Acredito que um dos grandes mistérios que assombra a mente de qualquer ser humano é saber o que se passa pela cabeça de outro ser humano.
Não sou formado em Direito, não tenho a mínima autoridade ou legitimidade para tecer alguma opinião abalizada ou avaliar o voto do Luiz Fux no STF: mais de 400 páginas, certamente, escritas com a assessoria de uma competente equipe de juristas, que acompanha cada um dos juízes do Supremo. Contudo, confesso grande incômodo com o juízo do juiz, vi boa parte pela TV, fato que diminuiu o ritmo da realização de um tanto de tarefas, pois, quase não conseguia desgrudar da tela. A grande questão que me afligia era: o que se passa pela consciência daquele togado ao contradizer sua própria interpretação das leis e das prerrogativas do STF quando condenou mais de 400 pessoas pelos ataques no 08/01? De resto, o voto do magistrado foi diametralmente oposto aos outros quatro árbitros e há um tanto de jurista que já havia se pronunciado sobre a legitimidade do processo e a validade das provas contra os golpistas.
Infelizmente, tenho que me resignar ao fato de que o mistério vai sempre persistir, agravado pelo fato de que, quanto mais distante do sujeito que inquerimos, mais difícil será o desvelar a verdade acerca das possíveis motivações que determinaram sua ação. A comprovação cabal dessa máxima se dá por metodologia inversa: se temos alguma tribulação em entender o que se passa pela cabeça da pessoa que amamos e que dividimos a cama, infinita dificuldade teremos em acertar o que se passa pelo interior da mente de uma pessoa a qual não atribuímos prerrogativas amistosas nem para ser lembrado na lista de destinatário de notícia fúnebre.
Então, resignado à minha ignorância sobre os móbiles subjetivos que habitam o íntimo do iminente juiz, só me resta a esperança de solucionar outro grande enigma que acorre quando tematizamos sobre sua cabeça: a natureza de sua cabeleira. É bem verdade que qualquer pessoa que me lê pode achar que, diante da magnitude histórica do julgamento ocorrido, perante a nossa trágica história de golpes, se ater a uma questão tão comezinha quanto a vaidade capilar de um septuagenário seja um acinte à própria importância democrática nacional do julgamento ocorrido. Mas, alego em minha defesa que, mesmo resignado à incognição da verdade acerca do que se passa internamente pela alma de Fux, aposto (todo levantamento hipotético é uma aposta) que alguma relação deve haver, alguma conexão deve existir entre os pensamentos e a estética dos pelos capilares.
Assim, constatei que, em 1994, quando Juiz eleitoral do Rio, sua cabeleira era bem menor, conforme se estampada na foto publicada pelo O Globo (Ver em Luiz Fux e o combate às fraudes nas eleições de 1994: ‘Só fiz minha obrigação’). É bem verdade que, se comparada com a imagem da posse no STF, o cabelame se grisalhou, provavelmente resultado do impacto da responsabilidade da função, todavia, o que chama a atenção é que o topete, o volume e o formato são os mesmos, atestando um raríssimo fenômeno biológico: o tempo acinzentou o viço dos fios, mas não os rarearam, como o que usualmente ocorre com qualquer corpo humano nascido com próstata.
Portanto, se não entre o entendimento que circula em seu interior, pelo menos, na relação com seu exterior capilar, há alguma coesão no âmbito do crânio do supremo magistrado: a antinomia do seu voto na quarta passada em relação ao seu próprio modo anterior de julgar é compatível com a antinômica evolução do topete e da mata que o envolve.
Creio que a ciência do que efetivamente se passa pelo espírito de outra pessoa será uma esfinge que continuará nos provocando. Também me rendo ao fato de que realmente não é da minha conta se é peruca, ou não é, o conjunto armado de fios que enfeitam a carola do referido árbitro. Contudo, findo o julgamento e diante da magnitude que ele significa, não posso deixar de me regozijar pelo fato de que, dos cinco julgadores, apenas o voto de um se deu tão estranho quanto o caso de um homem ter muito mais cabelos aos 70 anos do que tinha aos 40.
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Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom (Agência Brasil)

