Ela resiste. Mesmo com a sentença definida e a morte anunciada, não aceita o desfecho sombrio que insistem em lhe atribuir. Agoniza, é verdade. Ainda assim, há quem acredite na sua recuperação e a alimente com boas ideias. E ela, embora sobreviva com ajuda de aparelhos, recusa-se a partir antes de dizer o que ainda falta, antes de revelar o que permanece oculto nos dias, nas memórias e nas opiniões.
Ela insiste em não morrer porque ainda há quem a escolha como refúgio das notícias diárias e encontre, em suas linhas, uma maneira de compreender o mundo. Esses adeptos de uma leitura leve e, ao mesmo tempo, atenta não se importam em já não encontrar a nossa moribunda nas páginas de um jornal impresso e seguem abrindo links, assinando plataformas e encontrando nela um ponto de partida para novas descobertas. Para esse público mais otimista, ela não desaparece: apenas se adapta às novas tecnologias.
O escritor Julián Fuks já dizia, em 2023, na sua coluna no Uol, que “A crônica não sabe existir neste mundo alucinado que já não alucina” e que “a crônica está quase morta, contam-se os seus dias”. Eu concordo com Fuks quando ele se refere à urgência dos dias de hoje, que impede a possibilidade de aprofundamento dos temas, mas discordo de que, com isso, esse gênero textual deixe de existir. Afinal, quem gosta de ler uma boa crônica não mudará o seu hábito, apenas se adaptará à forma de fazê-lo. Os suportes se transformam, e a crônica se reinventa para acompanhá-los, assim como seus autores. Há quem sustente que, graças ao avanço tecnológico, o acesso até se tornou mais democrático. Hoje, escritos de grande qualidade, como os publicados aqui na Sler, circulam pelo meio digital e chegam a leitores que antes não os alcançariam.
Outra forma de manter bons textos em circulação — e que, ao meu ver, ainda perdurará por muito tempo — são os livros. Reunindo crônicas de um único autor ou seleções que aproximam diferentes vozes, essas publicações continuam encontrando leitores de diferentes idades. Em 2025, tive a honra de integrar uma delas, um projeto que, ao mesmo tempo em que reafirma a força da crônica, tem o objetivo de registrar memórias para as gerações futuras.
Organizada pelos escritores Adeli Sell e Paulo Timm, Crônicas de Porto Alegre convida o leitor a redescobrir a capital pelas vozes de autores que nela nasceram e também de visitantes que se sentem em casa ao andar por suas ruas. São cronistas do passado e do presente revelando a cidade sob múltiplos ângulos, ora destacando suas belezas, ora apontando seus problemas. Juntas, essas perspectivas formam um retrato da cidade, mostrando que, apesar das mudanças, a crônica permanece como uma das maneiras mais sensíveis e precisas de registrar aquilo que sobrevive na memória coletiva.
Mesmo pressionada pelo imediatismo, ela ainda cumpre a função de deter-se no detalhe e revelar o que passa despercebido. Seja no espaço digital, nas páginas de um livro ou nas novas formas de circulação que ainda virão, continuará ocupando o seu espaço. E, enquanto houver livros e plataformas como a Sler, seguirá reunindo vozes e alcançando leitores onde quer que estejam.
Todos os textos de Andréia Schefer estão AQUI.
Foto da Capa: Parque Moacyr Scliar / Porto Alegre - Joel Vargas / PMPA

