“Amigo é coisa pra se guardar / Debaixo de sete chaves / Dentro do coração / Assim falava a canção que na América ouvi”. Assim diz a linda canção de Milton Nascimento e Fernando Brant, que ouço na voz de Milton. E assim guardo meus amigos.
“Amigo é coisa pra se guardar / No lado esquerdo do peito / Mesmo que o tempo e a distância digam não! / Mesmo esquecendo a canção / O que importa é ouvir a voz que vem do coração”. Assim segue a canção. E me dou conta de que também guardo meus amigos próximos e distantes ouvindo a voz que vem do meu coração.
Abro este texto ouvindo o canto de um dos compositores mais incríveis da nossa música popular, que acompanho desde que gravou o primeiro disco e pisou nos palcos brasileiros. A canção fala do valor da amizade e do quanto é fundamental ouvir e ser ouvido. Desde que me dei conta do preconceito que me rondava, fui amadurecendo, aos poucos, o meu estar no mundo e entendendo os meus direitos, até decidir não permanecer em lugares onde o respeito não fosse legítimo e onde as amizades não fluíssem. Passei a reagir civilizadamente diante de situações em que a discriminação era preponderante. Não foi e ainda não é uma tarefa fácil, mas é legítima. Alguns anos de análise, muitas conversas e desabafos foram um suporte importante. Acabei me dando conta de que o fundamental estava na família que me deu asas para voar e no círculo de amigos que fui formando ao longo desta travessia. Amigos que voaram comigo, acreditaram, estimularam, tanto no campo pessoal como profissional. Amigos que me impulsionaram em momentos difíceis, de quase desistência, e em momentos de alegria e celebração.
“Adeus (toma mais um) / Já amolei bastante (de jeito algum) / Muito obrigado, amigo (não tem de quê) / Por você ter me ouvido / Amigo é para essas coisas”, diz a música de Aldir Blanc e Sílvio da Silva Júnior, que o MPB-4 cantava lindamente nos anos 1970.
É claro que as relações tumultuam vez ou outra. A gente ouve críticas. A gente critica. A gente discute. A gente briga. A gente teima. A gente sofre. A gente se frustra. A gente pede desculpas. A gente chora junto. Mas se a amizade é sólida, a gente acaba rindo dos desencontros, o essencial pulsa e a confiança permanece inabalável. Não tenho dúvidas de que cheguei até aqui amparada pelas amizades, próximas e distantes. Hoje entendo a curiosidade que a minha condição provoca e procuro responder com calma às tantas perguntas que me fazem, consciente de que o que importa mesmo é o respeito, o acolhimento, o afeto e a transparência. Se esta fusão de sentimentos vier embalada pela arte, pela poesia dos rebeldes, pelas boas parcerias e pela consciência de que ninguém vive só, a possibilidade de mudarmos o mundo é muito grande.
“Sejamos humildes, vamos reaprender a beleza da amizade, assim teremos alguma chance de mudar o mundo” – escreveu o psicanalista Abrão Slavutzky no dia 04 de julho, em um texto no Facebook chamado Mudar o Mundo, que me emocionou e inspirou o texto de hoje no Sler.
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