A física quântica nos prova que o ato de observar altera aquilo que é observado. Uma partícula se comporta de maneira diferente quando há alguém olhando, literalmente. É como o gato de Schrödinger — não sabemos se está vivo ou morto até que alguém abra a caixa: só o ato de olhar colapsa as possibilidades e define seu estado. Antes disso, ele existe em todas as versões ao mesmo tempo — e aqui está o pulo do gato (perdão pelo trocadilho): o observador cria a realidade, não apenas a registra.
O que venho me questionando nos últimos tempos é: será que nós hoje também só existimos pelo olhar do outro?
Deixando a complexidade da física quântica de lado e entrando em uma esfera mais mundana, noto que a questão do existir pelo olhar do outro se traduz no âmbito profissional pelo que podemos chamar de sucesso performático. Explico: parece que, nos últimos anos, o sucesso precisa de plateia para existir. Além de conquistar, temos que anunciar a conquista. Além de criar, é preciso documentar o processo, compartilhar os bastidores, provar que estamos trabalhando, aparecer “espontaneamente” em um vídeo com a luz perfeita. A vitória silenciosa virou sinônimo de… fracasso. Se você não postou, não performou, será que foi real?
O que mais vejo por aí são pessoas que levaram o fake it till you make it a sério demais nas redes sociais: criativos que inventam clientes imaginários e mostram o atendimento como se fosse verdade, artistas que filmam quadros sendo pintados como se tivessem sido encomendados (não foram), fotógrafos que alugam estúdios chiques só para fazer vídeos “trabalhando”, profissionais de grandes empresas fabricando situações ímpares para viralizar no LinkedIn. E, claro, o exemplo clássico dos gurus que ficam ricos vendendo cursos sobre como vender cursos. Essas pessoas, curiosamente, são tratadas com admiração, como se fossem excelentes profissionais, mesmo sendo, na maioria das vezes, somente o resultado de investimento em marketing e um pouco de sorte.
O sucesso sempre foi, em alguma medida, uma construção social: precisamos do outro para validar o que conquistamos. Mas antigamente esse reconhecimento vinha depois. Fazia-se, e então, talvez, alguém aplaudia. Hoje mostra-se o que está fazendo e torce-se para que a performance seja suficiente. Houve uma inversão no processo: a forma virou o conteúdo; não basta estarmos exaustos em uma sociedade em que burnout e ansiedade viraram o padrão do estado mental da maior parte das pessoas, ainda temos que gastar tempo e energia nos tornando visíveis nas redes. Cansativo demais.
Muitos perderam a capacidade de viver para si mesmos, se tornaram reféns do olhar externo, incapazes de encontrar sentido fora da aprovação alheia, como se tivessem desaprendido a acreditar em algo que não seja validado publicamente. Se ninguém curtiu meu vídeo, será que sou uma fracassada? Se ninguém comentou no meu Substack, será que tudo que eu escrevo é uma porcaria?
Conheço colegas talentosos que não publicam livros porque “ninguém vai ler”. Artistas visuais que desistem porque ninguém dá a mínima importância para seus posts. Pequenos empreendedores que encerram seus negócios por ter pouca visibilidade nas redes. E, por outro lado, conheço perfis impecáveis com milhares de seguidores que escondem carreiras vazias, gente que vive performando sucesso até que as pessoas acreditem e comprem suas ideias — ou produtos.
O mais distópico é que ambos estão presos na mesma armadilha. Nenhum dos dois existe de verdade, nenhum dos dois habita o próprio sucesso… real ou imaginário. Mas, nesse cenário, me pergunto: qual será o sucesso real e qual será o imaginário?
Conseguimos ainda acreditar em algo que acontece 100% fora das redes sociais? Valorizar o trabalho que ninguém vê? A conquista que não vira textão? Ter destaque profissional sem ter que fazer uma série de vídeos virais? Não me espanta (apesar de causar desespero) saber que a maior parte das nossas crianças sonha em ser youtuber/influenciador… O sucesso digital parece ter se tornado mais importante do que a própria vida — aquela que acontece fora das telas.
Voltando à analogia da física quântica: o problema é quando deixamos de existir na ausência do observador. Quando nossa vida só se transforma em algo real se houver alguém para aplaudir. Nós escolhemos ficar presos nesse estado de indefinição, existindo e não existindo ao mesmo tempo, esperando que alguém nos observe para finalmente sermos “reais”. Me parece mais sensato escolhermos nos concentrar na vida que acontece mesmo quando ninguém está olhando. Principalmente quando ninguém está olhando.
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Foto da Capa: Freepik

