Semanas atrás, recebi a notícia de que precisava fazer mais um cateterismo e angioplastia com stent no meu querido coração. Confesso que caí do cavalo. Achava que estava indo superbem, visto que no último ano melhorei desde a alimentação e a atividade física, o que se refletia em meus exames feitos continuamente. Mas a genética não mente. Papai e mamãe me deram dentes bons, porém foram implacáveis com o encanamento no coração. Pra consolo, como me disse a nutricionista que me acompanha, se não fossem todos os meus cuidados, sabe-se lá, não teria tido um novo infarto a essa altura, né mesmo?
Nesse mundo do “vambora”, “vamolá”, “vamo dale pra não tomale”, a gente acaba se colocando de uma forma a nunca poder parar, a sempre estar ativada, em prontidão, atentas ao mundo para agir e se proteger. E, vamos combinar que nos dias atuais, não sem razão. As notícias não têm ajudado. Em nível coletivo, são muitas ameaças: guerra tarifária dos EUA contra o Brasil. Luta contra a PL da Devastação. A luta entre bigtechs e a sociedade, que deseja segurança e garantia de direitos a quem navega pelas plataformas. A luta pela manutenção dos direitos das mulheres. As dores e invisibilidades das pessoas mais vulneráveis e das idosas. Traumas ainda não sarados e medidas ainda não tomadas em defesa das vítimas da inundação e pela reconstrução do Estado. Guerra na Ucrânia. Genocídio na Palestina… E ainda há as questões familiares, de trabalho, de amizade, as “vozes internas” que carregamos. Muitas positivas, outras nem tanto. Ah, e os boletos que não param de chegar. Seria a tal “vida de adulto” cheia de cortisol?
Então, respirar é um exercício, o equilíbrio da ansiedade, raiva e tristeza testemunhada com a alegria, leveza e o relaxamento necessário que, se não é praticado o suficiente, em algum momento, o cerco se fecha. Hoje, analisando e aprendendo com o que passou, foi outro fator que influenciou neste desfecho. Esse aprendizado é particularmente difícil de eu reconhecer, mas importante pra mim. É onde eu mais consigo enxergar oportunidade de mudanças reais e realizar a maior evolução entre as que já fiz até agora. Também imagino que escrever sobre isso aqui é uma forma de, ao me revelar pra você, me comprometer contigo para fazê-las. Tipo quando a gente convida uma companhia para nos incentivar a fazer atividade física conosco.
Nesse período prévio da cirurgia, entre idas e vindas ao plano de saúde para autorização dos procedimentos, organização da casa para o pós-operatório (poderia ser para tirar umas férias, só que não), revisei meu documento de Diretivas Antecipadas de Vontade, o que me causou tranquilidade porque me fez colocar a vida prática em ordem e atualizar pontos que até então não percebia que estavam datados. Um momento importante foi conversar com as filhas, quem nomeei minhas representantes, para trocarmos ideias, hipóteses e não só a meu respeito. Um papo que nos trouxe mais intimidade, com certeza.
Tanto se fala que o mundo está rodeado de pessoas duvidosas, no entanto, acredito na importância de elevar aqueles que fazem um bom trabalho e a diferença no espaço em que vivem. Por isso, gostaria de agradecer, reconhecer e celebrar o corpo clínico e técnico que me atendeu no Hospital Mãe de Deus. Infelizmente, não tenho o nome da equipe de funcionários e técnicos que me atenderam na Recepção e nas Salas de Cirurgia e de Recuperação nos dias 2 e 3 de agosto, mas deixo o registro nominal à equipe médica, o cardiologista Dr. Ricardo Castro Carrera, o cirurgião intervencionista e hemodinâmico, Dr. Alexandre Schaan de Quadros, o anestesista Dr. Emílio Baldo Bender. Obrigada pelo cuidado, prontidão, gentileza e competência!
Nessa segunda internação por conta do meu querido coração (leia aqui a coluna em que conto sobre a primeira), a gente vai aprendendo algumas coisas do próprio corpo. Uma delas é que a única alternativa para o cateterismo será pela perna, que exige uma recuperação mais lenta e que ela fique imóvel por pelo menos seis horas. E o que pode ser aparentemente simples, como é difícil! O mundo te estimula, e a gente luta diariamente para ser independente, autônoma, e aí se vê acamada por seis horas sem se mexer, o que é pouco, mas pra mim pareceu uma eternidade. Então você descobre o quanto é desafiador precisar de alguém para te secar, dar uma refeição por colherada, te trazer líquido a cada vez que tem sede, te acomodar numa comadre para fazer xixi (e que dificuldade! Minha bexiga estourava de dor, mas quem dizia que eu conseguia?). Lições de paciência, humildade, vulnerabilidade.
E no futuro, como será? Talvez não tenha limitações tão grandes, mas e se tiver? Não é raro pessoas idosas possuírem dependências de mobilidade. Será que conseguirei me manter independente até quando, se for o caso? Será que conseguirei ficar em uma Instituição de Longa Permanência decente? Quem sabe morar em um espaço compartilhado, em uma comunidade intergeracional onde as pessoas se apoiassem umas às outras? Loucura minha?
Com o avanço da medicina, é incrível como se aperfeiçoam as técnicas. Hoje, tudo se simplificou, encurtou, evoluiu. E por isso a gente também quer abreviar processos no nosso organismo. Sei que devo evitar subidas, descidas, carregar peso… Sinto em mim essa pressa. É também uma outra lição a aprender: dar tempo ao corpo. Assim como as sementes, cada planta, cada flor, tem sua hora de germinar.
E nessa trajetória, os abraços que recebi, as mensagens de incentivo, as caronas para consulta e hospital, as visitas carinhosas, as gostosuras enviadas, os passeios e as piadas para distrair e divertir, as refeições preparadas, as roupas lavadas, a casa limpa, consultas online, uma rede de apoio de mãos e braços formada pela família, amigos e amigas me emocionam quando relembro. Cada gesto me fez sentir amada. E como o amor faz diferença! Gratidão. Prometo a vocês que meu amor se reverterá em gestos de reciprocidade. Porque amor é ação.
De mais essa experiência que compartilho com você, te faço o convite pra refletir: há algo que pode ser cultivado em você? Te desejo saúde, amor e alegria!
P.S.: Sobre um tema com 100% de sinergia ao que escrevi, com um olhar muito particular, complementar e bonito, te recomendo a leitura da coluna da minha colega de Sler e mais nova membra do “Clube dos Corações Machucados”, jornalista Silvia Marcuzzo, aqui.
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