Aqui na costa oeste de Portugal, mais especificamente na região de Mafra, o outono se anuncia tardiamente: o frio chegou, os dias cinzas e molhados também. Escrevo este texto com os pés e as mãos gelados, mesmo de meias e moletom. Nas praças, cheiro de castanha assada no ar. As decorações de Natal — luzinhas, árvores e presépios — já marcam presença nas cidades. Essa semana vi um sujeito com touca de Papai Noel no ônibus: indícios do início do fim de 2025. Trezentos e catorze dias se foram, restam cinquenta e um até que o calendário se reinvente, e eu me pergunto onde estive enquanto tudo isso acontecia. O tempo nos atravessa sem pedir licença.
“Por seres tão inventivo e pareceres contínuo / Tempo, tempo, tempo, tempo… / és um dos deuses mais lindos”, canta Caetano em “Oração ao Tempo”.
Mais uma vez, chegamos a esse emblemático momento: o “fim do ano”. Mais uma vez, me espanto com a passagem do tempo e lembro dessa música. Parece que eu estou em um ritmo diferente daquele das horas, que viram dias, que viram semanas, que viram meses, até que, de repente, viram a totalidade de um ano, e eu fico com a sensação de quem se perde no meio de uma canção: tento reencontrar o tom, mas, quando me dou conta, a música já chegou ao fim.
Claro que isso é uma questão matemática, pois, a cada volta ao sol, um ano significa uma menor porcentagem de nossos dias. Se você tem sete anos de idade, um ano é um sétimo da sua vida. Se você tem trinta e dois, como eu, um ano já é um trinta e dois avos, ou seja, uma fatia muito menor da vida. Cada ano que passa, o próximo parecerá ainda mais breve, pois a nossa percepção muda. Temos mais tempo vivido para comparar. Mais referências. Mais passado pesando nas costas. E menos tempo pela frente.
Mas existe algo além da aritmética nessa viagem: a tecnologia devorou nossa noção de tempo. Penso sobre isso desde pelo menos 2015, quando não existiam 5G, TikTok e IA, e ainda estávamos apenas no começo de nossa simbiose com as máquinas.
Despertamos. Antes mesmo de voltarmos a habitar o próprio corpo, a mão já encontra o celular. Scroll. Uma notícia que não fica na memória. Um vídeo que não importa. Um meme. Mais scroll. Meia hora se esvai. Mais meia hora de quê? De nada que deixe vestígio. O tempo passa em branco. Somos reféns de uma engenharia perfeita, calculada para capturar nossa atenção sem dó. Algoritmos que decifram nossos desejos antes mesmo de os reconhecermos. O próximo vídeo sempre a um toque. A próxima informação sempre provocante o suficiente para não sairmos da tela. Vivemos nesse estado por horas a cada dia: nem inteiros aqui, nem ausentes: uma espécie de limbo digital em que o tempo não se transforma em memória. Ele apenas… se dissipa.
No fim do dia, a pergunta: o que fizemos hoje, mesmo? Trabalhamos, comemos, existimos — tecnicamente. Mas as horas que restaram, para onde foram?
Bronnie Ware, enfermeira australiana especializada em cuidados paliativos, catalogou os mais recorrentes arrependimentos das pessoas prestes a morrer, em seu livro “Antes de Partir: os 5 Principais Arrependimentos”: não ter vivido a própria vida, mas a que os outros esperavam; ter trabalhado demais; não ter expressado o que sentia; ter perdido amigos pelo caminho; não ter se permitido ser feliz.
O livro é de 2011. Tenho a impressão de que já existe um sexto arrependimento pairando no ar, prestes a se tornar o mais comum: ter perdido tanto tempo nas telas.
O mais absurdo do conceito absurdo da morte é que não sabemos quando, nem como virá, mas temos certeza absoluta de que sim, ela virá. Então não se trata de segurar o tempo, de controlá-lo. Impossível. Trata-se de estar presente quando ele passa. De senti-lo passar. De permitir que vire memória, não lacuna.
Porque, no nosso fim, não importará quantos anos vivemos. Importará o que lembramos de ter vivido.
E, para lembrar, é preciso ter estado lá. Por inteiro.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

