Será que as pessoas se tornam mais conservadoras à medida que envelhecem? Uma hipótese é que a vida pode ser dividida em três fases de cerca de 30 anos cada. Até os 30 anos, vive-se a juventude repleta de inquietude e do desejo de mudar o mundo. Entre os 30 e os 60 anos, a maturidade se instala, trazendo maior tolerância, gentileza e estabilidade emocional. Depois dos 60, com a chegada da velhice, há quem defenda que as pessoas se tornam mais conservadoras. Essa é uma explicação de alguns sociólogos, embora existam vozes discordantes.
Ao observar a trajetória de diversas personalidades, nota-se que, na terceira fase da vida, muitos revisaram radicalmente seus ideais e valores. Veja alguns exemplos:
- Lobão: Roqueiro conhecido por sua postura rebelde e por ter integrado a banda Blitz, ele publicou em 2010 uma autobiografia na qual criticava a música brasileira, atacava amigos, denunciava a esquerda e se aproximava do conservadorismo. Em 2015, chegou a afirmar que “todo roqueiro é um conservador.”
- Baby Consuelo / Baby do Brasil: Proveniente de uma família de classe média alta, enfrentou os pais na adolescência e fugiu de casa aos 17 anos. Iniciou uma carreira de sucesso com os Novos Baianos, casou-se com Pepeu Gomes e alcançou fama internacional, marcando sua juventude com rebeldia. No fim dos anos 90, tornou-se evangélica e, nos anos 2000, passou a dedicar-se à música gospel. Em 2017, encerrou um relacionamento com o ex-jogador Casagrande, alegando que não desejava relações sexuais antes do casamento. Em 2025, durante o culto “Frequência com Deus”, pediu que as vítimas perdoassem seus abusadores, inclusive se forem membros da família.
- Amado Batista: Vítima de tortura durante a ditadura militar brasileira – quando, segundo ele, passou um mês sendo torturado por trabalhar em uma livraria que permitia a leitura de livros proibidos –, recentemente afirmou que prefere o regime militar à “anarquia” atual e manifestou apoio a Jair Bolsonaro.
- Ferreira Gullar: Poeta que emocionou uma geração com versos marcantes e frases como “a arte existe porque a vida não basta”, Gullar militou politicamente em defesa da cultura popular. Integrante do PCB, foi preso em 1968 e posteriormente exilado na Argentina, Chile e URSS. Pouco antes de falecer, aos 86 anos, em entrevista comentou que “a natureza é injusta” – um nasce burro e outro inteligente – e afirmou que o capitalismo surgiu do instinto humano, o que o torna invencível.
O que, então, leva uma pessoa a mudar? Seria decepção, amadurecimento ou medo da morte? De acordo com o sociólogo e gerontólogo Nicholas Danigelis, da Universidade de Vermont (EUA), o comportamento dos idosos está muito mais relacionado às experiências vividas do que à idade em si. Em 2007, em um artigo na American Sociological Review – baseado em pesquisas realizadas entre 1972 e 2004 –, Danigelis constatou que as pessoas se tornam mais tolerantes após os 60 anos, inclusive aquelas que eram consideradas conservadoras na meia-idade. Um entrevistado resumiu essa transformação dizendo: “Eu costumava pensar que estava sempre certo, mas agora que tenho 80 anos, não tenho tanta certeza disso.”
Pessoalmente, acredito que “não existe velho chato, existe chato que envelhece”. Assim, questiono a ideia de que o envelhecimento necessariamente leva ao conservadorismo. Poderíamos, por exemplo, citar Oscar Niemeyer, que manteve seus ideais até morrer aos 104 anos; Nelson Mandela, o líder sul-africano que, após 27 anos de prisão, foi eleito presidente e manteve seus princípios até falecer aos 95 anos; e, ainda, Pepe Mujica, que lutou contra a ditadura militar uruguaia, passou 14 anos na prisão, presidiu o Uruguai entre 2010 e 2015 e hoje, com 89 anos, continua vivendo de maneira simples e fiel aos seus ideais. Essas personalidades me fazem lembrar do poema de Bertolt Brecht:
“Há homens que lutam por um dia e são bons. Há outros que lutam por um ano e são melhores. Há aqueles que lutam por muitos anos e são muito bons. Mas há aqueles que lutam a vida inteira: esses são os indispensáveis.”
Talvez Niemeyer, Mandela, Mujica e tantos outros sejam justamente esses indispensáveis, inspirando quem deseja envelhecer sem abrir mão dos seus valores.
Referências:
– Do People Become More Conservative as They Age? Jan, 19, 2012.
– Population Aging, Intracohort Aging, and Sociopolitical Attitudes. Nicholas L. Danigelis, Melissa Hardy, and Stephen J. Cutler. View all authors and affiliations. Volume 72, Issue 5.
– Os Sonhos de Pepe – documentário, 2024. Disponível no Telecine Cult.
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Foto da Capa: Gerada por IA