Anos atrás, em jornada de trabalho acadêmico fora do Brasil, estava justamente discutindo com colegas professores de matemática e ciências acerca de competências e habilidades de uns e de outros em contextos da vida cotidiana, como por exemplo mecânica de automóveis, mas tendo em vista especificidades tais como aqueles (em extinção) que cuidavam de fusquinhas em oficinas de chão batido encardido por óleo de motor, com pôsteres de garotas da Playboy pregadas nas paredes, e aqueles com grau técnico ou mesmo superior de engenheiros mecânicos, trabalhando em oficinas de revendas autorizadas ou mesmo nas montadoras de automóveis. Esse introito preparava a pergunta provocadora: “Quem sabe mais mecânica de automóveis – os das oficinas toscas do exemplo, ou os de macacão impecável?” A maioria tendia a não somente votar nestes últimos como, indubitavelmente, aqueles que saberiam mais sobre o assunto em questão, como também aqueles que teriam o direito de cobrar mais caro, e portanto serem melhor remunerados. A interlocução se concluiu com outra pergunta provocativa, de minha parte: num evento de pane automotiva, em noite chuvosa e em local ermo, e havendo esta opção, quem preferencialmente chamar em socorro: um mecânico mais basicão, desses cheirando a óleo de motor, ou um engenheiro mecânico? Ninguém hesitou em optar pela primeira alternativa, que ganhou o apelido carinhoso de “Zé do Volks”. Houve até quem jocosamente dissesse que “o engenheiro saberia explicar direitinho o tamanho da enrascada, mas quem salvaria a noite seria Zé do Volks”… Pois é…
Passemos ao largo da precificação dos serviços nesse mundo real, e vamos ao ponto sugerido pelo título, que tem sido foco de discussões acadêmicas desde Jean Piaget – o famoso biólogo e epistemólogo suíço. Haveria, para ele, um “saber fazer”, no âmbito das competências e habilidades com eficácia comprovada (no sentido de consertar o carro em pane), sem a concomitante explicação sobre esse sucesso, e um “saber dizer”, referente à capacidade de não somente dar conta do problema, mas explicar (conceitualmente) os caminhos que possibilitaram tal sucesso.
Na década de 80 do século passado, tive o privilégio de me formar com os mestres da psicologia cognitiva da UFPE, em Recife, que produziram um livro com impacto que perdura até hoje, o “Na vida dez, na escola zero” (Nunes, Carraher & Schliemann, publicado em 1990, atualmente em sua 15ª edição), a partir da observação da atividade matemática de crianças-comerciantes no centro de Recife, que lidavam com quantias de dinheiro (inclusive com centavos) sem jamais errar ou se deixar engabelar, portanto com nota dez, e em paralelo, eram reprovadas e ejetadas do sistema escolar convencional, com nota zero. Essas crianças sabiam matemática?
Há quem proponha uma hierarquia de formas de conhecimento, com esses saberes práticos na casta inferior e os saberes formais na casta superior. Para tal ponto de vista, os saberes práticos resolvem, mas os saberes formais igualmente resolvem, e adicionalmente explicam – donde seu poder ampliado, sua posição na casta superior. Os saberes formais, como poder-se-ia imaginar, são aqueles transmitidos na escola… Só que, observando-se mais de perto, as coisas não são tão simples assim. Esses conceitos formais, muitas vezes, se revestem de uma definição escolarizada, que uns e outros recitam, mas o conhecimento baseado nesses conceitos não vai muito além da recitação das fórmulas memorizadas. Para Lev Vigotski, um pensador bielorusso hoje largamente em voga no cenário psicoeducacional brasileiro (e alhures), o papel da escola deveria ser mediar a migração dos saberes práticos rumo ao saber formal, e em sentido inverso, a concretização (ou aplicação prática) dos saberes formais. Isso não é tarefa simples no caso da matemática. De fato, uma das finalidades precípuas do ensino escolar é prover os alunos com meios para resolver problemas desse mundo escolar, como, por exemplo, ser um “bom” aluno, devidamente reconhecido como tal. Por ocasião do tsunami que há pouco mais de 20 anos arrasou a região costeira da Tailândia, uma menininha salvou a vida da família ao recorrer à lição recentemente aprendida na escola sobre tsunamis e terremotos (“o recuo do mar como numa maré superbaixa é sinal certo de tsunami”), e que ela, a menininha, conseguiu transpor da sala de aula para a vida extraescolar. Um tópico persistente de debate entre educadores é justamente a dificuldade dos mestres de instrumentalizar essa transposição da escola à vida, e dos discípulos, a dificuldade de constatar que os conhecimentos da escola “servem para alguma coisa” (além de sobreviver à própria escola). Breve parênteses: Paulo Freire (ele, mais uma vez e sempre), esteve atento a esse dilema na famosa proposição do LA-LE-LI-LO-LUTA…
Saber é construir significado para toda e qualquer instância na experiência de estar-no-mundo. Nesse sentido, esta acepção do saber tem interface não somente com as situações de resolução de problemas cognitivos estrito senso, mas com situações outras que põem em risco a sanidade mental. Como é possível para um palestino da Faixa de Gaza “explicar” que a casa que construiu a duras penas foi arrasada pelos bulldozers israelenses em poucos minutos? Saber, muitas vezes, comporta dor, mas também apego, prazer, epistemofilia – Freud nos ensinou isso, outros autores levaram adiante a ideia como força motriz de vida, em termos de uma “relação ao saber”. Se poucos sabem efetivamente explicar, formalizar, inserir dados e conceitos em campos conceituais, “o mais singelo dos obreiros humanos ainda assim ultrapassa a mais sofisticada abelha-operária na elaboração de sua colmeia” – em citação livre de conhecida frase de Karl Marx. Ultrapassa no sentido de que o obreiro é capaz de representar mentalmente sua obra antes, durante e depois. E mesmo se deixar afetar por ela, no sentido acima aludido de uma relação com o saber atravessada por afeto.
Nesse mundo das certificações de conhecimentos e do status a elas associado, a gradação do tanto sabido é inevitável e mesmo naturalizada (com a precificação inevitável desse tanto – seja em termos de “capital humano”, seja em termos de tarifas por serviços e salários por funções no mundo do trabalho). Haverá, em termos de representações sociais, os que sabem mais, os que sabem menos, talvez até os que não sabem rigorosamente nada. Mas que pelo menos se admita, em benefício de uma certa dúvida benfazeja, que numa noite fria e chuvosa de pane mecânica, Zé do Volks é o cara que SABE, é o salvador… Conhecimento, afinal, é informação disponível, em um contexto de demanda e aplicação, e com efetividade para dar conta de uma demanda social concreta. Conhecimento não se restringe ao dinheirinho cognitivo depositado no pequeno banco individual de determinada cabeça (apud Paulo Freire e Lev Vigotski) – conhecimento é fenômeno histórico, social, cultural e psicológico. Mesmo que muitos de nós não saibamos disso.
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