Meu pai se chamava Henrique Gutfreind. Chama-se ainda, dentro de mim, e de quem ainda lembra dele. Quando começaram os cursinhos pré-vestibulares, o pai foi ser professor num deles. De matemática, principalmente, mas também de física. Naquele tempo, ele já fazia engenharia civil e, depois de formado, tornou-se professor de cálculo de concreto armado. Lecionou na UFRGS, onde se aposentou, depois na PUCRS, onde foi contratado para o então nascente curso de arquitetura.
Por mais que tenha construído prédios, em especial no centro da cidade, e algumas casas espalhadas nos arredores, a sua maior realização profissional foi mesmo dar aulas, o que sempre admitiu. O reconhecimento foi decorrência disso. O pai foi escolhido paraninfo muitas vezes e, raramente, não era professor homenageado da turma de formandos. Com bem mais de oitenta anos, dizia que só ia parar quando o parassem. Ninguém queria pará-lo, talvez nem o tempo, mas este, fiel a seu trabalho de encerramento de tudo, não conseguiu fazer diferente.
A objetividade do trabalho do pai como calculista era diluída em sua capacidade (subjetiva) de construir laços. Ele tinha, como disse um Rei, um milhão de amigos. Ainda hoje, quando algum de seus ex-alunos descobre que sou seu filho, costuma se emocionar na minha frente, não raro marejando os olhos. Eu me emociono junto.
Não foi diferente como pai, o que testemunhamos, eu e minha irmã. Um dia, criança ainda, o pai perguntou por que eu estava inquieto, incapaz de me concentrar num tema de casa para o dia seguinte. Respondi que desejava escrever uma novela para a televisão. Tentava, tentava, mas não conseguia. Foi então que aquele pai, matemático e engenheiro, disse que ia me ajudar. Só ajudar — acrescentou, pois me considerava capaz para a difícil tarefa.
Durante muitas noites, numa casa da rua João Abbott, o pai e eu escrevemos a história de João de Barro, um papeleiro resiliente que trabalhava nas redondezas. Embora a novela tivesse só aquele núcleo, não me lembro muito bem de sua trama. Ou lembro, pois ela ia incorporando fatos cotidianos de nossa vida, como o atropelamento do Bob, o cachorro, ou o seu recolhimento pela carrocinha, por estar sem coleira.
A novela nunca prosperou. Perdi de vista o manuscrito feito numa folha dupla de papel almaço com a letra pequena, comandada por aquele coração grande e confiante. Mas acho que estou sendo injusto agora. A novela teve o maior sucesso que poderia. Permitiu que um filho convivesse muitas noites com um pai que confiou em sua escrita. Se não me tornei autor de novelas para a televisão, hoje sou um escritor de crônicas e livros. A literatura é a minha maior paixão, como ensinar era para o meu pai. Eu trabalho duro, mal nasce a manhã, mesmo não sendo bem remunerado para isso. E ainda não perdi a esperança de, escrevendo, realizar-me como o pai, até conseguir fazer um poema à altura da confiança que ele, ensinando, transmitiu a seus alunos e a seus filhos.
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Foto da Capa: Acervo de família.

