Já aludi aqui, em outros textos, à minha enculturação católico-beneditina, intensificada no tempo, mesmo curto, de convívio com os monges-mestres do Colégio São Bento, em Olinda (PE). Foi durante esse período que se intensificaram vivências de delitos e culpas, mesmo aqueles somente pensados, pois afinal Deus tudo via, e continua vendo… Foi nesse tempo que se intensificaram debates horizontais, entre nós, curriola de adolescentes-meninos irrequietos, e verticais, em embates com nossos formadores, tutores e censores monacais. Foi nesse tempo que se intensificaram os debates sobre os três grandes destinos de todos e cada um, face ao histórico de atos (e omissões) no dia-a-dia: o paraíso, para as almas superiores e com histórico senão impecável, predominantemente pio, justo e virtuoso; o inferno, local de danação final para os pecadores empedernidos, almas sebosas renitentes nos pecados veniais e mortais; e finalmente o purgatório, lócus que sempre convocou minha imaginação e gastou a paciência dos meus mestres monges catequizadores. Sim, porque se os, digamos assim, critérios de encaminhamento das almas frente ao Controlador de Destinos-Finais pareciam suficientemente claros e objetivos para encaminhamento ao Paraíso ou ao Inferno, no caso do Purgatório, as coisas se mostravam com mais nuances, entrando na equação mesmo a intensidade de orações provenientes dos círculos de ainda viventes que encomendassem missas, rodas de preces, oferendas de velas votivas, e assemelhados. Almas meio que em situação ambígua, em certa corda bamba, poderiam vir a se beneficiar desse halo piedoso vindo do círculo dos viventes, em cujo ora pro nobis se incluíam os que haviam partido. Isso posto, qual de fato o critério, conjunto de critérios, algoritmo que definiria o encaminhamento ao purgatório?
Padre Arnaldo, preceptor das lições de catecismo na paróquia do bairro do Espinheiro, em Recife, certa vez se enfezou com essas caraminholas de pré-adolescente metido a cavalo-do-cão (epa!), e encerrou o papo com uma fórmula terrível: “Cuide de seus feitos e mal-feitos que Deus saberá para onde você deverá ir.” Mas justamente: como saber se a milhagem rumo ao paraíso estaria com saldo positivo, ou se de fato já estaríamos com o pezinho pressentindo o fogo do inferno?
Muito cedo, passei a pensar que, tudo considerado, o purgatório seria um lugar nem-nem, para almas nem-nem. Nem paraíso nem inferno. Nem santos nem endemoniados em danação. E aí, confesso, muito cedo me encantei com essa polissemia do purgatório, com essa multiplicidade de origens e de possibilidades: Seu João, no purgatório por ter pulado a cerca matrimonial, mesmo tend o sido razoável pai e contribuinte; Dona Maria, por ter cobrado dízimo dos dízimos de terceiros, para proveito próprio; falhas suficientes para bloquear o acesso ao paraíso, mas não drásticas o suficiente para encaminhar a criatura para o fogo do inferno – donde, aliás, não há escapatória. Paraíso e Inferno, então, como destinos finais, inamovíveis e não-passíveis de recurso, diferentemente do purgatório, onde a alma poderia vir a se beneficiar de upgrade paradisíaco. Parênteses para recordar aqui outra colisão com Padre Arnaldo: tive a nonchalance de um belo dia perguntar se a mobilidade purgatorial abarcava, em igual medida, subidas para o céu e descidas para o inferno. Ele me disse que eu deveria buscar mais atividades físicas, ao ar livre, buscar ajudar minha mãe nas tarefa domésticas, e parar de pensar tanto e tanta besteira, considerando que pensar muito seria reconhecidamente abrir as portas da mente para Satanás. Crendeuspai…
Ele não me respondeu. Quando pela primeira vez percorri os meandros encantadores da Divina Comédia, de Dante Alighier, obtive respostas para muitas das minhas dúvidas atrozes. Os níveis de inferno e paraíso trouxeram uma riqueza e diversidade que tornaram a tosca dicotomia céu-inferno uma solução conceitual para aquém da quinta série… O próprio purgatório assumiu uma condição muito mais sofisticada, diluída nos desvãos dos movimentos de danação ou salvação. Purgatório enquanto trânsito…
Tudo considerado, me parece que o purgatório é um lugar interessante de viver: primeiro porque há nele uma diversidade de personagens que não se encontra nos outros círculos; segundo, porque traz possibilidades em aberto que vão demandar toda uma saga-após-a-saga, em clima de “a luta continua”, algo que dá a essa experiência um plus em relação à mesmice dos outros dois círculos. Não obstante, para desespero de Padre Arnaldo, restam questões não respondidas: qual a densidade de tráfego nos portais purgatório-paraíso e purgatório-inferno? Migrações paraíso-purgatório seriam permitidas, mesmo em termos de estágio temporário? E os upgrades inferno-purgatório, haveria alguma remota possibilidade de serem autorizados? E aqueles que, finalmente, conseguissem a entrada no paraíso, poderiam ter cassada sua carta de residência e encaminhamentos de volta ao purgatório, devido, por exemplo, a uma lamentável queda de produtividade de atos benevolentes? Percebem o quão “animado” é o purgatório? Lugar dinâmico, lugar de síntese face à tese paradisíaca e a antítese infernal, lugar com portais para a bem-aventurança e a danação, lugar onde o humano e o angelical (incluídos os anjos em danação) colidem dramaticamente, num plano extraterrestre em que questões menores como boletos e imposto de renda estariam superados e arquivados (ou será que não? Melhor não perguntar a Padre Arnaldo…).
Se, finalmente, avaliarmos com cuidado, o purgatório é o destino mais provável de muitos de nós: desde aqueles que reverenciam pneus automobilísticos, até os que percorrem o primeiro nível (venial) do rol de pecados listados. Aqueles e aquelas que se omitem quando a consciência avisa que deveriam encarar. Os que se fazem de alheios face às múltiplas misérias que desfilam diante de seus olhos. Casos, digamos assim, não suficientemente graves para receber o golpe do tridente de Satanás rumo aos infernos, mas já suficientes para perder a reserva na Nau Celestial, rumo ao paraíso. E aí, esses casos, que sabemos numerosos, vão engrossar as hostes do purgatório, um mundo de gente onde provavelmente encontraremos tantos colegas, chefes e chefiados, vizinhos, colegas de partido, e talvez até mesmo Padre Arnaldo!
Resta a esperança de que o saldo entre os que caem rumo aos planos infernais e os que sobem ao sétimo céu e plus, tal saldo seja positivo no sentido do paraíso, de forma que os moradores deste último, como Pepe Mujica, não se sintam tão sozinhos…
Drops da semana:
Se o inferno são os outros, o paraíso é Noronha, e o purgatório é aqui e o agora.
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