Essa é uma história real, que testemunhei noutro Carnaval – não nesse, em que estive em retiro espiritual. Estava postado num dos polos mais conhecidos e prestigiados da Cidade Alta de Olinda, os Quatro Cantos. Trata-se, de fato, de encruzilhada de caminhos, cruzamento da Rua do Amparo com a Rua 27 de Janeiro, no Sítio Histórico olindense, e que viria a ser nascedouro do sempre famoso bloco de carnaval da Pitombeira dos Quatro Cantos (agora mais famoso ainda, graças ao oscarizável Agente Secreto, filme do conterrâneo Kléber Mendonça Filho).
Pois muito bem: a narrativa que compartilho aqui tem três personagens: um solitário recifense, postado no mítico cruzamento dos Quatro Cantos, observando o movimento dos passantes, blocos, troças, la ursas e, para sua surpresa, duas francesas, uma das quais fortemente embriagada, a outra nem tanto. Preciso, desde já, abrir parênteses para informar que nosso lobo solitário, falante do português-recifense como sua língua materna, era igualmente francófono, recém-chegado, diga-se, de longo período em terras parisienses. Por essa razão, a decisão anunciada pela francesa mais bicada, em alto e bom som e em francês, lhe chegou clara e peremptória (traduzo aqui para facilitar o fluir do texto):
– Daqui não saio nunca mais. Não volto mais. Isso aqui é bom demais!
O observador imediatamente teve sua atenção atraída, até porque o mote “isso aqui é bom demais” lhe soou familiar, trecho de frevo que ele já tinha ouvido mais de uma vez…
A outra francesa, menos alcoolizada, tentou resgatar o tanto de cartesianismo francês ainda não diluído em caipirinha, e rebateu:
– Chérie, a ocasião é atípica, pois estamos em pleno Carnaval brésilien, você está vários goles além do razoável, você não tem como nem pensar em semelhante decisão.
Mas a francesa, tomada de amores por Olinda (no Carnaval), não se deixou convencer:
– As pessoas são claramente mais gentis. A música é maravilhosa. O clima, de uma tepidez que convida à nudez, à festa, à dança. E por falar nisso, a Pitombeira (“Pitomberrá”) já passou?
– J’en sais rien / Não faço ideia, respondeu a outra, já se impacientando.
Nossa simpática personagem não se fez de rogada: olhou ao redor, identificou o nosso personagem brasileiro-francófono que as observava dissimuladamente, e, meio à queima-roupa, e em francês, lhe dirigiu a seguinte pergunta:
– Pardon, a Pitomberrá já passou por aqui?
O conterrâneo prontamente respondeu, igualmente em francês:
– Ainda não, mas vai passar. Fique tranquila e espere um pouco…
– Merci – respondeu a interlocutora.
– Je vous en prie (de nada), respondeu o conterrâneo.
A francesa enamorada dos eflúvios momescos olindenses não se deu conta, de imediato, do que havia se passado. Retomou a conversa com a amiga, repassando a informação que havia recebido, e já se encaminhando para o planejamento enquanto a Pitombeira chegava, blá blá blá, quando de repente lhe caiu a ficha! Ela grelou os olhos, parou uma frase no meio e dirigiu-se à amiga, entre chocada e maravilhada!
– Você viu? VOCÊ VIU??? O quanto são gentis?!!!
E arrematou:
– Et en plus, ils parlent français! E, além do mais, falam francês!!!!
A outra francesa fez um ar de desamparo, ainda mais depois do arremate da francesa recém-conquistada por nosso ethos olindense/carnavalesco:
– Não vou embora daqui NUNCA MAIS! Isso aqui é uma Shangri-La!
– Se me permite uma pequena correção (disse o interlocutor pernambucano), é melhor que Shangri-La – bem-vindas à Pasárgada Olindense, onde serão ambas bem-vindas, como amigas do rei…
A francesa mais sóbria, já começando a se arrepender por estar uma dose aquém das demandas da situação, perguntou:
– Mas não estamos em Olinda????
– SIM, c’est sûr – Olinda Pasárgada dos Caetés.
Manoel Bandeira assentiu no céu de guirlandas dos Quatro Cantos, a Pitombeira ressurgiu em seu berço, Olinda Marim dos Caetés se mostrou generosamente às francesas, que foram tragadas pela serpente humana movendo-se em ritmo de frevo.
Nunca mais foram vistas no arrondissement parisiense de onde partiram, e não há notícia do paradeiro delas.
Assim se passou.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

