É possível que, em função dos anos que estudei e trabalhei na França, onde meus filhos, Bárbara e Lucas, fizeram toda — ou parte — de sua educação formal, eu seja um defensor infatigável do republicanismo escolar. E é por isso que eu considero que o Brasil não é “UM” país desigual — são vários os “BRASIS” desiguais: o Brasil do gênero, da classe social, da cor, da região, dos impostos, da água encanada… Até na esperança nós somos desiguais! Temos, inclusive, projetos não diferentes, mas precisamente desiguais de subjetivação, quer dizer, da oferta de predicados com os quais podemos nos ver e sermos vistos como SUJEITOS, e essa desigualdade de predicados subjetivantes passa necessariamente pela escola!
Nosso “social” transforma toda diferença em desigualdade, e toda desigualdade em hierarquia e, em seguida, em sumária exclusão. “Nossa” exclusão tem duas pontas: a primeira impede o excluído de dispor da linguagem e dos conceitos necessários para refletir sobre sua própria exclusão (somos nós, os “incluídos”, que dispomos e oferecemos tais conceitos), e isso porque nunca oferecemos um tipo de escola que proporcionasse, republicanamente, os instrumentos do PENSAR/FALAR/JULGAR/AGIR. O excluído quase nunca está presente quando nós falamos “dele”, “sobre” ele, “para” ele (como neste artigo que estou escrevendo) e queremos sempre que ele pense sua exclusão (quando isto se torna eventualmente possível) a partir de nossos conceitos (luta de classes, aporofobia, invisibilidade…). Produzir o silêncio é a primeira face desse processo de exclusão institucional. A outra ponta é o desaparecimento: estão aí, mas fazemos de conta que não existem; clamam contra sua fome, mas nossos ouvidos hierárquicos ouvem outra coisa; morrem diante de nós, mas nossos olhos “desigualizantes” veem apenas… estatísticas!
Conheci, admirei e defendi (apesar de suas contradições) a escola republicana francesa, onde inclusive terminei meus estudos superiores e onde tive a oportunidade de ensinar (Universidade de Montpellier): tenho todas as razões para defender, com as forças republicanas que ainda me habitam, o sistema de COTAS nas Universidades Federais: esse sistema é o balbucio, às vezes insuficiente, mas necessário, de um republicanismo educacional para o qual nossa “república” virou o rosto!
Sartre, que antes de fazer sua primeira viagem ao Brasil, lera “Maîtres et Esclaves” (a versão francesa de Casa Grande & Senzala), por indicação de seu amigo Jorge Amado, e acreditara em nossa “democracia racial”, na palestra que deu na antiga Universidade do Brasil (Rio de Janeiro), perguntou à plateia: “Onde estão os negros?”. Hoje, ele não perguntaria mais!
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Foto da Capa: Sartre e Simone de Beavouir no Brasil, na foto com Jorge Amado / Acervo FCLar

