O último colo que damos aos nossos filhos não é anotado nem fotografado, porque nunca sabemos quando acontecerá. De repente, um dia você tenta e o peso, o momento, a circunstância simplesmente fazem perceber que aquele corpo não comporta mais colo. Ao menos não em pé, aquele colo emblemático. Colo de mãe.
Eu vivi o último colo que dei à minha filha da mesma forma como tantos outros dados em seus primeiros anos de infância. Só fui me dar conta de que ele já tinha passado quando, recentemente, fui tentar pegá-la no colo e não consegui. Então pensei que o último já tinha passado e eu não o vivi como tal. Não percebi que ele estava quase acabando. Lógico que esse fim não acontece de uma hora para outra. Lógico também ser possível perceber quando seus corpos, os dos filhos, que saem de nós, mas precisam romper conosco, começam a despontar e ficarem grandes, começam a ocupar mais espaço. Lembro quando, numa noite, olhei minha filha dormir em sua cama e, percorrendo aquele corpo, vi que ele demorou mais a terminar do que antes. Um corpo ocupando uma cama inteira.
A vida passa rápido e crianças são um marcador de tempo perturbador, porque suas mudanças físicas escancaram a velocidade dessa engrenagem de uma forma muito mais inevitável e inegável do que qualquer calendário.
Eu tenho dificuldade em lidar com o tempo das coisas, sou meio teimosa. Talvez o fato de ser psicanalista (não) me ajude, já que trabalho com uma outra lógica de tempo, que não é cronológica e muito menos linear. Memória, tempo e lembrança são forças que se misturam, se enganam e ludibriam. Da mesma forma, ou quase, inúmeros filmes e documentários abordam essa questão, alguns afirmam que o tempo não existe, a física quântica está aí para falar muito melhor disso do que eu. Mas nos agarramos a horas, datas e prazos para tornar nossas existências algo mais palatável. Os filhos seguem crescendo e os adultos, com sorte, mas não sem esforço, aumentando sua espessura e envergadura emocional.
Não tenho conseguido “gerenciar” o tempo. Que termo interessante vendido por coaches. Vendendo a ideia de eu aprender a ser gerente do meu tempo. Como, se ele me escapa? Como, se ele não existe? Como, se uma boa companhia faz um bom momento parecer um segundo, enquanto alguns momentos de dor intensa parecem uma eternidade?
Ainda assim, precisamos de agenda. A vida em sociedade requer acordos e formas de funcionar. Reuniões agendadas pelas plataformas on-line têm hora de início e de encerramento. O colo para um filho, não. Mas, ainda assim, tal qual as reuniões chatas das quais participamos, acaba. E passa rápido. Ontem, dirigindo na volta para casa, fiquei atrás de um veículo irritantemente lento, trafegando pela faixa da esquerda, e me incomodei. O ultrapassei, mas depois fiquei pensando: “E se for um casal apaixonado em que o ou a motorista está deixando a outra pessoa em casa e quer ir bem devagar para que aqueles últimos instantes juntos não acabem?”
O tempo é uma ilusão, sabemos. Mas pode ser uma brincadeira muito interessante se entendermos que não o gerenciamos. Pautamos nossas vidas e prioridades tentando fazer o que amamos e o que precisamos em proporções toleráveis para que essa loucura toda valha a pena. Meu prazo para entregar esse texto já está acabando. Minha filha cresceu. Meu colo nunca vai estar vazio.
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