Que encaminhamentos damos para os nossos furos? Não falo aqui das nossas gafes, não. Mas de nossos furos literais. Porque parte do ofício de escutas psi e das boas escutas médicas é saber como fazemos para apaziguar nossos furos e como podemos nos sentir bem dentro de nossa própria pele. Enfim, como estamos mais ou menos satisfeitos.
Na maior parte das vezes, nossos orifícios e poros vão permutando as funcionalidades da existência basal com a sexual. A boca, como exemplo, erotiza quando come, quando beija, lambe, quando fala e também quando cala. Não trago novidades. Contudo, especialmente – mas não só – em relação à voz e ao olhar, também temos outras demandas. É como na velha canção dos Titãs: Diversão e arte para qualquer parte. Diversão, balé como a vida quer.
Nesse sentido, “desejo, necessidade e vontade” deveriam ser a primeira chave de leitura para entender, justamente, o que andamos lendo. Como bem disse Paulo Freire: “a leitura do mundo precede a leitura da palavra”. Assim, na conexão olhos-ouvido, a leitura – essa amiga compassiva tão esquecida ultimamente – não deveria sofrer com academicismos vazios que tentam ditar o que é ou não literatura, o que é ou não poesia e, finalmente, o que é ou não a arte. A literatura depende e dependerá da leitura que cada mundo, cada subjetividade torne possível. Eu gosto de pensar em LiteraCura; acho potente esse laço que a psicanálise endossou.
Soube que, recentemente, uma senhora da qual eu nunca tinha ouvido falar até então – ignorância minha ou proteção – andou dizendo que autores como Itamar Vieira Junior, entre outres, não eram literatura, porque, segundo ela, não trabalhavam com o significante, priorizando o conteúdo em detrimento, ainda segundo ela, da forma. Uma obra como Torto Arado não precisa de defesa, nem me gasto. Em todo o caso, é o tipo de crítica que cheira a colonialismo, à ânsia de europeidade, ainda que tenha citado duas autoras europeias. Porque o centro da Europa é sempre um homem branco. Um Proust, um Joyce da vida.
Até não iria dizer nada se ela não tivesse invocado essa palavra tão cara à psicanálise lacaniana: significante. Então, aproveito para “controversiar” um pouquinho no meu campo de origem. Significante é uma palavra cara, inclusive, porque, em nome dela, também cometemos uma surdez importante na clínica. A de pensar que psicanálise sem escuta do significante não é psicanálise. A escuta do significante permite a polissemia. Essa coisa tão linda na poesia e na literatura é útil na escuta psíquica, desde que dê acesso a algo novo da subjetividade.
No entanto, a linguagem, essa rebelde, tem vários caminhos de comunicar e de “incomunicar”; seus muros também são analisadores. É por isso que, em determinado dia, Lacan disse: o signo também é meu assunto. O signo, essa coisa que nos comanda sem que nos demos conta. Pare! E o pé freiou e você não percebeu que leu uma placa, uma cor e uma forma. Uma forma que te faz ler essa placa até quando ela está de costas. Um comando.
Essas concretudes interessaram ao psicanalista francês em poesias sem significantes, tal como é a poesia chinesa, que parte da caligrafia e dos ideogramas para ganhar seu efeito poético. Isso para dar um exemplo eurocentrado, ainda que de um europeu que olhou um pouquinho para o Oriente. Nem precisa, já disse Itamar que, entre ser acompanhado por seus leitores ou pela USP, prefere os primeiros. Digo que, na literatura negra, gaúcha e brasileira, estamos mais que bem na foto com Eliane Marques, Taiasmin Ohnmacht, Jeferson Tenório, entre outres.
Nossos olhos e ouvidos estão urgidos pelas leituras de dentro do nosso mundo.
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Foto da Capa: Eliane Marques / Reprodução do Instagram @elianemarques.escritora

