Quando comecei a pesquisa para escrever um livro sobre saúde da mulher, há mais de dez anos, fiquei muito chocada com a realidade científica acerca do corpo feminino. Enquanto o corpo do homem é historicamente contemplado em estudos, o nosso corpo foi subapreciado, da sexualidade às doenças cardiovasculares (DCV). Só para citar um exemplo, a anatomia do pênis foi revelada há mais de 200 anos, já a da vulva/clitóris só foi conhecida em 1998, através do trabalho da urologista australiana Helen O’Connell, do Royal Melbourne Hospital, que afirmou existir um puritanismo ainda vivo que inibia os médicos(as) a examinarem profundamente os órgãos sexuais femininos, pois a formação universitária não orientava nesse sentido – e esta é apenas a ponta do iceberg da questão da sexualidade feminina, com seus desdobramentos desde a psicologia até as doenças.
Eu tinha em mente explorar como o estilo de vida das mulheres, profundamente alterado desde a Revolução Industrial, estaria atrelado aos problemas de saúde. Estilo de vida é o conceito amplo de como nos movemos no mundo, o que implica todo o complexo de nossa saúde individual com seus aspectos físicos, mentais, sociais e espirituais. Conversei longa e intensamente com meus médicos e observamos que os dados de doenças cardiovasculares eram os mais alarmantes. E que o problema maior era a defasagem nas pesquisas científicas e a desinformação.
Assim, decidi escrever Mulheres Cérebro Coração (Editora Espírito, 2018), pois todos sabemos que a saúde começa pela prevenção. No caso das DCV em mulheres, a prevenção ganha ainda maior relevância, pois somos mais propensas ao infarto e ao AVC (acidente vascular cerebral) do que os homens, devido à anatomia dos nossos sistemas orgânicos e aos sintomas traiçoeiros, mais difíceis de identificar. Isso está delineado no livro, com as acuradas análises do cardiologista Cézar Roberto Van der Sand e da neurologista Liana Lisboa Fernandez, que me concederam entrevistas exclusivas e colaboraram com todo o meu trabalho. Mas não somente, pois era preciso explorar a questão do estilo de vida e tive a preciosa colaboração, também exclusiva, da psiquiatra Miriam Gomes de Freitas e da ginecologista Kenya Moraes Netto. Além, logicamente, de inúmeros outros profissionais de saúde que entrevistei.
Essa desvantagem em relação aos homens pode ser compensada, porque temos maior abertura ao diálogo e capacidade de mobilização. Isso facilita a adesão aos tratamentos e às medidas que reduzem os fatores de risco. Já está comprovado que a intervenção no estilo de vida para a prevenção primária pode diminuir a incidência de DCV em até 90%, bem como as taxas de mortalidade associadas. A redução da carga de DCV durante os últimos 60 anos figura, inclusive, como um dos maiores sucessos de saúde pública na história. No entanto, essa redução global no risco, bem como o benefício das estratégias cardioprotetoras existentes, foi significativa entre os homens, mas pífia entre as mulheres. E também com diferenças relevantes por status socioeconômico, idade e raça/etnia.
Acontece que, durante décadas, a pesquisa de DCV se concentrou nos homens, levando a uma sub-representação das diferenças de sexo de uma perspectiva etiológica (causas e origens), diagnóstica e terapêutica. Era um tempo em que se acreditava que homens morriam de infarto e AVC (acidente vascular cerebral), não mulheres. Fomos ignoradas nos ensaios clínicos e, portanto, continuavam a faltar dados para decisões precisas. Assim, não desenvolvemos consciência do risco a essas doenças, geralmente evitáveis. O que aconteceu é que as DCV passaram a ser a principal causa de morte de mulheres em grande parte do mundo.
Nos Estados Unidos, em 2011, menos de um em cada cinco médicos reconhecia que morrem, anualmente, mais mulheres do que homens de DCV. Já um enorme contingente de mulheres sequer percebia – e ainda não percebe – que as doenças cardiovasculares são o assassino n° 1. Os estudos em mulheres avançaram* e é surpreendente como se abre o leque de dados relativos a diferenças sexuais. A divulgação das DCV em mulheres, então, começou a aparecer na mídia especializada e também na grande imprensa, mas a conscientização como a principal causa de mortalidade ainda aumenta lentamente.
É importante destacar que uma das maiores conquistas em saúde feminina é a da prevenção do câncer de mama, que, depois de estudos e campanhas, obteve ótimos resultados. Uma vez adquirida a consciência, as mulheres passaram a se prevenir e houve redução de mortes. As mulheres hoje continuam alertas aos tumores ginecológicos, mas desatentas às doenças cardiovasculares – esse é um dos fatores para que a incidência de morte por DCV seja muito superior à do câncer de mama.
É mais do que hora de assumirmos o protagonismo da nossa saúde, abrindo a cabeça para o conhecimento científico e para colaborar com nossos médicos. Saúde é uma questão multifatorial, tudo está interligado, desde as influências familiares que nos marcam profundamente, o relacionamento homem/mulher, os filhos, nossa sexualidade e interações sociais, o estresse e seus mil tentáculos, a felicidade e o equilíbrio, a religião/espiritualidade, o meio ambiente em que vivemos, a necessidade ancestral de manter o corpo em movimento, os hábitos e os desafios da alimentação saudável, com comida de verdade, em uma era de produtos industrializados de baixa qualidade e excesso de calorias e a falta de tempo generalizada.
Nosso cérebro passa ocupado em decisões todos os dias, o que resulta de uma verdadeira guerra de influências e abstrações mentais e de sinais físicos emitidos pelo corpo. A atividade é frenética e tudo depende de informação consciente e intuitiva. Quanto mais nos conhecermos, sempre amorosamente, melhor decidiremos.
*A American Heart Association (AHA), o National Heart, Lung and Blood Institute (NHLBI), e outras organizações nos Estados Unidos vêm encarando o desafio de rastreamento das DCV em mulheres desde 2003, com inúmeras iniciativas e campanhas. Em 2004, a AHA já lançava o portal Go Red for Women para divulgação de informações sobre DCV nas mulheres, prevenção e ações para redução do número de mortes. No Brasil, em 2007, o cardiologista Otavio C.E. Gebara coordenou, junto com os colegas César Eduardo Fernandes e João Sabino de Lima Pinho Neto, um trabalho sobre Prevenção de doenças cardiovasculares em mulheres climatéricas e a influência da terapia de reposição hormonal, com a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e a Associação Brasileira do Climatério (SOBRAC). Em 2009, o Dr. Gebara e seu colega Raul Dias dos Santos, também cardiologista em São Paulo, lançaram o livro Coração de Mulher, com a jornalista Lúcia Helena de Oliveira, que já alertava para o problema. Várias outras iniciativas em congressos no Brasil apresentaram aspectos das DCVs nas mulheres. Em de 2017, a SBC dedicou mais de 20 painéis para a categoria médica “Cardiologia da Mulher” no 72° Congresso Brasileiro de Cardiologia, em São Paulo. E os congressos da SBC agora sempre contemplam as DCV em mulheres, com vários painéis sobre o tema, como os programados para setembro próximo: Risco cardiovascular nas várias fases de vida da mulher e Saúde Cardiometabólica ao Longo do Ciclo de Vida da Mulher, entre outros.
Todos os textos de Vera Moreira estão AQUI.
Foto de capa: montagem com artes de Maura Boucher em matéria da BBC Brasil. O Homem Vitruviano, de Leonardo da Vinci, representou, em 1490, um marco no estudo da anatomia e proporções humanas, com aplicações importantes na área da saúde, como a compreensão da estrutura e função corporal, a importância da harmonia e a relação entre corpo e mente.

