Horkheimer aponta para uma hipocrisia característica da modernidade: sujeitos que discursam em torno de conteúdos próprios da razão objetiva, mas que, na prática, reproduzem e legitimam os conteúdos da razão instrumental. Trata-se de uma duplicidade que revela não apenas um empobrecimento do pensamento, mas a prevalência de uma racionalidade funcional, voltada a meios e resultados, em detrimento de uma reflexão sobre os fins.
Essa inversão dos propósitos da razão amplia o fenômeno que Marcuse denominará de unidimensionalidade — um modo de existência em que a sublimação do sujeito se restringe ao mercado e às esferas que orbitam sua lógica. Tudo se converte em mercadoria: o trabalho, o tempo, os afetos e o próprio sujeito. Assim, nas redes sociais, o indivíduo se expõe como quem se coloca em uma vitrine, em busca de reconhecimento e prestígio.
Nessa vitrine digital, cada elemento é cuidadosamente calculado: o ângulo, a luz, a postura, o filtro. As chamadas “fórmulas de sucesso” tornam-se modelos replicáveis, generalizados e formalizados — e, por isso, esvaziados de reflexão. Raramente se questiona o fundamento dessas práticas, pois sua orientação se encontra determinada por critérios de autoconservação e desempenho.
Diante desse quadro, cabe indagar: quais são, afinal, os fins de nossas ações?
Para além da lógica mercantil e da necessidade de autopreservação, qual seria sua utilidade ontológica? Que trabalho socialmente necessário está sendo executado quando nos engajamos em performances digitais de autopromoção?
As respostas que emergem, sintomaticamente, refletem o predomínio da razão instrumental. A finalidade de cada ato é reduzida ao âmbito do interesse individual: “Isso serve para mim”; “Serve para eu ganhar mais dinheiro”; “Serve para que me admirem”; “Serve para que eu seja prestigiado”. O resultado é uma subjetividade moldada segundo as exigências do sistema capitalista, que centraliza o mercado como eixo estruturante da vida social.
Entretanto, a dominação instrumental não apenas racionaliza o comportamento, mas também reativa aspectos infantis do psiquismo — particularmente o desejo de ser amado. Nas redes, essa necessidade manifesta-se por meio da busca incessante por aprovação e prestígio, baseada apenas nas partes “boas” que o sujeito escolhe exibir. Tudo é filtrado, editado e direcionado a causar impressão.
Com isso, as relações estabelecidas nas redes tornam-se parciais. Se, no mundo concreto, as relações humanas oscilam entre parcialidade e totalidade (integração) — conforme a teoria kleiniana, que descreve o processo de integração do objeto amado e odiado —, no espaço virtual essa integração se torna impossível. O sujeito se relaciona apenas com o fragmento que o outro decide mostrar, exercendo um controle minucioso sobre a percepção alheia. A consequência é a dissolução da experiência de alteridade: não há encontro com o outro real, nem com o mundo real.
Esse cenário produz múltiplas problemáticas. A mais evidente é o aprofundamento da alienação, que se manifesta como desconhecimento de si, do outro e das condições objetivas da própria existência. O indivíduo, reduzido à sua performance, perde o vínculo com a totalidade social que o constitui.
Assim, intensifica-se o que Marcuse denomina princípio de desempenho, segundo o qual o valor do sujeito é medido por sua produtividade, consumo e capacidade de adaptação às exigências do sistema capitalista a partir da mais-repressão. A vida, então, deixa de ser expressão de liberdade ou realização e converte-se em mera estratégia de sobrevivência dentro de uma lógica que transforma tudo — inclusive a subjetividade — em mercadoria.
Em última instância, a análise revela que a racionalidade moderna, ao se tornar instrumental, compromete a própria possibilidade de emancipação humana. A razão, que outrora poderia orientar a vida segundo fins éticos e coletivos, converte-se em instrumento de dominação e autoconservação, reforçando uma subjetividade voltada ao desempenho e à aparência. Nas redes sociais, essa lógica atinge seu ápice: a identidade torna-se produto, o outro transforma-se em público e o reconhecimento em mercadoria. Retomar a dimensão crítica da razão — aquela capaz de refletir sobre os fins e não apenas sobre os meios — é, portanto, condição necessária para resgatar o sentido de humanidade em meio à alienação generalizada que caracteriza o presente.
Ralf Diego Silva de Souza é psicólogo e professor universitário. Atualmente, é mestrando em Saúde Coletiva pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e possui especialização em Psicologia Hospitalar pela ESUDA. Dedica-se ao estudo aprofundado de temáticas concernentes à Psicanálise Kleiniana, Marxismo, Teoria Crítica e Escola de Frankfurt. ralfsouzapsi@gmail.com
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