Comecei a fotografar em 2006, quando iniciei meu curso no Foto-Cine Clube Gaúcho. A entidade que formou gerações de fotógrafos promovia a fotografia como arte. Nessa época, tinha ficado desempregada, após trabalhar na área hospitalar por dez anos. Também queria mais tempo para dedicar aos meus filhos. Então, como sugestão de uma amiga, fui fazer curso de fotografia. Em 2011, obtive meu registro como repórter fotográfica e passei a buscar cada vez mais qualificação.
Na minha jornada como fotógrafa, registrei muitos eventos corporativos e pessoas, formaturas, aniversários e desfiles de Carnaval. Porém, o que mais gosto de fotografar são mulheres negras reais, perfeitas com suas imperfeições. Nesse momento, também me identifico. Somos diversas, lindas e potentes.
Percebi que as mulheres negras não eram retratadas em sua beleza real e natural. Isso me incomodou muito, porque também não me sentia confortável cada vez que era fotografada por alguém. Nós sempre somos rotuladas de alguma forma.
Busquei, com a minha fotografia, acolher e respeitar o momento de cada uma. Quando fotografo mulheres negras, me sinto parte delas. Me sinto útil, fazendo parte das conquistas delas e elas das minhas. Quando elas se veem pelo meu olhar, contam que se sentem acolhidas, vistas com um olhar carinhoso, com o poder e a beleza que muitas não sentiam.
Nesse percurso, ouvi depoimentos de clientes que me deram a certeza de que eu estava no caminho certo:
— Ela soube registrar tudo que eu estava sentindo naquele momento. Me mostrou o quanto devemos nos amar pelo que somos e valorizou o que mais gosto em mim… o meu sorriso.
— Me senti muito à vontade diante das lentes da Cintia, o que até então nunca havia acontecido. Diariamente trabalho fortalecendo e lembrando quanto minhas pacientes negras são incríveis, mas nem sempre lembro disso em relação a mim mesma.
Ler isso é importante não só para elas, mas para mim também. Criei o projeto “Pretas”, do qual participaram mais de 10 mulheres. Ao longo de toda a minha vida profissional, foram dezenas. Em cada encontro, não é só uma sessão de fotos: é um momento em que trocamos e dividimos dificuldades e conquistas.
Nos últimos três anos, comecei a pensar no meu reposicionamento no mercado, e isso ficou mais intenso a partir de 2023. Então, após as enchentes do ano passado, ingressei no projeto Apoie Empreendedoras. Foi um divisor de águas. Com mentorias de todos os campos, pude visualizar meu negócio de uma nova forma. Percebi como gostaria que meu trabalho fosse visto: com um olhar alegre, delicado e carinhoso, voltado às mulheres negras. Em 2025, uma nova formação, o Afrofuturo Empreendedor, promovido pela Odabá, também me ajudou a seguir com a organização e o foco necessário.
Nesse período, também desfiz uma parceira de anos e sigo a caminhada que fortalece meu posicionamento de pertencimento enquanto mulher negra. Novos projetos, novos olhares, cada vez mais voltados a retratar e a abraçar as potências negras.
A Cintia Lentilha já existia. Agora, está determinada a trabalhar pelo crescimento da sua marca, exaltando a realeza das mulheres fotografadas, para que se sintam sempre lindas, perfeitas, únicas… exatamente como nós somos: especiais.
Por tudo isso, hoje me sinto segura em dizer que sou Cintia Lentilha: fotógrafa da Beleza da Mulher Negra. Busco, pelas minhas lentes, mostrar toda a essência a cada clique, proporcionando às minhas clientes sensações e emoções que vão muito além da fotografia.
Cíntia Lentilha é empreendedora e fotógrafa há 19 anos (@cintia.lentilhafotografa). Formada pelo Foto-Cine Clube Gaúcho, desenvolveu sua técnica para a fotografia de mulheres negras. É associada Odabá e ritmista do Bloco das Pretas.
Todos os textos dos membros da Odabá estão AQUI.
Foto da Capa: Cintia Lentilha / Divulgação

