesty the baby. Quando estamos nessa condição de “sua majestade o bebê”, nosso narcisismo só tolera as mesmices de sempre, aquilo que já sabemos. Nesse estado, a identificação é total ou não é. E os aprendizados e aquisições fatalmente ficarão represados nesse chiqueirinho.
Estamos sempre procurando um líder, um pai, uma mãe soberana. Um alguém que nos pense, nos decida e, urgentemente, nos mantenha no estado de Eu-Ideal; aquilo que imaginamos ter sido um dia para alguém.
Vou seguir este fio na próxima coluna para voltar a dialogar com a epígrafe. Afinal, nossa quase consolidada teocracia brasileira está sempre alternando estes dois poderes: Igreja e Exército.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

