Sempre que vejo essas listas de “10 mais” músicas, bandas e tais, me lembro de como o som sempre foi mais importante para mim. Isso que gosto de música, adoro, até; toco em bandas desde 1990 e shows são meus programas favoritos. Mas o som vem antes. O ruído, barulho, estalo, farfalho. Não há nada mais estimulante que a vida real e quanto mais procuramos ou precisamos de algo para sentir, mais distantes estamos de onde queremos chegar.
Dos sons, em algum momento, escolhi o riso como preferido. Talvez um apego corporativo à humanidade ou uma gota de esperança de que nós temos salvação. Aquele riso sincero, que faz barulho estranho, engasga, soluça. Espontâneo, não bonito. Dos risos, o das crianças, que me fazem lacrimejar de felicidade. À toa, na rua, esse som me comove mais que qualquer criação sonora, humana ou não.
A vida nos apresenta muitos momentos de ouvir. Caminhando, no ônibus, no carro, na “acadimía”, meditando, trabalhando, e por aí vai. Em todos esses momentos, ouço os sons, não música ou falas gravadas. A última vez que usei fones com alguma frequência foi quando pedalava minha BMX ouvindo meu walkman, nos anos 80. Depois, o mundo começou a ser um lugar melhor para eu estar. Acho que os instintos afloram quando estamos abertos, aceitando a surpresa. É bem mais confortável saber a próxima nota ou letra do que o ruído que o mundo vai fazer, na urbanidade ou na natureza.
E viver os sons do mundo não é não olhar para dentro. Somos domesticados a essa ideia de isolamento. Ao contrário, faz com que estejamos sempre conosco, independente da indução a que nos impomos. Quem busca, se afasta. Entender que não dominamos o mundo e seus barulhos é essencial. Deixar tudo como nós “precisamos”, pelos motivos que forem, é criar dificuldade no caminho… e condicionar o mundo aos nossos egoísmos não parece estar dando muito certo.
(O ar-condicionado é outro exemplo, mas aí é outra abordagem, voltemos ao som)
Na natureza é mais fácil prestar atenção: o som do mar, folhas, chuva, vento, pássaros. Quão poucos são os que não “amam” esses barulhos? Barulhos que, talvez, deram origem à música, numa busca de imitação. Essa interação com a beleza natural me parece parte da relação íntima dos animais (sim, somos) com o ecossistema do planeta. Esses estímulos nos envolvem, movem e comovem, em um movimento de reconexão. Acho que deveríamos aproveitar mais esse relacionamento com as ondas sonoras, indo além da natureza, fortalecendo esses vínculos com os sons que produzimos e nos cercamos.
O riso, junto com o gemido, talvez seja a “voz” mais sincera que temos, que emitimos impulsivamente. Enquanto escrevo, achei mais um motivo para gostar desse som. E o que me diverte é que, durante a prática de ouvir o mundo, aprendemos a buscar o ruído que nos atrai. Ouço um riso no meio dos motores, a alegria no meio da gritaria.
Entendo que as relações de cada pessoa com o som sejam bem particulares e causam situações incontroláveis. A pessoa surda não pode ter a mesma experiência que eu, mas tem uma própria, pelas ondas. Essa sensação também deve mudar quando se sente uma música ou a natureza.
O que todos podemos é rir mais. Eu, ao menos, terei mais pitadas de alegria no dia. Estarmos despertos para o que nos cerca faz muita diferença no pequeno detalhe, aquele único capaz de mudar o mundo e nossa relação com ele.Ter ciência de que estamos no meio e não nas pontas, que somo parte desses lugares que vivemos e nos colocamos. Atentem aos sons do mundo, eles que têm impacto verdadeiro na alma.
André Furtado é, por origem, jornalista; por prática, comunicador, de várias formas e meios. Na vida, curioso; nos Irmãos Rocha!, guitarrista. No POA Inquieta, articulador do Spin Música.
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