Este texto tem como objetivo promover uma discussão centrada em torno da pergunta: quando falamos em diversidade, de que é mesmo que estamos falando? Seu propósito será o de formular questões propositivas para uma ontologia da diversidade, encaminhando reflexões em torno do conceito de “unocomplexidade”, formulado por este autor com a finalidade de enfrentar os fenômenos sociais reunidos na categoria diversidade. Desconfio de que termos como igualdade, pluralidades, diversidade, promulgados sem uma consideração devida a quem se destinam, podem significar estratégia de encobrimento e/ou dominação.
Cada pessoa deve explicitar para si e para os demais as razões do seu viver. O ser humano é, em si mesmo, um ser de relações, e a sua efetivação como sujeito que se constrói exige um tecido social. Aristóteles defendeu, insistentemente, a natureza política, isto é, sociável do ser humano. Chegou a apregoar que “quem não pode entrar a fazer parte de uma comunidade ou quem não precisa de nada, bastando-se a si mesmo, não é parte de uma cidade, mas é ou uma fera ou um Deus” (Pol. I, 2, 1253 a 27).
A vida cotidiana, na sua totalidade, é construída na partilha com outros. Diuturnamente, estamos em constante contato com outros, na comunicação e na interrogação. Mesmo quando estamos sozinhos, na biblioteca, ou realizando tarefas individuais, por exemplo, os outros estão de algum modo “presentes”. Mas a presença maciça do outro acontece na situação face a face (Rabuske, 1981). Nessas relações, face a face, muitas coisas podem acontecer, inclusive a apreensão da subjetividade exteriorizada do outro, mediada pelo máximo de sinais e expressões. Ocorre que, aí, a subjetividade do eu torna-se outra, porque objetivada para o mundo além de sua interioridade. Essa apreensão de realidades ontológicas e existenciais diferentes propicia não somente o encontro de “eus” diferenciados pelas características peculiares a cada um, mas também o encontro consigo mesmo. Pois é mediado pelo universo das nossas relações que nos percebemos como um.
No mundo moderno propiciou o desenraizamento do chamado ser humano. Este, viu, de repente, questionadas suas mais óbvias certezas: especula-se a propósito de uma nova ordem cosmológica, arrancando-lhe a crença secular de habitar o centro do universo – a terra. O fenômeno das grandes cidades levará ao anonimato aquele que se dilacerou na multidão, perdendo não só a sua segurança social, mas também o próprio poder de controle de suas criações. Assiste-se ao desmoronamento dos dogmas religiosos que lhe asseguravam a certeza do além-túmulo e o reconforto no sofrimento. Ousados pensadores debruçaram-se sobre as profundezas do psiquismo humano, revelando as motivações secretas do comportamento. Surge o inconsciente, a desrazão; a loucura apresenta-se como próxima da sanidade. Por fim, ainda podemos falar na perda de segurança axiológica, remetendo a Nietzsche, que denunciou que a sociedade assassina de Deus continuava apoiando n’Ele os valores recebidos. O filósofo provoca o homem contemporâneo para que encontre a nova fundamentação de seus valores. Marx defende sua tese de que o homem é um ser proveniente da natureza; dirá, ele vem da natureza e não vive sem ela; é, portanto, limitado e finito como qualquer outro ser vivo.
Temos, assim, uma crise generalizada na história da raça humana que leva, necessariamente, a repensar as ideias de mundo e humanos até então vigentes.
Parece que este recente final de século tem representado um grande desafio à nossa capacidade de conceber o ser humano, visto que os inquestionáveis dogmas que o consagravam com uma aura quase sagrada são diuturnamente negados por ele próprio. Tillich (1952), contemplando este mundo da técnica e da despersonalização, no qual parecemos apenas produto dos acontecimentos sociais e políticos, reconhece como árdua a tarefa de construir o significado da vida ante tantas adversidades. Pronuncia então a “coragem de ser” como um grande desafio do nosso tempo.
O mundo humano é, então, produto e produtor do ser humano; é o indispensável meio cultural para a produção e sobrevivência da espécie humana e de seus indivíduos; da mesma forma que o indivíduo é indispensável para a produção desse meio cultural. Assim, embora distintos no plano dos conceitos abstratos, mundo e pessoa humana não se excluem nem se negam, pois o humano não existe sem a natureza, nem ela sem ele (Lara, 1996). A propósito, a expressão mundo já pressupõe o trabalho de intervenção da pessoa na natureza; assim, o mundo é mundo humano; do mesmo modo que a expressão humano supõe a relação dialética do animal que se constitui humano com a mesma natureza. Dessa forma, a transformação do mundo é também transformação deste.
Alojados numa sociedade estruturalmente desigual, abraçados num sistema cuja condição é a expropriação daquilo que há de “humano” na grande maioria, as pessoas são sacolejadas pelo vendaval de produtos implantados artificialmente como supostamente seus. Aqui, os pressupostos da igualdade como forma de aplainamento de idiossincrasias e necessidades específicas, da diversidade como mot de passe para a modernidade das modernidades. Ingredientes engendrados para que tenhamos sempre um pouco mais do mesmo, ou seja, “tudo como dantes, quartel-general em Abrantes”.
Um olhar apressado sobre o tema da diversidade poderá induzir uma compreensão em torno de fenômenos como gênero, etnia, sexualidade, multiculturalismo, etc. Esse olhar não é falso; todavia, parece incompleto. Corre-se o risco, em vezes não raras, de enfrentarmos questões sociais esbarrando, ou, melhor dizendo, bastando-se no fenômeno mesmo. O problema das sexualidades esbarra na crítica à homofobia e ao direito da orientação sexual; a questão das juventudes em querelas culturais ou nas manifestações de sua suposta vulnerabilidade; o tema do racismo, no preconceito de cor; a discussão de gênero, no enfrentamento do machismo. Somos levados a crer que a ênfase na tematização de uma dimensão do problema representa sua totalidade. Aliás, a categoria totalidade requer ser colocada em suspensão. Produzimos uma simplificação de tais fenômenos, perdendo a possibilidade de percebê-los em sua complexidade.
Um termo como biodiversidade parece sinalizar para um diverso que é diverso porque múltiplo, porque diferente. Diferente no sentido de algo fora de mim. Poderíamos, quem sabe, trabalhar com o conceito de unocomplexidade. Uno porque guarda uma singularidade peculiar a seres de gêneros e espécies semelhantes, o ser humano, por exemplo, como ser chamado a produzir uma humanidade. Complexo porque, como explica Morin, tecido em conjunto, em processo. É igual sem ser o mesmo; é diferente sem ser desigual. Com isso, quero apontar para uma igualdade que é fundamental enquanto dimensão compreensiva; porém, diferente, enquanto manifestação fenomênica, e, portanto, dimensão extensiva. É igual na diferença e diferente na igualdade.
Com o conceito de unocomplexidade, quero representar mais do que a apreensão de coisas que são diversas, mesmo encerrando uma natureza singular. Mais, encaminhar que tais coisas diversas, diferentes, dialogam entre si em sua diferença mesma e, na singularidade peculiar, se solidarizam. Melhor dizendo, um si mesmo intrinsecamente ligado ao outro em razão de compreender passar por ele sua especificidade e, por ele, a especificidade do outro. Assim, a experiência da diversidade pode ser apontada como uma das maiores riquezas do ser humano, porque encerra, a um tempo só, suas diferenças e semelhanças. Entretanto, a primeira coisa que ela significa não está representada pela diversidade de indivíduos diferentes num determinado espaço e tempo; mas, antes, pela própria experiência que o sujeito faz de si mesmo ao perceber-se como diverso e, consequentemente, como outro do outro.
O pensar ontológico sobre a diversidade implica a compreensão de que grupos sociais que guardam características identitárias semelhantes possuem peculiaridades individuais que tendem a ser aplainadas, em leituras que parecem pensar a sociedade como um todo homogêneo sem reconhecer diferenças. Assim, estamos sempre falando genericamente de pessoas e grupos sociais.
A afirmação da diversidade não é, deste modo, nenhum favor que a sociedade ou os educadores empreendem, ou o é apenas parcialmente. Trata-se unicamente de um fato inerente à natureza do ser. Por isso, a categoria da unocomplexidade, ao mesmo tempo que afirma uma igualdade natural e necessária a todo o gênero humano, reconhece, como próprio, formas e manifestações peculiares de expressão dessa tal humanidade. Uma vez mais, procura deter-se nas diferenças ao afirmar as igualdades.
Junot Cornélio Matos, cearense de Juazeiro do Norte, casado, pai de duas filhas e avô da pequena Ara e dos miúdos Cícero e Zui. Tem Licenciatura em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco (1985), Mestrado em Filosofia pela UFPE (1994) e doutorado em Educação pela Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP (1999). É professor do Departamento de Filosofia da UFPE.
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