Através da Cortina, romance escrito por Fernanda Mellvee, a minha autora favorita, responde esta pergunta.
Trago hoje uma experiência incrível para leitores que apreciam histórias de viagem no tempo e dilemas existenciais, com protagonismo feminino, uma linda ambientação com traços históricos e um enredo que não te deixa tirar os olhos do livro.
A narrativa conta a história de Melina, uma mulher que gostava muito de escrever histórias e que vive uma crise no seu casamento com Henrique, agravada pela quarentena imposta pela pandemia de 2020. Em meio ao tédio do presente e após se mudar para uma antiga casa numa cidade pequena, ela descobre acidentalmente como voltar no tempo, ao atravessar uma cortina lilás.
Ao explorar pela primeira vez este “novo mundo”, Melina acredita que a cidade onde ela está é cenário para algum filme de época, devido às roupas que as pessoas estão usando, pelo jeito antiquado de falar e pelo ambiente, que parece o de uma cidade cenográfica do início do século passado. Porém, ao se deparar com uma folha de jornal jogada no chão, ela lê: “Beatriz Campos de Castro e Otávio Alcântara casar-se-ão no dia 20 de junho de 1900.”
Melina continua achando que a página pertence a um jornal cenográfico feito para as gravações de um filme. Entretanto, quando ela volta para a sua casa e atravessa a cortina lilás, a luz do abajur revela um papel amarelado e roído por traças, como se fosse muito antigo. O jornal intacto de horas antes, agora, está corroído pelo passar dos anos.
Instigada pela sua imaginação e curiosidade, a protagonista resolve pesquisar na internet e confirma que aquelas roupas e pessoas vistas por ela na tarde daquele mesmo dia se assemelhavam muito às pessoas que viviam em 1900. Embora ela não soubesse como, ela tem a certeza de que voltou no tempo.
Melina sempre escreveu histórias e frequentou diversas oficinas literárias em Porto Alegre, mas, após a vida de casada e a implicância do marido em relação à escrita, abandonou esse hábito. Então, depois de retroceder mais de cem anos, ela decidiu relatar suas aventuras, paixões e descobertas num diário, retomando assim o seu desejo de se tornar escritora. É muito divertido acompanhar essa história e viajar no tempo com a protagonista, porque a ambientação é incrível, como se realmente estivéssemos em 1900. A personalidade de Melina torna tudo mais legal, já que ela é muitas vezes sarcástica ao lidar com as situações em que se encontra. As referências às músicas clássicas, atores e escritoras como a Lara de Lemos, também são muito boas e importantes para a narrativa. Além disso, as cenas engraçadas, como a da louca do crucifixo, são as minhas favoritas.
Com descobertas que fazem Melina compreender o passado e a sua trágica conexão com ele e um fantástico dilema sobre qual época ela realmente pertence, Através da Cortina constrói uma história repleta de possibilidades e reviravoltas. Sou suspeita para falar, já que sou filha da autora, mas Através da Cortina é um dos meus livros favoritos. Recomendo muito a sua leitura e aqui vão alguns trechos do romance: “Sempre me interessei por ruínas, por coisas do passado. Sabe-se lá quanta beleza posso encontrar por aqui.”
“Não é hora para pensar. Afinal por que viajei tantos quilômetros? Fecho meus olhos, como uma criança que receberá um presente. Sinto que o pano descortinará um lugar repleto de preciosidades. Primeiro, o tecido toca meu rosto, depois todo o meu corpo se enleva. Passo pela cortina como um sopro.”
“Pensando em tudo o que havia se sucedido até então, fechei os meus olhos e rezei para que as mesmas forças do universo que haviam alterado a cronologia dos meus dias evitassem a tragédia que se desenhava naquela tarde festiva. Confesso que rezei sem saber a quem e sem esperança alguma.”
“Hoje acordei pensando em escrever, assim como amanheço todos os dias. Quem sabe se eu tentasse novamente um romance? Eu poderia usar todas as técnicas que aprendi nas tantas oficinas literárias de Porto Alegre. Traçar uma linha do tempo, depois, é claro, de preencher fichas com as características físicas e psicológicas dos personagens e de montar um projeto completo com todos os dados da história que eu desejo contar. Ou não. E se eu escrevesse livremente? Se eu apenas jogasse as palavras no papel à medida que a inspiração aparecesse e deixasse a história me guiar?”
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editora https://www.instagram.com/_editoraberserkir/
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Foto da capa: reprodução

