Uma criança no ambiente refunda a existência imediata do universo de coisas a seu redor, incluindo nós, adultos.
O despertar (preguiçosamente atrasado) do sono dominical foi tomado pelo campo problemático instaurado diante da necessidade premente de se adequar às volições dos crescidos em passar aquele dia fazendo nada com as pulsões do pequeno em desejar fazer tudo, e de preferência ao mesmo tempo.
Antecipando as dificuldades que teria em manter meu íntimo bem-aventurado participando, naquele dia santo, de alguma infindável disputa em videogame ou de alguma atividade aquática (apesar de ter sido e ter também adorado, ainda fico impressionado como criança gosta de água, mesmo no inverno), apresentei a sugestão de irmos ao Zoológico: aceita de pronto.
No horto, circulavam outras animadas famílias. Assim como nós, recepcionadas por uma trupe, cujo esquete nos educava acerca de cuidados ecológicos. Seguimos para um museu ambientado em vivências conservacionistas para, então, iniciarmos o périplo pelas alas dos bichos.
Os primeiros avistados foram as aves: uma profusão de araras. Emplumadas, seja em azul, vermelho, amarelo e verde, ou só verde: uma paleta volante de cores e tons. Na sequência, chegamos aos gaviões que, distintos dos coloridos bandos de papagaios, ocupavam desacompanhados suas respectivas jaulas: solitários carijó, carcará, caramujeiro, caboclo e cauda-curta. Gaiolas de cimento e oxidadas telas abatiam seus plausíveis voos em pulos abobados: suas dimensões possibilitariam o adejo de qualquer colibri, mas nunca daquelas potentes aves de rapina.
Já havíamos percorrido a área dos répteis quando percebi que nosso dileto acompanhante não esboçava o interesse projetado por minhas expectativas quando da sugestão do passeio. Confesso que o inconformado olhar do carijó sobre mim também desbotou algo. Porém, lembrei que ainda teríamos as temíveis feras das selvas e toda a linha dos grandes mamíferos para percorrer.
Todavia, não havia mais os leões, nem onças, tigres ou ursos. Em algum aspecto, testemunho certo regozijo, por acreditar que se abdicou dos majestosos felinos em função de não os ter reclusos em espaços exíguos.
Contudo, o desencanto do menino agora se estampava vivamente. Também não consegui formular nenhum argumento de incentivo: a realidade de predadores ausentes e águias reclusas consumia qualquer fantasia de deslumbre. Nem o volumoso hipopótamo foi merecedor do prestígio do infante: sua bocarra imensa, seu tamanho paquidérmico não conseguiu magnetizar a atenção dele.
Desatenção que me causou espanto. Mas recordei que essa mesma criança havia me apresentado a um tubarão calçando tênis (lembrei de Pat Storni com Criaturas escalafobéticas – Pat Storni). Ente que saltava sorridente fora d’água, vivo na tela de uma Smart TV, 4K de cinquenta polegadas: livre de qualquer cela ou cárcere, mais empírico que o inacessível “cavalo-do-rio”.
Por conseguinte, nos pusemos solidários às suas frustrações e, principalmente, à realidade de que a fauna engaiolada não lhe é atrativa. Mais à frente havia um parque, outra trupe de animadores e um montão de crianças que logo o acolheram em ânimo renovado.
Por fim, no caminho da saída, longe se via a jaula que fora dos leões e, por passar menos distante, ainda vi o carijó. Sentindo-me em débito, não sei se com ele ou com alguma coisa que ainda está em mim, comentei:
– Ainda bem que eles soltaram os leões… Talvez tenham devolvido para a selva. Acho que fizeram o mesmo que foi feito com os dragões…
– E tinha dragão aqui? Perguntou ele.
– Sim, respondi. Ficavam numa jaula suspensa por balões e segurada por uma corrente até o chão. Mas tiveram que soltar: manter dragão preso é muito complicado…
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Foto da Capa: Gerada por IA.

