Eu nasci em 1966, ano conturbado no campo da política nacional. Marcado pela chegada ao poder do Marechal do Exército Artur da Costa e Silva, caracterizando a segunda eleição indireta para a Presidência da República, o ano traria ainda a promulgação do Ato Institucional nº 3, que instituía eleições indiretas também para os cargos de governador e prefeito. Era a consolidação do fim da democracia, retirando do povo o direito ao voto e firmando a Ditadura Militar no Brasil, após o golpe que derrubara João Goulart – mais conhecido como Jango – dois anos antes.
Dessa forma, vivi minha infância e adolescência sob a égide de um governo ditatorial, em que o silêncio e o medo eram condições impostas de sobrevivência. Vivia-se uma espécie de ideologia do “Brasil: ame-o ou deixe-o”. O slogan utilizado pelos militares servia para deslegitimar a ação de opositores ao regime autoritário e bárbaro, exigindo lealdade ou abandono do território nacional. E foi nesse ambiente de subjugação que fui obrigado a estudar em escolas públicas dirigidas pela conivente Igreja Católica. Numa delas, fui, inclusive, ameaçado de expulsão caso não fizesse a primeira comunhão – sacramento religioso que, apesar de não obrigatório, era apoiado pelos governantes da época. Vivenciei, assim, um período de hipocrisias, corrupções e violências que tinha como marketing: “Deus, Pátria e Família”. Algo comum aos dias atuais?
E não é preciso grande capacidade cognitiva para entender que, quando se falava em respeito à divindade, este era exclusivo à propagada pelo catolicismo: um deus a quem se deveria temer e obedecer cegamente. A referência à família era idealizada e tendenciosa, exaltando o modelo nuclear burguês, de formatação heteronormativa, pautada no grupo social composto por pai, mãe e filhos. O que fugia ou contrariava o modelo de hegemonia da elite branca deveria ser combatido, perseguido e marginalizado. Por fim, a noção de Pátria empregada era a da terra natal à qual se ofereceria, de maneira espontânea ou não, a própria vida em sua defesa.
Meus dois anos de idade coincidem com a instauração do temido Ato Institucional nº 5, pelo qual o Marechal Costa e Silva ampliaria o poder das Forças Armadas. Reconhecido historicamente como o instrumento mais opressor e perigoso do período, o AI-5 instituiu a suspensão do direito ao habeas corpus, possibilitando prisões arbitrárias e o exílio de opositores; intensificou a perseguição, as cassações, as torturas e a suspensão de mandatos de políticos [lembrem-se de Rubens Paiva – cassado em 1964, exilado e, após o retorno ao Brasil, preso e assassinado em 1971]; ampliou a censura e a perseguição aos meios de comunicação; e criou os tribunais militares especiais. O período da “linha dura” buscou silenciar o país, banindo por longo tempo a liberdade de expressão. Eram tempos de medo. Muito medo! Tempos em que pessoas desapareciam misteriosamente, sem deixar rastros; cidadãos comuns eram torturados para confessar até o que não sabiam; e em que o risco iminente de morte batia à porta frequentemente.
Eram também tempos de fome, de miséria, da falta de acesso e da precariedade na saúde pública. Época em que se padecia ou morria de caxumba, catapora, meningite, sarampo, coqueluche, raiva, doença de Chagas e desnutrição. A paralisia infantil era comum e uma lástima para os mais pobres. Saúde bucal era sinônimo de extração dos dentes. Sim, o Brasil já foi “o país dos banguelas”. Imperava o silêncio cada vez mais opressor, anulando a criatividade e o pensamento livre através de uma educação tendenciosa e ultrajante, que ainda assim era limitada a poucos.
Lembro que, certa vez, fui colocado em pé, em fila, junto a todos os demais estudantes do “Primário” [equivalente da época ao Fundamental I], à espera de quem não sabíamos quem era, mas que deveríamos temer em silêncio pavoroso. Sob o sol escaldante, esperamos mais de cinco horas pela visita do Ministro da Educação, que dava nome à escola que mais parecia um presídio. E, em pé, exaustos e com fome, fomos obrigados a aplaudir o carrancudo sujeito em sinal de obediência e de boa formação cidadã e cristã.
Naqueles tempos, ensinava-se nas salas de aula que o Brasil havia sido descoberto pelos portugueses após uma grande tempestade a caminho das Índias; que Dom Pedro I era um herói; que a princesa Isabel era nobre e boazinha; que o brasileiro era preguiçoso; que o Brasil era um país subdesenvolvido; e que Tiradentes merecera ser enforcado e esquartejado por ter traído a pátria. Éramos obrigados a estudar e decorar os dogmas do catolicismo e tínhamos disciplinas de Educação Moral e Cívica (Fundamental II), Organização Social e Política Brasileira (O.S.P.B., no Ensino Médio) e Estudos de Problemas Brasileiros (E.P.B., na graduação, acessível apenas aos ricos), todas pautadas em tendenciosidades políticas e em caráter ficcional. Será por isso que nossos estudantes hoje têm ojeriza a disciplinas como Filosofia, Sociologia, Antropologia e afins?
Também nos eram oferecidas disciplinas voltadas à inserção no mercado de trabalho (foco da educação ainda hoje). A escolha, a identificação ou a “aptidão” para as áreas de atuação eram desconsideradas, e os destinos dos pobres impostos: prendas domésticas para meninas e mocinhas, que deveriam se tornar futuras esposas prendadas, recatadas e do lar; práticas agrícolas e técnicas contábeis para meninos e jovens que se tornariam futuros provedores de famílias numerosas. Cidadão de bem era aquele que se dobrava docilmente ao modelo de exploração capitalista sem reclamar. A força de trabalho era vendida à exaustão e por valores irrisórios e indignos, levando a adoecimentos, padecimentos e mortes, em nome de uma falsa dignidade – a do homem trabalhador. As greves eram, logicamente, proibidas, e sindicatos rotulados como “coisa de comunistas”. Aliás, o comunismo era ensinado como obra do demônio e pecado maior – como se os brasileiros soubessem realmente o seu significado. Nada muito diferente dos dias atuais.
As políticas públicas voltadas ao controle de natalidade eram inexistentes. Os métodos contraceptivos, além de clandestinos, eram proibidos e propagados como pecaminosos. Os chás abortíferos ensinados por mulheres mais velhas – prática que sempre existiu – exigiam sigilo e colocavam em risco a saúde e a vida das gestantes. E, nestes casos, se a “pecadora” morria, era considerado justo e merecido, por se tratar de castigo ordenado por um Deus grandioso, perverso e imaginário [de criação humana], que a tudo via, ouvia e punia, mas nada fazia em defesa ou benefício dos vulnerabilizados pelo governo.
Então, quando me perguntam por que sou de esquerda, sempre respondo: primeiro porque não são patrão. Depois porque vi a fome de perto, propagada como projeto de poder político; porque convivi e senti na pele os estigmas do sujeito considerado inferior intelectualmente e “preguiçoso”, reforçados na imagem do “Jeca Tatu”, personagem criado por Monteiro Lobato – escritor que propagou estereótipos, incentivou o racismo e foi posteriormente apontado como participante do movimento eugenista brasileiro [que defende a superioridade racial dos brancos]; porque fui obrigado a assistir a missas todas as semanas na escola e a participar da eucaristia, pela qual só receberia a hóstia se confessasse pequenos pecados ao padre – para não ter que rezar o rosário completo; porque, no início da juventude, precisei participar de uma apresentação teatral para os censores do regime militar; e porque somente eu sei o quanto me senti indigno e desrespeitado por tudo que me foi imposto, e, especialmente pelos impactos emocionais e psíquicos no meu desenvolvimento ao longo da vida.
Tornei-me jovem exatamente em 1984, um ano antes do início do processo de redemocratização. Acompanhei pela televisão a luta de Ulisses Guimarães à frente da Assembleia Nacional Constituinte, que elaborou e promulgou a Constituição de 1988. Aos dezoito anos, eu fugia das aulas na Escola Técnica de Pernambuco [antiga ETFPE] para ir às ruas em apoio ao movimento das “Diretas Já”. Vi Fafá de Belém cantar o Hino Nacional e figurar como “musa da democracia”. Chorei com o significado da morte de Tancredo Neves e temi um novo golpe militar. Sofri com a ascensão de José Sarney ao poder. Votei pela primeira vez na esquerda e me orgulho de ter participado da campanha “Meu primeiro voto é de Arraes”. Confirmei meu primeiro voto para presidente da República em Luiz Inácio Lula da Silva e lastimei sua derrota e a chegada da direita.
Em meio a isso tudo, vivi a pandemia da AIDS. Vi amigos, conhecidos e ídolos [sim, eu ainda os tinha nessa época] morrerem e serem atacados e difamados. Presenciei cidades pichadas com frases preconceituosas como “praga gay” e “morte aos veados”. Elaborei e desenvolvi campanhas de conscientização nas empresas em que trabalhei; tive projetos reconhecidos em workshop promovido pela FIEPE em parceria com instituições internacionais. Estudei, fiz mestrado e doutorado, me tornei psicólogo e psicoterapeuta. Eu furei a bolha, mas por “esforço cavalar” e não graças à utópica meritocracia que nunca existiu no país. Eu cresci pessoal e profissionalmente com o objetivo de lutar por um Brasil melhor, com o real sentido de patriotismo. Porque sempre preservei minha identidade de classe, meu senso crítico, meu espírito de coletividade e de igualdade para todos. E porque estabeleci como crença maior o respeito à soberania e à independência nacional. Foi assim que me tornei um sujeito político, consciente na medida do possível, que gosta de futebol apenas como lazer e de religião somente como temática de estudos.
E foi assim que defini meu caminho para a educação, por acreditar que meu objetivo maior é cuidar de gente. E o fiz no exato momento em que entendi que estava do lado certo no jogo político. E, com isso, senti a esperança voltar a pulsar no coração dos brasileiros. Retornei às ruas com a cara pintada e gritei o “Fora Collor” a ponto de ficar rouco; vibrei com o impeachment do corrupto caçador de marajás e garoto-propaganda da Rede Globo. Em passagem pelo litoral de Alagoas, inclusive, tirei foto em frente à casa onde PC Farias foi executado à queima-roupa. E lamentei, mais uma vez, a impossibilidade de reais esclarecimentos à população. Mantive meu voto na esquerda e perdi duas eleições seguidas para Fernando Henrique. Chorei de alegria com a vitória do atual presidente em 2002 e, depois, em 2006. Vi o Brasil sair do mapa da miséria pela primeira vez. Vi o brasileiro finalmente ter o que comer; a expansão das políticas públicas; o retorno da garantia de direitos; o negro e o pobre chegarem às universidades públicas com a cabeça erguida, grupo no qual me incluo.
Vivi as ruas de forma intensa e voltei a elas para eleger Dilma Rousseff duas vezes seguidas. Informei sobre os riscos e prejuízos dos retrocessos promovidos pelo retorno da direita. Salientei e alertei sobre os perigos da consolidação da extrema-direita no país. Mas aceitei a decisão popular e me restringi a chorar ao lado de tantos conscientes. Eu já corri da polícia nas ruas por defender igualdade de direitos. Foram anos de luta em favor da democracia. E somente quem viveu os períodos de chumbo sabe verdadeiramente do que falo.
Mas vejo hoje, com profunda tristeza, o povo ser novamente manipulado, confundido com a noção de patriotismo; a bancada religiosa em crescimento, com pregações descabidas e preconceituosas; um país totalmente dividido e polarizado como resultado de um projeto de poder. Vejo, com estranheza, a inversão de valores, em que racismo, xenofobia, transfobia, estratificação de classes e negação de acesso se tornam estratégia de votos. Vejo a corrupção ser exaltada e a mentira produzir mitos. Percebo crianças e adolescentes sendo transformados em zumbis, adoecidos e dependentes de redes sociais; a explosão de “criadores de conteúdo” vazios e influenciadores que propagam crimes; o crescimento de celebridades instantâneas, totalmente desprovidas de consciência quanto aos limites entre o público e o privado da vida.
Dá vontade de parar, mas não há tempo para choros ou fragilidades. Acompanhamos o crescimento perverso de conceitos de exploração capitalista que não se sustentam sem educação de base e de qualidade — é coach, mentoria, meritocracia, empreendedorismo, capitalização de renda e crescimento rápido — falácias que apenas contribuem para a elevação das ansiedades, angústias e sentimentos de fracasso que levam à depressão. O sujeito se culpabiliza pelo insucesso e o governo se exime de suas responsabilidades constitucionais. E, como resultado, o país se transforma em um reprodutor de diagnósticos e modelos de atenção à saúde ainda pautados no modelo biomédico, totalmente ultrajante e conservador.
Angustio-me, sim, com o crescimento da extrema-direita e do fascismo no mundo. Eu realmente me amedronto com o futuro, mas não choro paralisado e impotente! Sou vítima da ditadura militar e não dou o braço a torcer. E é exatamente neste ponto de saturação, de quase esgotamento total, que percebo e reafirmo a necessidade de continuar lutando. É a confirmação das previsões lógicas que agora se transformam em fatos. É uma espécie de repetição histérica da história. Quando o homem se vê acuado, recorre ao retrocesso e conservadorismo, dando força ao monstro que depois o devora. É o que temos visto nos tempos atuais. A tensão não é à toa. É produzida como estratégia de subjugação. Com o cansaço vem a rendição. O esgotamento físico e emocional nos força a concordar com o mínimo, pois nos garante descanso e sobrevivência. É assim que estamos reagindo em relação a Gaza, à guerra na Ucrânia, à batalha comercial promovida pelos Estados Unidos da América e à crise climática. Temos engolido passivamente a imposição de leis “Magnitskys”; ao confronto com antipatriotas que apoiam tarifaços em causa própria; no uso constante do nome de divindades utilizado para enganar e promover alienação, perversidades e retrocessos; às ameaças de guerra nuclear.
E, lógico, que nesses momentos surge o desejo desesperado que nos leva a querer gritar: “para que eu quero descer”; “basta, não aguento mais”; “chega logo meteoro”! Isso se chama somatização. É o início de se dar por vencido. Resposta do corpo ao tão longo período de tensão que vivemos. Mas é também a hora de levantar a cabeça e as bandeiras [para quem as tenha]. Momento de se retroalimentar de forças e voltar às ruas. As ruas são o espaço político mais democrático e justo. É hora de compreender definitivamente que “a vida presta”, que o Brasil presta! Que nós, brasileiros, prestamos! Hora de renovar as esperanças na nossa coragem de exigir mudanças. Devemos lembrar que a democracia é por demais frágil, e por isso exige vigilância constante. A democracia cobra especialmente que nos mantenhamos em alerta e ativos nos processos de conscientização e formação de sujeitos pensantes e cada vez mais críticos.
E assim, penso eu! Somente assim seguiremos contribuindo de forma eficaz e edificante para a sobrevivência e manutenção de um país mais justo e igualitário para todos e todas. Por isso: as ruas nos chamam!
Epitacio Nunes de Souza Neto é psicólogo, psicoterapeuta e professor universitário. Possui doutorado em Psicologia Cognitiva pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e Doutorado em Psicologia pela Universidad del Salvador (USAL) de Buenos Aires, Argentina. Possui também mestrado em Psicologia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
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Foto da Capa: Arquivo Público DF / Agência Brasil

