Reza a lenda que a vaidade de um certo rei o levou a adquirir um tecido invisível e desfilar pomposamente entre os seus súditos até que um infante, corajosamente, se pronunciou: “Ouçam! Ouçam o que diz esta criança inocente!” — observou o pai aos quantos o rodeavam. Imediatamente, o povo começou a cochichar entre si. “O rei está nu! O rei está nu!” — começou a gritar o povo. E o rei, ouvindo, fez um trejeito, pois sabia que aquelas palavras eram a expressão da verdade, mas pensou: “O desfile tem que continuar!” (Hans Christian Andersen, 1837). Provavelmente, o nosso Drummond haveria de perguntar: “E agora?” para o seu amigo José.
Como o apocalipse preconizado pelo Raulzito: “O mundo inteiro parou”. Num misto de perplexidade, indignação e até de alívio, acordamos com a notícia do sequestro de Nicolás Maduro pelo Imperador dos Estados Unidos da América. Como a Hidra de Lerna, o mandatário maior vociferou impropérios para o povo venezuelano, fazendo, na sequência, ameaças a outros “hermanos” da tribo de Davi. “Eu não gosto. Essas pessoas são um desastre… São as pessoas mais feias que eu já vi. Eles parecem… Eles têm chapéus que estão todos desfiados e todos eles se parecem”, disse Trump poucos dias após determinar a chacina em Caracas, na qual o presidente foi sequestrado.
Não estou colocando em questão se Maduro é ou não é ditador; o consenso o indica como tal. Acompanho Paulo Freire (2017) na orientação de que devemos “combater o autoritarismo de direita ou de esquerda”. Nós já experimentamos esse nefasto fenômeno e, vez por outra, somos assombrados pelo monstro do neofascismo que veste relevante parte da nossa intolerante direita. Ditadura jamais, nunca mais. Nem aqui, nem ali. Porém, é do povo a prerrogativa de lutar e combater as ditaduras instaladas nos seus países. O Brasil a superou de modo institucional e constitucional. A democracia venceu graças à articulação e mobilização popular que levou à aprovação da Lei das Diretas Já; e, nos recentes episódios de 8 de janeiro, expulsou o monstro neofascista com a força rigorosa de nossa Constituição Cidadã e a vigilância do nosso Supremo Tribunal Federal. Em outros países, regimes de força foram ao chão pela mediação da luta popular. Não há, no direito internacional, amparo para a invasão de um país por outros; ao contrário, a OTAN — Organização do Tratado do Atlântico Norte, uma aliança militar intergovernamental, tem como foco a defesa coletiva dos seus associados: um ataque a um membro é considerado um ataque a todos. Trata-se da defesa mútua, garantindo as convenções e o direito internacional. Fora disso, resta abuso de poder.
Aqueles que entre nós estão a celebrar a invasão, a prisão e o julgamento do presidente fora do seu país e em leis de outra nação bem poderiam considerar o risco que tais atos representam para todo o nosso continente. O filho cassado do ex-presidente condenado bem que tentou nos vender aos EUA. Não conseguiu! Somos uma gente forte, que não teme a luta. Mas isso sozinho não é suficiente. Sozinha, a América Latina inteira, militarmente, nada é para a monstruosa força bélica do insensato Trump. Não fiquemos a vibrar com o canto da sereia. Mantenhamo-nos atentos. Estamos num ano fundamental para o nosso país. Um tempo de extrema importância para o planeta.
Num tempo adjetivado de tantas coisas boas, com tanto avanço tecnológico, com várias novidades alvissareiras… o mundo está em guerra. A terceira guerra já começou! Está espalhada em micropolos, sustentados por micropolíticas e por uma macroeconomia que não cansa de se reinventar. Segundo o Instituto de Pesquisa de Paz de Oslo, atualmente o mundo se depara com mais de 60 conflitos armados em 36 países. Lukács alertou que “não é possível que o homem supere em si mesmo os traços da decadência sem conhecer e compreender as mais profundas estruturas da vida, sem quebrar a casca superficial que, no capitalismo, recobre as ligações mais ocultas e a mais oculta unidade contraditória; aquela casca que a ideologia da decadência mumifica e vende como algo definitivo”.
A saga do “zilionário” mandatário norte-americano é um sinal evidente da cobiça que domina. Guerras em distintos países e em distintas modalidades. Guerras barulhentas e guerras silenciosas. Guerras que destroem com armas letais. Guerras que são silenciosas e matam sorrateiramente. Guerras respaldadas em ideologias e crenças múltiplas. Após o ataque de 11 de setembro de 2001, que destruiu muitas vidas nas torres do World Trade Center e atingiu o Pentágono, o presidente George W. Bush declarou a “Guerra ao Terror” como parte da sua estratégia global de combate ao terrorismo. Em nome desse combate, o mundo viu-se numa guerra sem fim. Em “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de Glauber Rocha, dramatiza a luta messiânica contra o Cangaço. Em nome de Deus, é necessário combater o diabo. O diabo é, algumas vezes, infelizmente, o pobre indefeso que teve a pecha de nascer entre interesses escusos e uma ambição sem limites.
Sim! A nova roupa do Rei é a nudez da sua desenfreada megalomania que o acalenta no monstruoso sonho de ser senhor da vida e da morte dos outros. O ditador republicano que resguarda para si o direito de determinar o futuro dos outros parece bem-vestido nessa nudez esclerosada. Fiquemos atentos e mantenhamo-nos com o pé no chão. Os absurdos estão e vão acontecer. Nós, entretanto, jamais poderemos deixar de combatê-los e gritar bem alto nossa indignação.
Junot Cornélio Matos, cearense de Juazeiro do Norte, é casado, pai de duas filhas e avô da pequena Ara e dos miúdos Cícero e Zui. Tem Licenciatura em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco (1985), Mestrado em Filosofia pela UFPE (1994) e doutorado em Educação pela Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP (1999). É professor do Departamento de Filosofia da UFPE.
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Foto da Capa: Abe McNatt | White House

