
Você vê a taça que ilustra esta coluna?
Não é simplesmente uma taça!
Antes de mais nada, torna a experiência ainda melhor.
É de cristal transparente, alta e elegante, ideal para servir champanhe ou espumante. O corpo da taça é decorado com um delicado desenho em relevo, com motivos de flores, laços e ramos que formam uma espécie de guirlanda, o que traz um charme clássico e refinado à peça.
A haste fina, que liga o bojo à base, é ornamentada com um detalhe arredondado de cristal, situado no meio. Um toque que valoriza ainda mais a sofisticação da taça.
Mas, veja, esse formato alongado, conhecido como flûte, não é apenas bonito: ele valoriza o perlage (as famosas bolinhas que sobem em fila da base até o topo), ajuda a preservar o sabor e o frescor da bebida. Acima de tudo, mantém as borbulhas por mais tempo, o que garante uma experiência completa para os olhos, o nariz e o paladar. Também para os ouvidos, quando fazemos o tim-tim.
Não são sobre essas características que estou me referindo.
Esta semana chegou aqui em Santos o contêiner com os objetos que havíamos deixado em Israel. Nos três metros cúbicos, não trouxemos nada que seja de alto valor financeiro, mas quase tudo possui valor afetivo.
Não foi um serviço simples nem barato: as caixas de papelão, os plásticos bolha, o transporte de Haifa para um depósito em Ashdod, onde ficou armazenado por quase um ano, seguro, transporte marítimo até Santos, armazenagem e desembaraço no porto de Santos e entrega no nosso apartamento custou três vezes mais que o valor financeiro dos pertences que trouxemos.
Nas 36 caixas, muitos utensílios de inox, máquina de costura, multiprocessador, jogo de feijoada, um computador antigo, lençóis, cobertores, algumas roupas, bolsas, álbuns de retrato do casal e das famílias, alguns quadros, a coleção quase inteira da revista “Realidade”, mais de 300 livros, muitos deles com anotações feitas a lápis ou caneta, talheres, pratos, copos e taças, entre elas a que foi mostrada e citada no início do texto.
Falemos então dessa e das outras taças do mesmo jogo. Antes, porém, quero contar uma historinha, que de pequena só tem o tamanho do texto…
Para conseguir criar os três filhos sozinha, minha mãe, Leda Gontow, dava aulas das 7h30 às 12h em um colégio particular. Depois, dava aulas particulares em nosso apartamento ou nas casas dos alunos. Era uma rotina diária e extenuante, que muitas vezes terminava às 21h.
Pagas as contas, o que sobrava – quando sobrava – guardava para uma das suas paixões, que era viajar. Depois que os filhos foram viver sozinhos, mesmo com o dinheiro curto, sempre fez lindas viagens. E cada uma delas, claro, reservava um tempo para comprar presentes para os filhos.
Em Praga, na antiga Tchecoslováquia, enquanto buscava camisetas e guloseimas para comprar para os filhos, se encantou com lindos jogos de taças de cristal. Não eram os mais caros da loja. Estavam longe disso. Mas eram bonitos e o que podia comprar!
“Os chocolates acabarão rapidamente. Mesmo as camisetas costumam ter vida curta. Mas as taças, além de caras, são muito delicadas. Se quebrarem no meio do caminho, chegarei sem presente algum!”
Mas concluiu que valia o risco. “É um presente para toda a vida!”, pensou.
As taças chegaram intactas na sua viagem de volta ao Brasil! E assim permaneceram nas 19 mudanças que fiz de endereço no Brasil e no exterior.
Há pouco, Maria e eu abrimos uma garrafa de espumante. Fizemos um brinde à vida. Éramos só nós dois na sala, mas garanto que todas as pessoas que amamos estavam presentes nesse momento solene.
Caderno de Receitas
Eu já sabia que Maria ficaria emocionada ao folhear o álbum com os retratos da viagem que fizemos em 2017 a Porto Alegre, Canela e Gramado, com sua mãe, que faleceu há um ano. Na época, minha sogra já apresentava sinais de Alzheimer, mas ainda interagia bastante. Foi uma viagem encantadora, a maior parte dela no Natal Luz, que deixou minha sogra – e a todos nós – muito felizes.
Estive ao lado dela no sofá, enquanto Maria olhava e comentava cada fotografia. Depois, saí para ajeitar alguns livros.
Há pouco entrei na sala e vi Maria ainda mais emocionada. Foi lindo de ver. Uma cena para ficar gravada na memória; e na foto que fiz. Maria lia extasiada um caderno de receitas de doces e salgados com receitas escritas a lápis e caneta pela mãe.
Assim como escrevi há pouco sobre as taças, quando fizermos e provarmos as receitas escritas pela minha sogra, a dona Izaltina estará à mesa junto com a gente.
O primeiro jantar…
Não tem relação com o contêiner, mas acredito que essa historinha também cabe na coluna desta semana.
Quando convidei Maria para jantar pela primeira vez em minha casa, fazia um friozinho inesperado para o mês de fevereiro em São Paulo.
Preparei cuidadosamente o cardápio. Faria tapas espanholas e, depois, fecharia com fondue de queijos. Planejei que acenderia a lareira, com pouca lenha, já que o objetivo, mais que esquentar a casa, era deixar o ambiente mais bonito e romântico.
Para tornar tudo ainda mais perfeito, telefonei ou passei e-mails para cinco dos mais importantes críticos de gastronomia de São Paulo e perguntei que tipo de vinho deveria servir. Foram unânimes: vá de vinho branco, que harmoniza com queijo!
Pedi que cada um deles desse três dicas e, claro, fui muito claro quanto aos limites do meu orçamento.
Recebi ao todo nove sugestões de vinhos, já que alguns rótulos se repetiram nas dicas.
No dia do jantar, depois de deixar tudo quase ajeitado, fui até um supermercado na Praça Panamericana, a cerca de 15 minutos de onde eu morava. Não encontrei todos, mas havia seis deles. Olhei os rótulos, os preços, conferi as harmonizações e separei os dois que pareciam ser os mais indicados.
Na hora de pagar, havia uma fila enorme. Comecei a ficar angustiado com o horário. Teria que chegar em casa, colocar o vinho na adega, preparar os tapas, acender a lareira e, ainda, tomar um banho antes da convidada – e que convidada! – chegar!
Finalmente chegou a minha vez. Era minha hora de passar os vinhos, mas hesitei. E pensei, rapidamente. “Poxa. É o primeiro encontro em casa. Tem um jantar, drinques no tapete da sala junto à lareira, os primeiros beijos, talvez a primeira transa. Tudo bem que vinho branco combina com queijo; mas tinto combina com beijo! Pedi desculpas para as pessoas que estavam atrás de mim e disse que voltaria em um minuto. Saí correndo até os vinhos e peguei dois tintos, quase sem olhar. No prazo prometido, já tinha pago a conta e rumava para a minha casa para finalizar os preparos.
Até hoje nem sei os vinhos que comprei. Nem a Maria lembra! O que sei, querida leitora, querido leitor, é que estamos juntos até hoje.
Obviamente, é sempre bom entender de harmonizações, já que o conhecimento pode tornar o consumo de comidas e bebidas ainda mais saboroso.
Mas nada harmoniza tanto e tão bem quanto o amor!
Errata antes de errar…
Eu já tinha terminado a coluna, mas Maria quis fazer a revisão antes do envio para o editor. Não encontrou erros, mas fez um reparo:
– Como assim essa última história não tem relação com o contêiner? As taças dos vinhos que bebemos naquela primeira noite são as mesmas que chegaram agora de navio…
Todos os textos de Airton Gontow estão AQUI.
Foto da Capa: Acervo do Autor.

