Todas as vezes em que visitávamos os parentes da “colonha”, como o meu pai costumava dizer, eu me sentia uma extraterrestre. Nascida em Novo Hamburgo, uma cidade que talvez não fosse tão grande se comparada a Porto Alegre, mas que parecia imensa aos olhos de quem vivia naquelas terras, eu me via como uma criança privilegiada. Estudava a poucos metros de casa, enquanto as crianças de lá caminhavam longos quilômetros até a escola. Suas brincadeiras se confundiam com o cotidiano: ajudar na roça, cuidar das plantações, brincar de casinha, tomar conta dos irmãos menores. Aqueles meninos e meninas não assistiam a desenhos animados, nem Chaves ou Chapolin. Em suas casas não havia televisão, só radinhos à pilha, nos quais ouviam notícias e música sertaneja. Nos anos 1980, época em que eu costumava acompanhar meus pais nessas viagens, a luz elétrica ainda era uma promessa distante para aquela gente.
Demorei anos a entender que, quando dizia “colonha”, na verdade, o meu pai queria dizer colônia. A Linha Mendes, Pinheiro e tantas outras das quais eu ouvia falar quando visitava os parentes da região do Alto Uruguai nada mais eram do que colônias fundadas por imigrantes em sua chegada ao Brasil e depois habitadas pelos seus descendentes. E, mesmo estranhando as peculiaridades da vida no interior, eu gostava de visitar a terra onde o meu pai nasceu e viveu com os irmãos até se tornar adulto. Gostava de ouvir histórias do seu tempo de criança, da escola onde estudou, das suas amizades. Apesar de não conseguir imaginá-lo em meio às plantações, ao ouvi-lo falar sobre a roça, percebia a familiaridade e o orgulho de quem muito trabalhou para ajudar no sustento da família.
Assim como aquelas crianças que eu chamava de primos, sem saber ao certo o grau de parentesco que nos unia, meu pai também cultivava tabaco. Nas terras do meu avô, a família inteira trabalhava desde o plantio até a colheita e a secagem das folhas nas estufas. O ritmo era intenso, começava ao amanhecer e seguia até o fim do dia. Só depois que a Souza Cruz recolhia o fumo e fazia o pagamento, eles podiam descansar por algum tempo antes de iniciar um novo ciclo.
Lembro de ter entrado certa vez em um desses galpões onde as folhas de fumo eram penduradas para secar. Acompanhava os pequenos trabalhadores que também faziam uso daquele espaço para brincar e jogar conversa fora. Quis mexer, tatear os vegetais, sentir a textura daquilo que não parecia um dia ter sido uma planta viva, mas, sob o pretexto de que minhas mãos ficariam manchadas, eles me impediram de matar a curiosidade. Eu deveria ter uns cinco anos, talvez menos. Só sei que o cheiro forte e a escuridão daquelas estufas foram suficientes para que eu nunca desejasse experimentar o gosto de um cigarro.
Voltei a essas memórias ao ler A árvore mais sozinha do mundo, da escritora paulistana Mariana Salomão Carrara (Todavia, 2024), romance que narra os dramas de uma família de agricultores do interior do Rio Grande do Sul diante das mudanças climáticas que comprometem a plantação de fumo. A história é contada por quatro narradores inusitados: uma árvore, uma roupa de proteção usada no manejo dos venenos, uma caminhonete Rural e um espelho de origem portuguesa, que se revezam para refletir sobre a vida, o tempo e a degradação da natureza e das relações humanas. Cada um deles fala com um sotaque próprio, marcado por suas experiências e pela língua que o habita — o espelho com expressões do português europeu, a Rural com o vocabulário típico dos moradores da terra.
Quando comecei a leitura, imaginei que o tempo da narrativa coincidisse com o período em que a família do meu pai trabalhava unida na lavoura, ou talvez com a década de 1980, quando eu visitava aqueles parentes distantes. No entanto, logo percebi que estava enganada. A história daquela família, adoecida e marcada pelos efeitos dos agrotóxicos, é o retrato de uma realidade contemporânea. Hoje, os filhos de roceiros ainda começam na lida pouco depois de deixarem as fraldas. Ainda interrompem os estudos antes de concluir a educação básica e brincam pouco.
Apesar de o consumo de cigarros ter diminuído em relação ao meu tempo de infância, ainda há quem sofra por causa do fumo. Os prejuízos não atingem apenas os fumantes ativos ou passivos, mas também aqueles que cultivam o tabaco. Problemas respiratórios, vômitos, tonturas e depressão estão entre os sintomas que acometem muitos agricultores. O fumo continua envenenando não só quem o consome, mas também quem o planta. Meu pai, minha tia mais velha e minha avó morreram de câncer de pulmão. Minha avó fumou durante grande parte da vida. Meu pai fumou por pouco tempo, quando jovem. Já minha tia nunca fumou. Mas todos eles plantavam fumo.
A leitura do livro de Mariana Salomão Carrara me fez compreender melhor as dificuldades que meu pai tantas vezes mencionava. Em vários momentos, troquei os nomes dos personagens pelos dos meus próprios familiares, como se aquelas vozes atravessassem o tempo para narrar a história da minha gente. Nessa literatura de denúncia, a exploração aparece de forma sensível e poética, revelando o peso do trabalho na lavoura e o impacto dos agrotóxicos sobre os corpos incapazes de se verem distantes daquela realidade. O sofrimento daquela família de agricultores é o mesmo que marcou a infância do meu pai, as mãos calejadas do meu avô e o destino de tantos trabalhadores que ainda respiram o veneno que os sustenta.
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